Crítica | Retratos Fantasmas – A eternidade do cinema assombrada pelo tempo

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Em um mundo onde o tempo constantemente ameaça apagar nossas memórias e raízes, o cinema surge como um guardião da história, eternizando os rostos e ecos de vozes que já se foram. Cada fantasma projetado nas telas, diluído em inúmeras narrativas, contém em si a essência do que é ser humano. Retratos Fantasmas, dirigido pelo visionário Kleber Mendonça Filho (Som ao redor, Bacurau), surge não apenas como um documentário convencional, mas como uma ode à sétima arte, buscando na escuridão das memórias a luz do nosso ser coletivo, sobretudo em um Brasil que nos últimos quatro anos teve parte de sua essência cinematográfica arrancada do solo sem dó nem piedade. Este filme afíado vem na hora ideal.

O enredo e a técnica de Retratos Fantasmas

O centro de Recife, com sua aura repleta de história e tradição (e um leve aroma de mijo, maresia e frutas, como diz o próprio diretor), é retratado com carinho e reverência. A cidade, que no século XX era um polo cultural do Nordeste e sede de grandes distribuidoras internacionais, resplandeceu com a magia das luzes dos cinemas de rua. No entanto, as marcas do tempo são inescapáveis, e as ruínas desses monumentos culturais refletem as verdades intrínsecas da sociedade e suas escolhas.

O filme, em três capítulos, nos leva a um passeio nostálgico, onde Mendonça Filho adentra seu próprio universo peculiar, narrando suas memórias da infância, sua paixão pelo cinema e a influência de Recife em sua trajetória. Sete anos de trabalho meticuloso resultam em 91 minutos de imersão profunda na alma do cineasta e da cidade.

O aspecto técnico do filme é, sem dúvida, uma de suas maiores forças. Enock Carvalho, na restauração de imagens, e Matheus Farias, na montagem, capturam a essência das memórias fragmentadas e as recriam em tela com primor. O poder sonoro, junto com a sequência de imagens paradas e vídeos de baixa qualidade, faz com que o passado ressuscite, preenchendo o espaço com sentimentos e emoções palpáveis. É difícil conter as lágrimas em diversos momentos.

Porém, Retratos Fantasmas não é só sobre a melancolia da perda. Ele também celebra a alegria da vida cotidiana, trazendo um senso de humor aguçado e observações argutas sobre os aspectos rotineiros da vida urbana e da inevitável evolução. Aliás, o filme é muito sobre invisibilidade e apagamento e isso rende um desfecho hilário, talvez um dos mais criativos do cinema do cineasta.

A metamorfose das salas clássicas de cinemas em igrejas, por exemplo, também é apresentada de forma criativa, sugerindo que, apesar das mudanças, o sagrado permanece – se antes era a adoração à sétima arte, agora é ao divino. Ao revisitar o passado, Mendonça Filho levanta questões pertinentes sobre nossas escolhas presentes e como isso deve afetar o futuro. Doce, triste e cortante, mas essencial.

Veredito

A magia de Retratos Fantasmas reside em sua capacidade de traduzir sentimentos em imagens. As filmagens pessoais de Mendonça Filho, intercaladas com registros de arquivo, pintam um retrato vívido do cinema brasileiro, da cidade de Recife e da conexão familiar do diretor com ambos. Esse documentário é, sem dúvida, um marco na preservação da memória cinematográfica brasileira. Um amor não só por filme como também pelo lugar que o exibe.

No entanto, mesmo com sua celebração dos “fantasmas” que enchem nossas ruas e memórias, o filme nos recorda do privilégio de sermos “assombrados” por eles. Por mais efêmera que a existência humana possa parecer, ela deixa um legado – e, como Mendonça Filho habilmente demonstra, o cinema é uma manifestação dessa eternidade. Após anos de asfixia cultural no Brasil, Retratos Fantasmas nos serve como lembrete de que a cultura, como o cinema, sobrevive e floresce, resistindo ao tempo e às adversidades. E é essa resiliência que, de fato, nos define. O filme brasileiro do ano.

NOTA: 9/10

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