Crítica | Mortal Kombat 2 – O Round 2 é o fatality que a franquia sempre prometeu

Convenhamos, independente de um roteiro insosso e personagens chatíssimos, o lançamento da nova versão de Mortal Kombat em pleno auge da pandemia, em 2021, já limitava qualquer chance real de impacto. Era um filme que, por si só, já enfrentava dificuldades criativas, excessivamente sério, quase sisudo, e acabou ainda mais prejudicado pelo contexto. O resultado foi uma obra que não apenas parecia bem menor do que deveria, mas que também desperdiçava o potencial de uma franquia conhecida nos games justamente pelo exagero, pela violência estilizada e pelo entretenimento 18+ sem pudor.

Felizmente, a sequência entende exatamente onde o antecessor falhou miseravelmente — e faz disso seu maior trunfo. Sem o peso da pandemia e com uma abordagem mais consciente do próprio universo, Mortal Kombat 2 abraça o que o público sempre clamou: ação desenfreada, fan service sem vergonha e uma seleção de personagens infinitamente mais legais.

O filme abandona a pretensão de “filme-conceito de origem”, de ter que se explicar a cada diálogo, e encontra um tom mais direto e, acima de tudo, divertido pra cacete. É aquele tipo de experiência que funciona melhor quanto menos tenta justificar e mais entrega espetáculo, especialmente em uma tela IMAX, onde cada golpe brutal parece finalmente ter o impacto que a franquia sempre prometeu.

Os acertos e erros do filme

Mas há algo curioso nesse percurso caótico: mesmo em meio às limitações da pandemia, Mortal Kombat conseguiu um desempenho respeitável, tanto nos cinemas quanto no streaming na época, o que tornava uma continuação praticamente inevitável, afinal, Hollywood é isso. Mas ao assistir ao segundo capítulo, a sensação é de que este sempre foi o destino natural da franquia nos cinemas e sua versão definitiva.

E, de fato, ele chega mais próximo desse ideal. Não há aqui qualquer tentativa de sofisticar demais a proposta: a trama continua simplista, despretensiosa, refletindo a própria essência dos jogos de luta, que sempre funcionaram mais como escapismo do que como narrativa densa. Ninguém joga MK pela história.

E talvez seja justamente aí que o filme acerta em cheio. Mortal Kombat 2 não tenta ser algo além do que consegue sustentar, e isso inclui até a forma despreocupada com que lida com suas próprias regras de combate, como o retorno de personagens mortos absolutamente do nada. A proposta é clara como o céu noturno: mergulhar o espectador em uma experiência energética, guiada pelos torneios mortais que definem a identidade da franquia. Nesse cenário, a presença do charmoso Karl Urban (o Billy Butcher de The Boys) como o carismático e badass Johnny Cage adiciona uma camada extra de humor e nostalgia que torna a jornada ainda mais empolgante.

Desta vez, após os conflitos arrastados do filme anterior, os lutadores finalmente se enfrentam na batalha decisiva contra o domínio sombrio de Shao Kahn, que ameaça colocar o Reino da Terra de joelhos – literalmente. Não há exatamente surpresas nesse ponto. A estrutura segue o caminho mais previsível possível, mas isso está longe de ser um problema dentro da proposta. MK2 entende que sua força não está em reinventar a roda.

Nesse sentido, o filme até demonstra certa… não sei se coragem seria a palavra ideal, mas Ok… ao mexer no próprio tabuleiro, eliminando personagens relevantes ao longo das lutas. Por exemplo, o ex-protagonista Lewis Tan retorna como Cole Young, descendente do poderoso Hanzo Hasashi (ou Scorpion para os mais familiarizados), mas deixa de ocupar o centro da história, uma decisão muito acertada. O protagonismo passa a orbitar mais em torno de Adeline Rudolph, que assume a icônica Kitana com simpatia e força total.

O roteiro, por sua vez, felizmente abandona longas explicações vazias para investir diretamente nos combates eletrizantes, coreografados com precisão e embalados por cenários e trilha sonora que parecem ter saído diretamente dos jogos, um prato cheio para fãs de longa data. A direção segue nas mãos de Simon McQuoid, mas a diferença de segurança é colossal.

Aqui, ele parece muito mais confortável dentro desse universo, conduzindo a narrativa com um entendimento claro do que torna Mortal Kombat tão popular: a violência estilizada, a extravagância e o espetáculo insano. Mesmo cercado por clichês, inevitáveis em uma história sobre figuras excêntricas e coloridas se enfrentando até o limite, o diretor consegue transformar cada confronto em uma experiência imersiva, que transporta o espectador diretamente para o coração das lutas malucas que a gente tanto ama assistir.

Os personagens centrais do primeiro filme também retornam, mas agora orbitando a trama com funções bem reduzidas. É o caso de Kano (sim, ele ressuscita!), vivido por Josh Lawson, e Sonya Blade, interpretada por Jessica McNamee. A escolha abre espaço para que o filme invista pesado nas sequências de luta longas, bem coreografadas e editadas com ritmo de videogame, como se cada embate ocupasse o tempo de uma partida completa.

Veredito

Mortal Kombat 2 é um fluxo constante de ação, turbinado por sangue em níveis generosos, um round 2 com o fatality que a franquia tanto merece. E para um filme baseado em videogame e, mais do que isso, em uma franquia que nunca se destacou pela complexidade narrativa, Mk2 surpreende ao entregar uma construção de mundo mais sólida, aliada a uma diversão assumidamente excêntrica. É um mergulho direto em combates brutais, carregados de pura nostalgia. A sensação é de que estamos diante de algo que finalmente entende o próprio DNA, a ponto de quase não parecer uma continuação direta.

Isso não significa que tudo funcione perfeitamente, ainda há resquícios dos problemas do filme original, especialmente em algumas decisões de roteiro. Mas a diferença é que, desta vez, o foco está em explicar menos e lutar mais. Sem remorso, sem regras e, principalmente, sem a pretensão de ser maior do que é, o filme abraça o espetáculo insano. E quando faz isso, entrega uma experiência intensa, quase ininterrupta, que prende a atenção do início ao fim e deixa no ar uma vontade genuína de revisitar esse universo feroz e selbagem e mais algumas vezes.

NOTA: 8

Última Notícia

Mais recentes

Publicidadespot_img

Você vai querer ler isto: