Crítica | Pânico – O mais puro suco da diversão sem culpa

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Consciente de seu papel na construção de uma base de fãs sólida, que fez o gênero slasher renascer em meados dos anos 90 e se solidificar como uma experiência divertida de ser assistida, a franquia Pânico (Scream) acabou por se tornar um curioso termômetro de progressão do terror na história do cinema. E, despois de uma trilogia fechada em um ciclo, de década em década o imparável Ghostface retorna para nos lembrar que gênero ainda existe, mesmo que já tenha se transformado em uma completa paródia de si mesmo.

Com Pânico de 2022 (que funciona como o quinto filme da saga), essa regra não seria diferente. E isso é seu maior problema. Após 25 anos desde que tudo começou, o novo capítulo resgata fielmente a essência (e junto com isso todos os erros) do início despretensioso da trama, mas brinca em revisitar suas peculiaridades enquanto – mais uma vez – ri de si mesmo e do nível de intelectualidade que o horror alcançou nos tempos atuais, com as obras do “pós-horror”, fora, é claro, a alfinetada na formação de uma nova geração de pseudo cult do gênero.

A trama e o elenco

Para começo de conversa, ainda que seja umas das melhores experiências coletivas de ser assistida dentro do gênero por conta de suas autorreferências, é inegável que a franquia Pânico tem feito o exato mesmo filme desde 1997. Com novidades rasas aqui e ali e uma tonelada de retcons para justificar motivações pouco cabíveis dos vilões, as sequências do original tem sido uma longa jornada de reinvenção que nunca, de fato, atravessa a rua da criatividade sem ser atropelada pela pressão absurda dos fãs mais fiéis e pelo medo incontestável de sair de sua zona de conforto e modificar a fórmula. Afinal, por qual razão mudar algo que faz tanto sucesso? Bom, a resposta não é simples.

De fato, mudar o rumo não é fácil e a trama desse novo capítulo se mostra autoconsciente de que são exatamente esses fãs apaixonados as maiores barreiras, não apenas dessa saga, mas de tudo que o cinema já produziu. Confrontar o fandom é uma luta incansável e, por vezes, exaustiva demais para ser levada à diante.

Toda essa resistência e medo de fazer algo fora da curva ainda reflete na trama do quinto capítulo, que serve quase como uma sequência direta do filme de 1996 – uma vez que resgata algumas pontas soltas sobre a vida dos primeiros assassinos da franquia – mas utiliza o mesmo modelo do capítulo anterior, lançado em 2011, com sua tonelada de atores jovens coadjuvantes, mortes mais sangrentas e o repetitivo discurso de que, dessa vez, o bastão será passado adiante. Algo que, convenhamos, enquanto existir o número alto de tempo de tela do trio de protagonistas do original (Sidney, Gale e Dewey), nunca será.

Totalmente apegado ao passado e suas regras básicas – põe básicas nisso – o novo enredo, que havia sido vendido como um recomeço refrescante e mais inteligente, no geral não agrega absolutamente nenhuma novidade à fórmula, mas, pela primeira vez, mata alguém de peso.

Enquanto tenta desvendar quem atacou sua irmã mais nova, replicando a técnica utilizada pelo temido Ghostface, Sam (vivida pela ótima Melissa Barrera) retorna à Woodsboro para confrontar as dores de seu passado e acaba sendo o centro de uma nova onda de assassinatos sanguinolentos, inspirados nos crimes dos anos 90 e na trama do fatídico “Apunhalada”, filme fictício que narra as mortes reais dentro da história.

Com seu novo grupo diversificado de amigos e a ajuda – óbvia – dos veteranos sobreviventes, ela corre contra o tempo para descobrir quem é o novo vilão e qual sua motivação. E é isso e nada mais. Sem grandes reviravoltas, o roteiro brinca mais uma vez com os clichês de filmes de terror – ainda que, como sempre, cai em todos eles consequentemente – e proporciona uma aventura comum, com mais violência e sem vilões ou mortes memoráveis.

Neve Campbell mais uma vez retorna como Sidney e agora parece ter o nível de peso e respeito das final girls como Jamie Lee Curtis. O tempo todo o roteiro a reverencia e mostra que ela é a própria reencarnação da resiliência. A atriz visivelmente se diverte com as participações e, ainda que seja a âncora que prende a franquia no passado obsoleto, não deixa de ser divertido e nostálgico ver a personagem indestrutível em ação.

Courteney Cox e David Arquette, por sua vez, vivem uma relação mais conflituosa, menos próxima e que funciona para um dos maiores (e mais emotivos) acontecimentos da trama. Esse fato, aliás, é o ponto alto da história, mas perde seu efeito tão rapidamente quanto acontece. Se por um lado busca à todo custo respeitar a essência do clássico, por outro, testa a paciência de quem não tem tanto apego emocional assim. Felizmente, Jenna Ortega (Você) é a melhor adição possível ao novo time de gritadores e entrega de longe a melhor performance do grupo.

A direção

Outro grande desafio para a dupla de diretores em ascensão Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett (do ótimo Casamento Sangrento) é replicar com exatidão o estilo, a técnica e a paixão do mestre Wes Craven – criador da franquia e diretor de todos os filmes anteriores – que faleceu em 2015. E, nesse quesito, eles fazem algo definitivamente semelhante e fielmente referencial.

A condução é boa a trama tem, talvez, a melhor progressão da franquia, uma vez que divide suas cenas de ação e perseguição entre todos os atos, mas também deixa energia para o megalomaníaco clímax que se passa, inclusive, na mesma casa do original. No entanto, a atmosfera de suspense criada durante toda a trama perde força com seu desfecho cômico, pouco inventivo e nada surpreendente. Dessa vez os assassinos são até óbvios demais.

Conclusão

Por expor o lado tóxico do fandom, Pânico retorna arrogante e, enquanto presta seu amor à saga de horror que marcou a vida de muitos, dedica também uma carta de ódio aos fãs que não deixam a franquia assumir uma nova direção, quase que um apelo desesperado por liberdade criativa.

Ainda que inegavelmente tenha uma trama divertida, contemporânea e ótimos momentos de violência, não há nada de novo a ser acrescentado e mostra que o segredo do sucesso às vezes está em não fazer nada. Para alguns nostálgicos, isso é o mais puro suco da diversão sem culpa, é o resgate à essência e a saudação ao original, já para a nova geração – que vivencia uma torrente de filmes de “terror elevado” – a piada de tiozão não tem lá tanta graça mais. E Pânico não sabe mais qual é seu público.

Se tirar o tom sarcástico convencional e os fan services apelativos, pouco se sobra de um roteiro nada inventivo e terrivelmente preocupado com o que os fãs vão achar. Na busca por ser uma visita acalorada ao passado, ao começo de uma das maiores franquias do cinema, o quinto capítulo falha em trilhar seu próprio caminho (algo que já passou da hora!) e é tão devotado, que comete os mesmos erros do passado. Mesmo andando em círculos por 25 anos, ainda assim, dá aos apaixonados o que eles esperam e proporciona uma divertida reunião de velhos amigos, mas uma coisa é certa: é inegável que a franquia já entrou em pânico faz tempo e não sabe mais para onde seguir.

NOTA: 6/10

Leia também: Resumo PÂNICO: Tudo que você precisa relembrar antes de assistir o novo filme


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