Crítica | Campeões – Um exercício de empatia em comédia especial

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Chorar com uma comédia esportiva não é algo comum, mas com um filme bem-intencionado, dividido entre a simplicidade artística e a animação sincera e divertida de seus atores, essa tarefa se torna fácil. Campeões (Champions) – da Universal Pictures – segue um temperamental treinador de basquete que transforma um rebaixamento em uma oportunidade quando é colocado no comando de um time de jogadores com necessidades especiais. No melhor estilo “filme sessão da tarde para se sentir bem”, a comédia se torna uma vitrine raríssima para vários atores talentosos com deficiência intelectual, tudo isso enquanto diverte sem fazer grande esforço.

A trama e o elenco

E se o coração está nas performances surpreendentes do elenco jovem, é Woody Harrelson (Zumbilândia) o esqueleto que sustenta toda a narrativa ao emprestar seu carisma habitual para um protagonista competente, canastrão e com camadas que todos possamos nos familiarizar. Trata-se também da estreia solo do diretor Bobby Farrelly – depois de dividir a direção em sucessos como Quem Vai Ficar com Mary? – que se mostra bastante coordenado e capaz de conduzir uma trama simples, mas eficiente e sagaz no que se propõe alcançar.

A partir de um roteiro de Mark Rizzo (que adaptou a história baseada em eventos reais), o longa rapidamente expõe seus objetivos emocionais antes de abordar cada personagem, seus conflitos e dilemas, assim como suas adaptações para o mundo cruel em que vivemos. Na contramão de ser capacitista, inicialmente a trama pode até causar certo temor por nos fazer rir das peculiaridades de pessoas com algum tipo de limitação, mas logo se mostra uma forte aliada ao processo de olhar pra o outro sem preconceitos – afinal, assim como o protagonista, somos instigados a perceber que são jovens tão (ou até mais) capazes do que alguém sem alguma deficiência.

Após passar por um incidente envolvendo álcool e volante, o treinador Marcus assume o time de “diferentões” da cidade pequena como forma de penitência e ainda precisa usar essa oportunidade singular para aprender a colocar outras pessoas em primeiro lugar e desenvolver relações pessoais. A partir daí, a história apresenta rapidamente sua lista de jogadores com deficiência e o coloca no comando de seu time, chamado de Os Amigos. Muitos deles têm Síndrome de Down, cada um tem suas próprias idiossincrasias e todos simplesmente querem se divertir na quadra. Mais do que competir, eles querem se sentir úteis e enxergados.

Em várias sequências deliciosas, os atores exibem uma gama de personalidades muito além da categoria de “deficientes”, à qual são frequentemente reduzidos nos filmes de Hollywood. Todos entregam humor, drama e emoção na medida certa. Outro detalhe que não passa despercebido é como o filme pretende dar um olhar mais realista às questões do dia a dia desses jovens, seja no quesito sexualidade ou mesmo na rotina de trabalho.

O destaque entre os amigos é Craig (Matthew Von Der Ahe), cujas alegações arrogantes de ter várias namoradas (e detalhes do que eles gostam na cama). Há o diligente Benny (James Day Keith), que suporta silenciosamente o abuso em seu trabalho no restaurante, mas floresce na quadra. Há o Showtime (Bradley Edens), que insiste sorridente em arremessos para trás no meio da quadra e comemora, independentemente do resultado. E talvez a mais atraente do grupo seja Constentino (Madison Tevlin), uma garota altamente autoconsciente e sensata que é um fogo de artifício absoluto em todas as cenas. Cada um tem um timing cômico único e juntos são maravilhosamente engraçados. Um elenco de apoio admirável.

No entanto, um grande problema é que as peculiaridades de todos estão a serviço das reações de Marcus; suas falhas, suas dúvidas e até mesmo suas eventuais vitórias são enquadradas em grande parte em relação ao seu arco de caráter limitado, conforme estabelecido desde o início do filme. Apesar de permitir que seus muitos personagens deficientes nos falem sobre si mesmos, as cenas em que algum deles aparece sem a presença de Harrelson são raras.

Há também incansáveis erros de continuidade e algumas conversas em grupo soam mecânicas demais. A “jornada” de aprendizado de Marcus para abandonar a palavra com “R” é doce de assistir, mas fugaz, forçada, a típica transformação do homem branco americano através das minorias, como vemos em filmes terríveis como Green Book.

Veredito

Através de um olhar mais profundo e doce, Campeões é uma comédia esportiva não tradicional, mas que não consegue escapar de seu enredo básico e previsível. Ainda assim, o exercício de empatia é maravilhosamente divertido e faz derreter nossos corações. Realista, sincero e tão especial quanto o seu elenco talentoso e plenamente capaz de segurar uma comédia sem precisar ferir ninguém. Uma história simples, edificante e bem contada sobre conexão, amizade e o real significado de ser um vencedor. Seja na vida ou no esporte, tudo gira em torno de se sentir (e ser) capaz.

NOTA: 8/10

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