Crítica | O Som do Silêncio – Moralismo disfarçado de empatia

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Ruben Stone vive como baterista de uma dupla de heavy metal junto à sua namorada Louise. Ainda jovem, ele repentinamente perde a audição e como alternativa, passa a viver numa comunidade de surdos para aceitar sua nova adversidade. A premissa de O Som do Silêncio, produção original da Amazon Prime, é tão intimista quanto a sua realização. O diretor e roteirista Darius Marder utiliza câmera na mão frequentemente e conta com atuações realistas que transparecem o conflito interno dos personagens. Somado a isso, os recursos técnicos se atentam a particularidades e sensações a fim de proporcionar ao público uma experiência imersiva no cotidiano dos deficientes auditivos. Apesar da sensibilidade, todos os elementos giram em torno de uma mensagem simplista, a qual ao invés de considerar a diversidade de reações sobre o mesmo tema, elege um único ponto de vista e o impõe sobre quaisquer valores, sentimentos e formas de agir. 

Após o choque inicial, a narrativa propõe às pressas, uma solução para o conflito estabelecido. Do dia para a noite, Ruben se vê isolado de seu universo, tanto fisicamente quanto metaforicamente, num lugar onde sua única tarefa se restringe a lidar com a surdez. O ator britânico Riz Ahmed retrata, com eficiência, a encruzilhada de seu personagem, o qual mesmo hesitante à nova rotina, também reconhece a necessidade de ceder para retomar os planos ao lado de Lou (Olivia Cooke). Essa meta é desaprovada por Joe (Paul Raci), pois segundo ele, os membros do grupo devem aprender a conviver com sua condição sem tentar revertê-la. No entanto, Ruben rejeita essa visão de mundo prepotente, então une esforços para trilhar caminhos opostos e fazer uma cirurgia.

O som do metal, tradução literal do título em inglês, se refere ao timbre do aparelho auditivo implantado no protagonista. Diante desse acontecimento, o viés da trama fica ainda mais óbvio, mas anteriormente o espectador já havia sido induzido a uma certa interpretação. O primeiro ato está repleto de pequenos ruídos, sejam eles o barulho do liquidificador, chiado do disco na vitrola ou até mesmo, o baque dos pratos em contato com a mesa. Essa minuciosidade é estabelecida pela edição de som, responsável por captar o áudio no momento da gravação ou em estúdio, a fim de estabelecer a naturalidade do músico em relação aos ruídos a seu redor. Já durante o desenvolvimento, sua transformação se dá pelo contraste entre a calmaria e o caos. A fim de constituir esse cenário, a mixagem, cujo trabalho desenvolve mesclar, aumentar ou diminuir áudios na pós-produção, recria a perspectiva de quem sofreu uma perda auditiva profunda. Por fim, o silêncio se mostra mais genuíno do que a transmissão sonora do dispositivo, validando o princípio adotado na vila. 

O filme tem um desfecho amargo e tendencioso. Fora da bolha idealizada por Joe, Ruben é recebido com estranheza. Embora o roteiro não considere a surdez uma deficiência, ele coloca o baterista em momentos de desconforto e isolamento quando este, enfim, busca se reintegrar na sociedade. Nesse ponto, aqueles detalhes outrora tão valorizadas, perdem para o som do silêncio, característica vista como divina. Por ser a favor de uma suposta empatia, O Som do Silêncio falha em abraçar as diferenças, sejam elas representadas por questões físicas ou até mesmo, objetivos divergentes. O protagonista é uma coruja assustada perante aquela circunstância e seria utópico presumir que, assim como qualquer pessoa, ele não lutaria para voltar ao seu conceito de normalidade. Entretanto toda individualidade parece nula em meio a teia contraditória do moralismo. 

Nota: 5/10

Escrito por: Nathalie Moreira

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