Crítica | John Wick 4: Baba Yaga – O capítulo mais exaustivo da franquia

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Acima de qualquer crítica que venha a receber, é admirável como a franquia John Wick estabeleceu um certo padrão de qualidade nos filmes de ação desde seu lançamento em 2014. De lá para cá muita coisa mudou no cinema e, a cada novo filme, a necessidade de se reinventar se tornava ainda mais inalcançável, afinal, apesar de estabelecer um universo bastante divertido e com ótimas possibilidades, a saga de Keanu Reeves nada mais é do que uma sopa de tudo que o gênero já fez, com a estética cool pelo cool que, claro, é feito ainda melhor. Ainda assim, depois de um Capítulo 3 fechadinho e absurdo de bem realizado, John Wick 4: Baba Yaga, da Paris Filmes, vem como um encerramento exaustivo, sem ritmo e redundante que o Sr. Wick não precisava.

A trama e o elenco

Iniciando imediatamente após Parabellum, o quarto capítulo possui dois objetivos principais: mostrar as consequências das atitudes de Wick até aqui e dar um desfecho à história – sendo que esse último é desesperadamente mal aproveitado. O grande problema é que tudo faz parecer que Baba Yaga está iniciando um novo ciclo na franquia e não estabelecendo um final para o protagonista, esse desequilíbrio faz boa parte do enredo nadar em torno de nada e tira o impacto do desfecho capenga escolhido pelo roteirista. Mas, ao deixar de lado seu fim, o enredo até aproveita metade do tempo para concluir algumas pontas soltas, revisitar o passado e reestabelecer a violência e as regras desse universo.

No entanto, mais do que em qualquer outro filme da saga, tudo soa absolutamente genérico e insistentemente mecânico, seja através de seu protagonista – agora uma verdadeira entidade imortal e à prova de balas – ou pela forma como a trama é conduzida ao agregar personagens pelo caminho sem saber o que fazer com eles.

Essa desumanização de John Wick por vezes eleva as cenas de ação ao ridículo, algo que parecia ser uma preocupação nos filmes anteriores. O anti-herói agora luta mesmo é para ser o protagonista de seu próprio filme, já que o seu desenvolvimento parou no longa passado. E claro que o engessado Keanu Reeves agrega sua parcela de carisma e emoção como de costume, mas dessa vez parece entediado e ligado 100% no piloto automático.

Se por um lado Parabellum se resolvia muito bem em suas já cansativas 2 horas e 10 minutos de filme, Baba Yaga usa seus 30 minutos adicionais para cansar o espectador. A exata quantidade de tempo que poderia ser extraída do filme sem provocar nenhum efeito significativo na trama, que agora gira em torno da saída que Wick encontra para derrotar a Cúpula e se ver livre de tudo que provocou, mas que, para isso, precisa enfrentar um novo inimigo (vivido por Bill Skarsgard), um mestrão final antes de sua tão sonhada redenção.

Acontece que não há conclusão para um assassino nato, não há céu ou inferno que caiba John Wick, apenas um eterno purgatório terreno para sofrer. E o diretor Chad Stahelski sabe bem como fazer Wick padecer. Sua condução, ainda que sem ritmo, segue novamente destacando os pontos fortes de Reeves e explorando as possibilidades de uma sequência de ação. Não é a masterclass que estava acostumado a fazer, mas ainda entrega um clímax grandioso e entusiasmado pelas ruas noturnas de Paris, interrompido apenas por um desfecho preguiço.

O temido e lendário Baba Yaga segue com sua cabeça sendo caçada por todos os assassinos do planeta e ainda vive uma vida atormentada pela perda de sua esposa, mas quer sua paz de volta, sendo que, para isso, coloca tudo e todos em risco novamente. Com a queda do Hotel Continental em Nova York, dessa vez grande parte da história se desdobra num estiloso Japão cyberpunk.

E, claro, o longa usa e abusa da estética oriental para criar sequências de ação com espadas, lutas coreografadas dignas de videogames asiáticos e um estilo bastante superficial. Uma mistura de Kill Bill com animes que diverte, mas não há nada que já não foi visto antes. A adição da cantora Rina Sawayama como a jovem rebelde Akira talvez seja o ponto alto do filme. Seu arco de vingança é envolvente, bem construído e deixa a promessa de ser resgatado no futuro.

Veredito

Ao ceder a pressão da soberba, por estar no topo do que há de melhor no gênero, John Wick 4: Baba Yaga cai na terrível maldição de querer fazer uma sequência maior quando, na realidade, faz pior. Mesmo com uma produção espetacular, é tempo demais para preencher em tela com tão pouca engenhosidade dos roteiristas. Uma inesperada decepção, que proporciona o capítulo menos notável e, de longe, o mais exaustivo do Wickverso.

Embora as cenas de luta sejam, de fato, tecnicamente impressionantes, o filme falha em contar uma história coesa e envolvente. Algumas escolhas narrativas são questionáveis, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens e na falta de impacto de seu protagonista engessado. Mesmo a atuação de Keanu Reeves, que normalmente é um ponto forte da franquia, parece sem entusiasmo e no piloto automático.

Cresce o nível de violência gratuita, eleva o teor de perigo, mas a bala passa raspando quando mirada em um desfecho que atenda às expectativas dos fãs da franquia. John Wick não é apenas um assassino comum, ele é um artista da morte. Ele é o Picasso da matança. Mas, dessa vez a obra de arte foi manchada pela arrogância do artista.

NOTA: 6/10

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