As novelas fantasmagóricas publicadas pelo autor Henry James sem dúvida ajudaram a moldar a fórmula do cinema de horror. A construção de personagens e ambiente sinistros em mansões assombradas serviram de base para inúmeros filmes originais e adaptações desde meados do século passado. Dessa forma, não é à toa que um dos seus livros mais famosos de terror, ‘A Volta do Parafuso’ (publicado em 1898), tenha ido para o cinema de diferentes formas, sendo sua primeira adaptação feita com o prestigiado ‘Os Inocentes’, de 1961. De lá para cá, a estrutura do autor inspirou obras como ‘Os Outros’, estrelado por Nicole Kidman, e vai ser a base para a 2ª temporada da série ‘A Maldição da Residência Hill’, da Netflix. Ou seja, com tantas releituras, é inevitável que o maior fantasma não venha a ser a falta de originalidade e sim, a previsibilidade desse tipo de narrativa, assombração essa que persegue ‘Os Órfãos’ (The Turning), a mais recente das adaptações, e que prova, com vigor, que algumas histórias precisam descansar.

Dessa vez, a trama do livro é contextualizada para 1994 e segue Kate (Mackenzie Davis), uma jovem professora que é contratada para trabalhar como governanta em uma mansão. Na casa, localizada em Essex, nos arredores de Londres, vivem também Flora (Brooklyn Prince) e Miles (Finn Wolfhard), sobrinhos órfãos de seu patrão. No entanto, ela logo percebe que no local existem outros moradores, não necessariamente vivos, e começa a ser perseguida por fantasmas, loucuras e situações sinistras que fogem do seu controle.

A ambientação de casa assombrada no interior, por si só, já provoca medo, algo que favorece o uso dessa estrutura incansavelmente como base de roteiros, porém, não é apenas de atmosfera que um bom terror se sustenta e, mesmo que cada adaptação tenha sua proposta individual, todas convertem para o mesmo mal: previsibilidade. E, por conta disso, há um acerto interessante e um erro terrível na trama de ‘Os Órfãos’. Na tentativa de “mudar” os fatos clássicos da história para entregar algumas situações que possam pegar o espectador de surpresa, a produção se deixa levar pela subjetividade e esquece de fazer um final para o filme, ou seja, a tentativa de inovar sai pela culatra e só piora o que estava sendo desenvolvido pessimamente pela direção irregular de Floria Sigismondi (The Runaways), que até sabe realçar a mansão com belos planos gerais, mas que conduz seu ritmo sem nenhum entusiasmo.

É um show de fantasmas em espelhos, situações “assustadoras” em sonhos e correria pela casa sem que nada faça sentido. Pistas são soltas em momentos estratégicos para tentar antecipar o desfecho abrupto e o beco sem saída que a história entra e, mesmo que algumas sejam disfarçadas e nada seja mastigado para o público, o que é bom, a produção não consegue se manter ao nível em outros elementos que possam fazer ser um terror mais conceitual do que o normal e, com isso, estabelece esse híbrido de arte com sustos clichês a base de jump scares que mais parece um Frankenstein de tanto remendo e furo, sem contar, o excesso de histórias paralelas que não agregam e as pontas soltas que permanecem soltas, como as bonecas decapitadas, o uso excessivo de Kurt Cobain na história e a estranha “doença” da menina que não pode sair de casa. Muitas informações para poucas soluções plausíveis.

O elenco, ainda que conte com três carismáticas figuras, se perde em meio a tanta desordem e entrega apenas o básico. Mackenzie Davis (O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio) é boa atriz e até consegue contornar algumas situações a fim de entregar emoção como uma final girl, porém, é Brooklyn Prince (Projeto Flórida) quem rouba a cena ao viver, com naturalidade, uma menina doce e brincalhona, que quebra o estereótipo de criança malvada/misteriosa de filmes do gênero, já Finn Wolfhard (Stranger Things) tem menos destaque e não faz nada além do convencional. E se nem esse três podem salvar a trama de despencar a ladeira, o que dizer então das situações de susto mal construídas? Mesmo tendo tudo em mãos para criar momentos de tensão, a direção opta por seguir o caminho menos ousado e se mantém na terrível zona de conforto entre replicar clichês e apresentar situações sem lógica, apenas para provocar sustos, como a cena do esconde-esconde no escuro, por exemplo.

Dessa forma, ‘Os Órfãos’ começa promissor e interessante, até que seu roteiro decide pegar um atalho na estrada da originalidade e termina em uma rota sem saída, com um final abrupto, sem nexo e completamente decepcionante. Ainda que seja interessante ser subjetivo e não entregar as resoluções mastigadas ao público, absolutamente nada na história faz sentido nos últimos 10 minutos e, além do desfecho ridículo e constrangedor, desperdiça o potencial de fazer uma boa adaptação de um dos livros de terror mais famosos de todos os tempos.

FINAL EXPLICADO (SPOILERS!)

Ao que tudo indica, pelas pistas deixadas na trama, Kate (Mackenzie Davis) realmente enlouqueceu durante a estadia na mansão e a doença de sua mãe, também presente nela, a fez ter alucinações com fantasmas e outras visões. Infelizmente essa é a explicação que mais faz sentido dentro da proposta, ainda que deixe muitas perguntas sem respostas, ou seja, tudo não passou de uma imaginação. É, eu sei, é frustrante.

Nota Geral
4

Resumo

‘Os Órfãos’ começa promissor e interessante, até que seu roteiro decide pegar um atalho na estrada da originalidade e termina em uma rota sem saída, com um final abrupto, sem nexo e completamente decepcionante.

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