Quantas vítimas a guerra faz? De que forma ela afeta as vidas daqueles que foram guerrear? A sexta série da parceria Marvel/Netflix traz à tona questionamentos da vida real.

Uma das características mais fortes dos heróis urbanos da Marvel que vemos nas séries da Netflix é sua carga dramática mais próxima da realidade do público, ainda que com punhos brilhantes e super-força. Em O Justiceiro, esse drama se torna ainda mais próximo, tendo em vista a contemporaneidade da série, os massacres vividos recentemente nos EUA e todo contexto de constante guerra em que o país vive.

O Justiceiro não estava nos planos iniciais para o serviço de streaming, mas, ao roubar a cena na segunda temporada de Demolidor e conquistar o público, seria burrice não colocar Frank Castle na jogada.

A série começa a partir dos acontecimentos da segunda temporada de Demolidor. Frank, dado como morto, ainda vive em busca da vingança por sua família. Mas, aos poucos, a trama vai dando lugar a outras subtramas e construção de novos personagens (já que, com exceção de Karen Page, não aparece nenhum outro personagem das séries anteriores). Sem dúvida, a série é a mais sangrenta e violenta da Marvel. Por vezes, gerará no espectador uma sensação de socos no estômago, e, também algumas tapas na cara.

Ao longo de 13 episódios, Frank luta, atira, esfaqueia, grita, sofre, porém, é possível ver o homem por trás do Justiceiro. O fuzileiro de guerra que fez tudo para defender o seu país, o pai e esposo dedicado capaz de qualquer coisa pela sua família. O Justiceiro é a prova de que as marcas das guerras acompanham para sempre quem passa por ela.

Dentro desse contexto, somos apresentados a Micro (Ebon Moss-Bachrach), que tem uma história parecida com a de Frank, porém, com a família ainda viva. Billy Russo (Ben Barnes), que mostra que estereótipos bonitos podem esconder vilões. Dinah Madani (Amber Rose Revah) uma policial que em meio a sua função descobre as corrupções no sistema e o real motivo de sua promoção; Curtis Hoyle (Jason R. Moore) é outro veterano de guerra, mas que tenta suprir a falta de apoio do estado aos ex-combatentes com um grupo de apoio; e, por fim, Lewis Walcott (Daniel Webber), que tem tudo para ser o próximo Justiceiro, é através dele que acompanharemos as marcas mentais dos efeitos da guerra.

O Justiceiro não segue fórmulas. Flashbacks são usados constantemente para conhecermos mais do passado do anti-herói. O romantismo e a tortura podem habitar na mesma cena. Não há resistência para cortes bruscos na trilha sonora. E mesmo que sem um padrão, a série não perde a linearidade. Continuo achando que 13 episódios tornam as séries da Marvel mais arrastadas que deveriam, Justiceiro também sofre com essa escolha do estúdio. Talvez, oito episódios (como Defensores), eliminasse excessos na série.

Para que os outros personagens cresçam, Frank por vezes é deixado de lado. Pode ser ruim para o protagonista, mas não é ruim para a série. Explico: Primeiro, que as atuações são ótimas; segundo, é possível com os outros personagens olhar e entender como as pessoas são impactadas com os espólios de uma guerra.

Com tanto realismo, cadê a parte que é uma série da Marvel? Calma!

Tem luta de corredor (pequena, mas tá lá), tiro, muito tiro, bastante tiro, inclusive atingindo Castle, que de forma super rápida se recupera, como se já estivesse acostumado com as dores das balas, é neste ponto que a série nos lembra que é ficção, e que é Marvel.

Preciso frisar que Jon Bernthal nasceu para o papel. É impossível não vibrar ao vê-lo no corredor escuro, com uma arma na mão (é errado, eu sei), e o colete com a caveira. Cada grito ou expressão de dor exprimido na série, revela algo sentindo não só no corpo, mas dentro da alma.

O Justiceiro facilmente entra no páreo de melhor série Marvel/Netflix com a primeira temporada de Demolidor. Nessa disputa não sou capaz de opinar. Sem super poderes, Frank Castle, de forma sombria, realista e dolorosa numa máxima dita pelo sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, mata alma e envenena!

 

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