Será que O Diabo Veste Prada ainda faz sentido hoje? Duas décadas depois de dominar os anos 2000 e se firmar como um clássico moderno, o filme ganha uma sequência cercada de expectativa e de desconfiança. Afinal, como revisitar uma obra tão marcada pelo seu tempo sem cair na armadilha de parecer datada ou apenas nostálgicamente vazia?
A resposta está em um roteiro afiado, atento às transformações do mundo, especialmente da moda, da internet e da tecnologia, e que entende exatamente o que precisa ser atualizado sem mexer no que já funcionava. O Diabo Veste Prada 2 preserva a essência que fez a gente se apaixonar por Miranda Priestly e Andy Sachs, mas encontra novas camadas para essas personagens. E, por mais improvável que essa continuação possa parecer à primeira vista, ela não só justifica sua existência como ainda consegue, em certos momentos, ser até mais divertida que o original, agora que já estamos familiarizados com esse mundinho fashionista caótico.
Os acertos e erros do filme
De fato, o original nunca tentou ser um filme visionário. Na real, ele funcionava justamente por ser um retrato bastante preciso dos excessos e das neuroses da moda em 2006. Havia, sim, alguns lampejos de crítica social, mas eles vinham quase como efeito colateral, não como proposta central da obra. Hoje, depois de uma era marcada por cancelamentos e transformações culturais, da discussão sobre padrões de magreza ao avanço da sustentabilidade na indústria, ignorar esse novo cenário seria um enorme erro.
Felizmente, a sequência entende isso e incorpora essas mudanças com inteligência, criando um contraste interessante entre o universo das revistas impressas, o fim do jornalismo tradicional, o ciclo acelerado das tendências e o impacto da era TikTok. Até para a IA sobra espaço!
O resultado é uma conversa mais madura, sem abrir mão do tom leve e irônico que sempre definiu a agora franquia. Ainda assim, há algo curiosamente familiar em tudo: os personagens evoluem nas ideias, mas mantêm sua essência intacta, como se o tempo tivesse passado de maneira seletiva. A estética, a montagem e até o ritmo parecem saídos diretamente dos anos 2000 e, longe de soar preguiçoso, isso funciona como uma escolha consciente. Soma-se a isso a química absurda do elenco, que retorna com uma naturalidade impressionante, como se esse reencontro tivesse acontecido ontem.

Anne Hathaway já revelou que a demora para essa continuação acontecer teve um motivo simples: nenhum roteiro parecia à altura — até agora. E, vendo o resultado, fica claro que a espera valeu a pena. O reencontro carrega sim uma carga generosa de nostalgia, mas não se apoia só nisso; funciona, acima de tudo, como uma comédia dramática segura sobre amizade, lealdade e parceria feminina. Hathaway retorna ainda mais magnética, como se tivesse ampliado o carisma que já definia Andy, encontrando novas nuances para a personagem sem perder sua naturalidade.
Já Meryl Streep dispensa qualquer introdução e reassume Miranda Priestly com a mesma presença imponente que a transformou em um ícone e que, não por acaso, lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Há, porém, um ajuste interessante: essa nova fase revela uma Miranda mais vulnerável, ainda que longe de se tornar acessível ou complacente. O que permanece intacto é a força da personagem, que segue complexa e cheia de camadas. Duas atrizes claramente comprometidas em elevar o material, entregando versões ainda mais potentes de figuras que já eram inesquecíveis por si só.

O restante do elenco não fica para trás. Emily Blunt retorna agora em uma fase mais ambiciosa e bem megera, assumindo um papel antagônico ao se reposicionar dentro da indústria, desta vez ligada à Dior e determinada a ocupar o espaço que antes orbitava como uma mera “Emily”. Já Stanley Tucci volta como o carismático diretor de moda e mentor de Andy, ainda que, novamente, pareça ter menos espaço do que merece. Há uma evolução clara nesses personagens, especialmente na forma como seus interesses agora colidem de maneira mais direta.

O filme mantém o espetáculo: trilha bem escolhida, cenários deslumbrantes (com passagens pela Itália) e figurinos que continuam sendo um desfile de grandes grifes. Ao mesmo tempo, a narrativa incorpora discussões mais atuais, como o valor dos brechós e o reaproveitamento de peças, atualizando o olhar sobre a moda sem perder o glamour.
O novo roteiro também se preocupa em amarrar melhor as relações, deixando claro que todos ali dependem uns dos outros para sobreviver nesse ecossistema competitivo: Andy ganha uma missão mais robusta, enquanto Miranda precisa dela para se manter relevante e proteger sua imagem em um cenário que muda rápido demais.

Veredito
Talvez não repita o mesmo impacto estrondoso do original nas premiações, mas O Diabo Veste Prada 2 tem tudo para ocupar um espaço parecido ao de Barbie no imaginário recente: um fenômeno movido por carisma, timing e conexão com o público. Há algo de reconfortante em reencontrar esses personagens, não apenas pela nostalgia, mas por vê-los mais complexos, mais interessantes e inseridos em um contexto que dialoga com o presente. É uma continuação que diverte com facilidade, mas que também encontra espaço para dizer algo além do óbvio.
A força do filme está na dinâmica impecável do elenco, com Anne Hathaway e Meryl Streep ainda magnéticas, sustentando uma história que parece não ter envelhecido um dia sequer. O roteiro é afiado, bem amarrado e cheio de personalidade, equilibrando crítica social e entretenimento sem cair na superficialidade. Mais do que um olhar sobre o mundo da moda, o filme reafirma seu coração: uma história sobre amizade, ambição (na medida certa) e união feminina. No fim, é um deleite elegante e espirituoso, uma continuação que entende seus personagens, respeita seu legado e prova que, às vezes, esperar vale muito a pena. That’s all!
