O limite entre fazer paródia de filmes de terror slasher e seguir o mesmíssimo modelo na construção dessa suposta homenagem é algo que mostra o descompasso de algumas produções recentes, cujo objetivo é rir da cafonice datada desses enredos, mas que acaba, inevitavelmente, sendo tão sem perspectiva quanto. Em determinado momento da trama, as referencias acabam e a narrativa despenca na mesma ladeira dos clássicos do horror, como é o caso do insosso ‘Freaky: No Corpo de um Assassino’, aposta da Blumhouse para esse ano após o grande sucesso de ‘A Morte Te Dá Parabéns’ entre o público mais jovem. Porém, enquanto o filme da jovem presa no tempo é uma clara homenagem à ‘Pânico’ e se sai bem na proposta, ‘Freaky’ tenta ser mais ousado e visa resgatar a essência datada dos anos 1980, especialmente da franquia ‘Sexta-Feira 13’, em um contexto teen que repete a fórmula de ‘Sexta-Feira Muito Louca’ (comédia estrelada por Lindsay Lohan), mas que não se sai bem nem no terror e muito menos na fantasia que se propõe fazer.

A trama e o elenco

Na maior preguiça possível, de um roteirista que teve uma pequena boa ideia e dela extraiu todas as suas possibilidades sem nenhuma profundidade, a trama de ‘Freaky: No Corpo de um Assassino’ acompanha 24 horas da vida da adolescente Millie (Kathryn Newton), que se tornará alvo de um carniceiro sanguinário (Vince Vaughn). Após um ataque, Millie descobre que ela e o maníaco trocaram de corpos e ela tem apenas um dia para recuperá-lo. O único problema é que agora ela parece fisicamente com o assassino, que é alvo de uma caçada em toda a cidade, enquanto ele se parece com uma menina de 17 anos, prestes a ir à um baile de formatura.

Dessa premissa até mesmo divertida e promissora em desenvolver uma franquia de terror com comédia semelhante ao que ‘A Babá’ anda fazendo, a fantasia da troca de corpos é descompensada e as escolhas são mergulhadas em clichês. O excesso de besteirol e as mortes ridículas, ainda que propositais, tiram a pouca substância que poderia ter tido e o roteiro abraça, sem dó nem piedade, os estereótipos mais banais.

O grande problema dessa exposição proposital de clichês é que a piada nem sempre funciona, como por exemplo, o uso do amigo gay estereotipado, uma artimanha exaustiva e um desserviço à comunidade LGBTQ+. Sua presença só existe para que a mesma possa gerar humor. Não há qualquer desenvolvimento nos coadjuvantes, assim como a pouca e vazia explicação dada sobre a maldição da adaga e a origem do assassino. O roteiro acredita estar sendo divertindo e, com isso, mergulha em um amontoado de incoerências no melhor estilo “quanto menos perguntar melhor”. Com isso, peca em focar pouco na relação de troca de corpos e nos dilemas que isso pode proporcionar e centraliza suas energias na comédia escrachada.

No entanto, há sim algumas poucas qualidades perdidas no caos, como por exemplo, o elenco. Kathryn Newton (Pokémon: Detetive Pikachu) tem charme, ainda que sua versão com o assassino no seu corpo seja monótona demais. Vince Vaughn (Os Estagiários), por sua vez, é a maior qualidade do filme. O ator está hilário e entrega um humor que beira o ridículo (algo que podemos esperar de uma adolescente no corpo de um homem adulto), mas que funciona perfeitamente, rouba o filme e salva a história de cair no completo tédio.

A direção e o roteiro

O roteiro, que começa no alto e despenca após consumir rapidamente todas as suas artimanhas e boas piadas, se esgota e abre espaço para um espetáculo de presepadas que culmina em um clímax estúpido, onde todos os conflitos são resolvidos de forma apressada. O trabalho de Christopher Landon (A Morte Te Dá Parabéns) na direção falta sagacidade e subversão de expectativas, como fez em seu outro grande filme de sucesso. Aqui, o diretor entrega o básico, sem surpresas pelo caminho em linha reta, e desperdiça a oportunidade de criar uma franquia original. No entanto, explora bem o lado gore desse tipo de obra e presentei os fãs, sedentos por violência gráfica, com momentos sangrentos que provocam aflição de olhar.

Conclusão

Ainda que o objetivo inicial seja rir de si mesma, a história de ‘Freaky: No Corpo de um Assassino’ se perde na linha tênue entre prestar uma homenagem e repetir a fórmula previsível do gênero. Se não fosse pela performance hilária de Vince Vaughn, que rouba o filme para si, pouca coisa teria funcionado, já que a premissa divertida se esgota rapidamente e sobra apenas uma abundância de clichês patéticos, empilhados em um enredo atulhado de incoerências que ofusca o humor, anula o terror e não aproveita a fantasia.

Nota: 6

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