Crítica | Marighella – Um dos filmes mais urgentes e importantes do cinema brasileiro

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Herói ou vilão? Salvador ou terrorista? O que faz de Carlos Marighella o alvo de tantos atritos entre a esquerda e direita brasileira por tantos anos? Bom, essas perguntas são a lenha que acende a fogueira provocada por Wagner Moura em seu novo filme – a cinebiografia Marighella – que está chegando agora aos cinemas brasileiros após alguns atrasos por conta da pandemia (e tentativas de censura!).

Antes de mais nada, é importante salientar que o longa vem recebendo diversos boicotes por parte da população de extrema-direita pró ditadura militar, que acredita na teoria de que algumas personalidades não merecem um filme próprio, como por exemplo, o que aconteceu com Suzane von Richthofen.

Porém, sinto dizer que cinema é (e sempre foi) um ato político e a arte em si não pode ser censurada ou mesmo justificada. O medo de eternizar uma pessoa no cinema só pode estar atrelado ao medo de falar sobre ela, de contar sua história – seja ela controversa ou não – e de lembrar de um período obscuro, terrível e criminoso que o Brasil de hoje finge que nunca existiu. Além do mais, vale ressaltar que alguns indivíduos transcendem suas ideologias e se transformam em mártires, como o caso do próprio Marighella e sua evidente luta contra a ditadura, mesmo que, para tal, ele tenha assumido uma postura de liderança violenta uma vez que, para seu movimento, a brutalidade só poderia ser combatida com brutalidade.

Em meio à um personagem tão arrebatador e ambíguo, Wagner Moura desenvolve uma obra poderosa, impactante e que sim, assume a postura de que Carlos era um homem de boas intenções em um Brasil dominado pelo autoritarismo, pela censura e pela violência injustificada. Um líder para os oprimidos na batalha incansável contra a opressão. Como isso poderia ser mais atual? No entanto, ao separar a figura controversa, o diretor constrói um longa-metragem de qualidade absurda – tanto narrativa quanto em aspectos técnicos – para remontar as dores, as alegrias e as fraquezas que fizeram de Marighella alguém que hoje, em 2021, ainda possui extrema relevância.

A trama e o elenco

Ao partir do princípio de explorar o lado oculto, pessoal e pai de família do guerrilheiro (vivido pelo fenômeno Seu Jorge, um dos melhores atores do cinema nacional atual), o longa seleciona importantes recortes de sua vida fora dos holofotes públicos – incluindo a relação de amor e carinho com seu filho e sua esposa Clara (Adriana Esteves sempre rouba a cena) – entrecortados por missões de seu grupo na luta revolucionária contra a ditadura militar brasileira, como na cena de abertura cheia de ação, que mostra o famoso assalto ao trem pagador.

Aos poucos, a intensidade da trama aumenta e, com ela, vem as tragédias que assumem proporções poderosas uma vez que todos ao redor do guerrilheiro estão à mercê da morte a qualquer momento e sua luta se torna cada vez mais perigosa, especialmente quando seu principal opositor, o policial Lúcio (vivido excelentemente por Bruno Gagliasso), o rotula como inimigo público – o grande vilão à ser caçado e morto.

Dentro dessa narrativa de altos e baixos, orquestrada por uma direção espetacular de Moura – que mescla ação com drama de maneira impactante – somos levados de volta ao caos que era o país de 1964 – após o golpe militar que tirou os direitos civis, a independência da imprensa e, principalmente, o direito do povo de decidir quem deveria ser o líder do país, além de outros danos que ainda sentimos até os dias de hoje, com o nocivo governo de Bolsonaro que tanto presa por reviver a ditadura e ferir a democracia.

A energia política da obra nos faz lembrar como o cinema é um forte instrumento de imersão e a ambientação, muito bem trabalhada pela cenografia, destaca o clima sombrio e a guerra urbana de cidades – como Rio e São Paulo – cercadas pelo medo e angustia da época.

A atmosfera do filme – de mais de 2 horas e meia de duração – reflete o cenário de insegurança e caos e, por mais longa que a duração seja, raramente cede ao tédio (ao menos se você estiver interessado).

Por se tratar de uma obra com viés político carregado, o roteiro consegue reorganizar os fatos históricos e os narrar sem que sejam maçantes ou mesmo complexos demais. Além da trilha, que auxilia na imersão, a direção de fotografia dá identidade e os tons cinzas e escuros passam essa sensação de aprisionamento e perigo constante.

É uma obra pesada, com momentos emocionais densos. No entanto, não é um filme perfeito e acaba por cair nos típicos deslizes de dramas biográficos que mergulham demasiadamente fundo em conflitos pessoais que, por muitas das vezes, são becos sem saída. Fora isso, Marighella também nos convida a refletir sobre o uso da violência durante as revoluções – é ou não necessário? Podemos realmente julgar isso?

Conclusão

É notório que o brasileiro sofre de amnésia ao lembrar dos momentos de sua própria história que foram manchados de sangue e, por conta disso, filmes edificantes e destemidos tal qual Marighella – em épocas de trevas como agora – não apenas nos faz comprovar o poder narrativo do cinema nacional em usar o audiovisual como ferramenta de revolução, como também mostra que uma das figuras mais complexas de nossa memória enfim ganhou um drama biográfico cinematograficamente impecável e à altura de sua importância. De quebra, pelo olhar poético de Wagner Moura.

Mesmo com as toneladas anuais de filmes de super-heróis, pasmem: o cinema – especialmente o brasileiro – sempre foi um ato político e de resistência. Uma mesa de bar para se conversar, refletir e sair uma pessoa melhor do que quando entrou. Ignorar ou mesmo odiar um filme apenas pelo luxo de ter que encarar a verdade amarga das raízes de um país pavimentado pela violência, seja contra povos indígenas, negros ou pobres, é sinal de que obras que incomodam, como Marighella, precisam continuar existindo para que nossa história sombria nunca mais volte a se repetir.

Nota: 9/10


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