Certo, vamos falar sobre liberdade de expressão. Imagine um mundo onde todos têm o direito de expressar seus pensamentos, ideias, comportamentos e identidades sem que ninguém reforce, restrinja ou coloque regras em nossa vida. Imagine um mundo onde você pode ser bom e mau, e ninguém parece se importar de verdade – um mundo de liberdade e celebração da singularidade de todos, sem limites. Você pode ser qualquer coisa que imaginar. Parece um mundo perfeito, não é mesmo? Bem, antes que você imagine mais, Igor Grom existe para que você pense mais sobre isso. Major Grom Contra o Dr. Peste (Mayor Grom: Chumnoy Doktor), novo filme original russo da Netflix, que adapta uma série de quadrinhos de mesmo nome de Arytom Gabrelyanov publicada pela editora Bubble Comic, inesperadamente traz essa reflexão e consegue ser um refresco aos filmes de super-heróis convencionais por conta de sua absurda inventividade sem qualquer compromisso com a coerência e enredo enérgico que certamente não o deixará entediado. Mais uma aposta russa da plataforma que, assim como o luxuoso Cidade de Gelo, impressiona pela magnitude.

A trama e o elenco

Na trama, digamos… singular, conhecemos a história de Igor Grom (Tikhon Zhiznevskiy), conhecido em São Petersburgo por seu caráter penetrante e atitude irreconciliável com os criminosos. Mas tudo muda dramaticamente com o aparecimento de uma pessoa chamada Doutor Peste (Dmitry Chbotaryov). Tendo declarado que sua cidade está “doente com a praga da ilegalidade”, ele inicia um “tratamento”, matando pessoas culpadas e inocentes. Com a sociedade agitada e os policiais impotentes, pela primeira vez, Igor enfrenta dificuldades na investigação, cujo desfecho pode determinar o destino de toda a cidade e, quem sabe, até do país. O conceito da história não é uma coisa nova no filme com temática de super-heróis, mas ainda é revigorante em sua composição e, ocasionalmente, oferece reviravoltas convincentes.

Estrelando o até talentoso Tikhon Zhiznevsky como o anti-herói/lobo solitário Igor Grom, as referências à DC Comics e ao Universo Cinematográfico da Marvel (tem cenas pós-créditos, não esqueça!) são fortes dentro do filme. É como uma reinvenção menos ambiciosa do gênero desenvolvida através de elementos de Batman: O Cavaleiro das Trevas e Coringa, com toques divertidos das questões políticas de V de Vingança, porém, pelo ponto de vista do cinema blockbuster russo e suas pérolas criativas – recomendo fortemente assistir Os Guardiões (2017).

Com uma orquestra harmoniosa e dinâmica e elementos de rock, somada ao trabalho atencioso da fotografia marcante e da câmera, a atmosfera gótica de Petersburgo é um prato cheio para a diversão dentro do conceito um tanto quanto macabro do enredo e seus personagens excêntricos, que provocam não só o espectador, mas todo o filme com um desenvolvimento interessante.

Através de algumas reflexões atrativas, a história – quem diria – é uma mistura de violação da lei, poder oculto, influência da mídia, uma batalha de ideologias e uma base moral forte sobre livre-arbítrio, tudo isso com o uso sofisticado de CGI que deixa alguns filmes mais populares no chinelo.

No entanto, o único grande problema de Major Grom contra o Dr. Peste está mesmo em sua exorbitante e desnecessária duração de 2 horas e 16 minutos. Falta polimento em certas partes da trama, que são esticadas até extrair tudo possível. Há coisa demais acontecendo o tempo todo e, mesmo com personagens sólidos e divertidos, o elenco é extenso. Por sorte, o roteiro consegue emplacar ambiguidade e profundidade em boa parte deles.

A direção

Apesar de um enredo complexo e em partes político, a linguagem é fácil ao nível filmes da Marvel, até mesmo com o senso de humor, só que aqui, ao invés de espirituoso, tá mais para sarcástico. Parte dessa facilidade narrativa está na boa condução do diretor e roteirista Oleg Trofim (Ice – Quando o Amor Transforma), que mantém o ritmo sempre em alta com cenas de ação elaboradas, assim como escolhe filmar cenas simples mas com bastante entusiasmo. Pelo tom do desfecho e as perguntas que ficaram em aberto, podemos esperar uma sequência promissora por aí.

Conclusão

Dessa forma, quem poderia esperar que um filme russo com o título Major Grom Contra o Dr. Peste fosse melhor que muitos filmes americanos de super-heróis? Pois é aí que está a surpresa agradável, ele consegue não apenas ser bom, como também apresenta um universo promissor, divertido e criativo que pode render uma franquia na Netflix.

Quanto mais baixa é a sua expectativa, mais a trama vai te fisgar e manter o suspense até o desfecho. Ainda com evidentes problemas narrativos e um roteiro muito preocupado com o sucesso dos blockbusters norte-americanos baseados em histórias em quadrinhos, é um refresco simples, barato e satisfatório para o gênero de super-heróis.

Nota: 7/10

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