Crítica | Zona de Interesse mostra o pior lado do ser humano de maneira surreal

Filmes sobre a Segunda Guerra Mundial não são nenhuma novidade. O maior conflito bélico dos tempos modernos já foi apresentado nos cinemas por quase todos os ângulos possíveis: o lado dos vencedores, o lado dos perdedores, a visão dos soldados, dos comandantes, dos americanos, dos soviéticos, dos alemães, dos militares, dos civis, de quem foi afetado indiretamente e de quem viveu do primeiro ao último dia da guerra. Porém, em Zona Interesse (The Zone Of Interest), da Diamond Films, somos apresentados a um dos lados mais cruéis e inexplorados desse período histórico.

A trama de Zona de Interesse

Em Zona de Interesse acompanhamos o dia a dia de Rudolf e Hedwig Höss, um casal que divide sua rotina com o marido trabalhando para sustentar a casa e a esposa cuidando do lar e dos filhos em uma bela casa bem ao lado do trabalho de Rudolf. Uma trama normal e sequer digna de nota, se não fosse pelo fato do marido ser o chefe do campo de concentração de Auschwitz, o local de um dos maiores massacres da história humana.

O grande trunfo do diretor Jonathan Glazer é poder se utilizar do fato de a Segunda Guerra Mundial ser um assunto amplamente debatido, reportado e retratado em suas diversas formas. Todos os horrores da guerra que o público está acostumado a ver em produções como essa jamais chega aos nossos olhos, mas nos circunda como um mau presságio durante o andamento do longa.

E, de maneira muito inteligente, o diretor de Zona de Interesse nos faz até gostar da família alemã em certos pontos, com suas histórias, seus amores, seus passeios e o cotidiano comum de qualquer família ideal, quase tudo como num comercial de margarina.

E é nesse local que mora a crueldade e o terror que Glazer quer que o espectador sinta. Diante de uma das maiores atrocidades que o ser humano já cometeu, reside a calma e o amor de uma família comum. Não é completamente absurdo para essa família que estamos vendo na tela que pessoas estejam sendo incineradas a um simples muro de distância, que possam ser seus antigos vizinhos ou até mesmo pessoas com quem trabalhavam antes da guerra. Oficiais se reúnem para discutir genocídio como homens de negócio sentam a mesa para falar sobre melhorias nas empresas ou centros de distruibuição.

Não existe aqui o estereótipo do filme de Segunda Guerra de um alemão grande assustador esbravejando a língua germânica com seu uniforme da Gestapo ou da SS diante de judeus aprisionados. Aqui o que vemos são pais cuidando dos filhos enquanto as pessoas choram ao lado da casa, com tiros ressoando entre o cantar dos pássaros e chaminés esfumaçando a todo vapor entre um amanhecer e outro. E talvez seja essa a grande tragédia que Jonathan Glazer queira mostrar: a banalização do inaceitável.

Talvez o único defeito de Zona de Interesse seja se alongar um pouco demais na parte burocrática nazista, ainda que sirva para deixar o espectador ainda pior em relação a total normalidade como a sociedade funciona diante do massacre do povo judeu. Mas não acho que isso tire qualquer impacto da mensagem que o longa quer transmitir.

Veredito

Zona de Interesse nos mostra o pior lado do ser humano da maneira mais surreal possível. Não com maldade ou violência, mas com um afago e o sorriso de uma criança alheia a todo seu redor. Certamente um dos grandes filmes desse ano.

NOTA: 9/10

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