Crítica | Sandman supera as expectativas com adaptação de qualidade

A última cartada da Netflix após tantas derrotas nos últimos anos parece ter surtido efeito positivo, especialmente pelo grau de dificuldade de ser adaptar uma obra tão perfeitamente pensada para os quadrinhos. Assim como A Torre Negra, de Stephen King, dar vida em live-action para Sandman – obra mais aclamada de Neil Gaiman – parece ser um trabalho para poucos loucos e não se concretizou desde os anos 1990. Felizmente, o streaming acertou na tonalidade estranha e gótica, nas estranhezas desse universo peculiar e onírico, mas também parece dramaticamente apática em alguns pontos.

Como uma boa e velha série de fantasia com elementos sombrios, o maior desafio inicial para a Netflix sem dúvida seria se afastar de coisas como O Mundo Sombrio de Sabrina e Deuses Americanos e se aproximar mais de produções grandiosas como O Senhor do Anéis e His Dark Materials. Por vezes a série consegue, por vezes não. O começo triunfante e poderoso (os três primeiros episódios) mostra que dinheiro foi gasto para construção desse universo e que errar não era uma opção, mas, ao longo de sua própria jornada, Morpheus se torna um mero coadjuvante, enquanto o público assiste outras histórinhas de fantasia para entreter.

A trama e o elenco

Para os fãs chorões que se apegam demais ao material original, é preciso saber que há diversas mudanças na série e que boa parte delas torna tudo ainda mais visualmente interessante, inclusiva a troca de gênero de algumas personagens e a inclusão de maior diversidade. Então seca os olhos e aceita que essas decisões artísticas foram planejadas e meticulosamente pensadas para tornar a rica história de Gaiman ainda mais excepcional, moderna e necessária.

Dito isso, o básico está ali: a 1ª temporada de Sandman se concentra em Lord Morpheus (vivido pelo pouco expressivo Tom Sturridge), conhecido como o Rei dos Sonhos (ou apenas Sonho, para os mais íntimos). Ele tem muitos nomes, mas felizmente essa é a única coisa que você precisa lembrar. Morpheus é capturado por humanos e mantido preso por mais de um século e, na sua ausência, o mundo como conhecemos muda drasticamente. Morpheus deve ir em busca de autodescoberta e recuperar suas ferramentas roubadas para trazer de volta o equilíbrio ao universo.

Ao longo de dez episódios com duração aproximada de uma hora cada, somos levados a uma aventura mágica e misteriosa, com Morpheus vingando aqueles que o capturaram e traíram e reconstruindo seu reino, conhecido como Sonhar. Uma vez que ele é vitorioso, outra ameaça vem na forma de um Vórtice chamado Rose Walker (Kyo Ra). A jovem menina tem o poder de atravessar as paredes dos sonhos alheios e alterar a realidade (Doutor Estranho, temos visitas!), ou seja, Morpheus deve orientá-la para manter novamente o mundo dos sonhos e o mundo acordado em perfeito equilíbrio. Porém, é claro que Rose chama a atenção de alguns vilões, como o Pesadelo Coríntio (Boyd Holbrook), um serial killer disposto à fazer o possível para acabar com seus mestre Sonho. Tom Sturridge é blasé, apesar do carisma. Isso até que funciona com o personagem e sua tonalidade gótica e indiferente. Mas o visual, está lindamente igual das HQ’s.

Pontos baixos

Daí por diante, Sandman explora inúmeras vertentes narrativas e conta outras pequenas histórias no meio da grande trama central, com episódio em que o protagonista nem sequer dá as caras. Isso é divertido, um pouco ousado, mas também é frustrante. Por exemplo, o enredo da vizinha que acolheu e adotou Rose (aquela que faz sexo com o falecido marido nos sonhos) é absolutamente descartável e só serve para deixar a série ainda mais massiva e arrastada do seu meio para o final. Quando ela entra em cena, você sabe que é o momento ideal para olhar o celular ou ir ao banheiro. A própria historia de Rose em si – naquela casa de excêntricos – parece perdida dentro do todo.

O CGI, por sua vez, é impressionante e a equipe criativa fez um trabalho brilhante em dar vida aos reinos, sem exagerar e distrair. Porém, os 4 primeiros episódios capricham bem mais no visual e na atmosfera dark. Depois disso, a série se estica e perde boa parte da ação (e da grandiosidade) inicial pelo caminho. Algumas cenas de batalha eram suaves e fracas, e logo ansiamos por uma ação mais sombria e intensa, para se afastar ao máximo da baboseira teen que Riverdale e Supernatural criaram no imaginário popular. A batalha entre Lúcifer (Gwendoline Christie merecia mais tempo de tela) e Sandman é inteligente, mas lenta. Já no episódio final, a cena final entre Morpheus e Rose é amena e nos é dado um inesperado final feliz, o que é bom, mas teria sido maior se tivesse vindo de mais conflitos. A temporada é movimentada na mesma proporção que é bagunçada.

Pontos altos

Mesmo fora de contexto e sem a presença do protagonista, os episódios 5 e 6 são de longe os dois melhores, bem escritos e extremamente bem atuados. A atuação é impressionante e há alguns atores renomados que dão o seu melhor, como David Thewlis. Há um bom equilíbrio cômico com os tons sombrios minuciosos, mas às vezes isso se sobrepõe e fica difícil distinguir se estamos assistindo a um terror de fantasia ou a um filme de fantasia tradicional no estilo Harry Potter. Matthew, O Corvo, sem dúvida é um dos melhores personagens, mas sua atitude despreocupada com sotaque americano foi uma escolha estranha de se fazer. Já Jenna Coleman, que vive Johanna Constantine, rouba a cena sempre que surge, mas deixa um gostinho amargo de quero mais.

Conclusão

Para felicidade dos fãs de longa data, Sandman é a prova de que tudo pode ser adaptado com qualidade e respeito se for feita com tempo e carinho. É uma série que capricha no excêntrico e abraça a fantasia gótica sem medo de parecer cafona. E, por conta disso, supera tanto as nossas expectativas e se torna algo que pode salvar a Netflix do desprestígio atual.

Mas – ainda que visualmente impressionante – esta 1ª temporada não é perfeita e se perde inúmeras vezes dentro do seu próprio universo rico em histórias excepcionais. Por vezes cansa, por vezes perde a ação, mas nunca deixa de envolver. Foi assim com The Witcher, com um bom começo promissor, falhas e problemas de ritmo podem ser corrigidos com o tempo. Só nos resta torcer para que o nível de qualidade se torne cada vez maior nas próximas temporadas, mas sem deixar de lado a delicadeza e a inteligência da essência sombria da obra de Neil Gaiman. Nem os fãs poderiam sonhar que isso daria tão certo assim.

NOTA: 8/10

Leia também: Sandman | O que você precisa saber antes de assistir a série


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