Crítica | Papai É Pop – Uma lição de amor com uma pitada de choque de realidade

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Receber a notícia de que vai ser pai é como degustar um chocolate meio amargo. Começa docinho, saboroso e, após um tempo, o gosto muda para algo mais forte, intenso. Consequentemente, uma sensação que permanece por mais tempo na boca, assim como na vida. Ser você a pessoa que irá prover para uma outra pequena pessoa uma vida saudável, com educação, amor e carinho, é um desespero para poucos. Talvez por conta disso que Papai É Pop – dramédia nacional que chega aos cinemas no próximo Dia dos Pais – seja tão puro e honesto no que se propõe. Ao se despir da glamorização da paternidade perfeita, o filme de Caíto Ortiz emociona exatamente por conta de abraçar a imperfeição, a construção de pai que acontece na marra.

Muito mais que isso, em um país com alto índice de abandono parental – com mães solo sendo as verdadeiras provedoras da família – talvez um filme sobre ser pai possa parecer utópico, romântico demais para uma realidade que passa longe dos lares brasileiros, mas é aí que o roteiro entende sua problemática e, ao invés de generalizar com um humor tradicional e apresentar um paizão estereotipado, na realidade, estabelece um terreno dramático bastante inteligente, sincero e emocional para apresentar a jornada de amadurecimento de um sujeito imaturo e despreparado, que aprende o peso e a responsabilidade de ser o exemplo para alguém.

A trama e o elenco

Mas esse roteiro autêntico tem raízes mais profundas e nasceu do best-seller de mesmo nome do escritor Marcos Piangers (que inclusive faz uma ponta no filme). Na trama, livremente inspirada no livro, acompanhamos a história de Tom (Lázaro Ramos), um homem comum, jovem e imaturo, que vê sua vida mudar totalmente ao se tornar pai. Ao lado da esposa Elisa (Paolla Oliveira), Tom precisa aprender na prática como cuidar da filha e, em meio a situações divertidas e emocionantes do cotidiano, apresenta uma transformação interior que conflita com a forma como a sociedade enxerga um pai presente.

Dessa premissa simples e direta, o espectador é submergido em um filme carregado de reflexões sobre empatia, afeto, responsabilidade e abandono, que leva inesperadamente às lagrimas com a facilidade de se preparar uma mamadeira. Ainda que tenha o senso de humor aguçado, é mesmo o drama que fisga e toca em feridas profundas, especialmente ao questionar o real significado de família e como o amor nasce através da convivência e dos pequenos detalhes do dia a dia.

Lázaro Ramos – um dos melhores atores de sua geração – não entrega nada menos do que perfeição e carisma. Mas é Paolla Oliveira que rouba a cena com uma performance fantástica, intensa e muito natural. A química da dupla é visível e funciona, algo que torna toda a história muito mais magnética.

Além de mostrar os desafios diários de ser pai de primeira viagem – sendo você uma pessoa na crise dos 30 anos – Papai é Pop também explora as dificuldades maternas, o peso que a mãe carrega praticamente sozinha, uma vez que se vê sobrecarregada, e como um bebê afeta o relacionamento do casal. Mesmo com algumas pitadas de agonia, Papai é Pop está longe de ser um manual anti-filho, afinal, se esforça para construir relações genuínas e reforça que o amor é algo que se conquista com o tempo, seja ele romântico ou familiar, de sangue ou não. Desde do começo, a trama estabelece um contrato com o público de que haverá risos e comédia boba, mas o intuito é ir mais fundo. E mais afiado.

A direção

Muito da emoção é alcançada através da ótima e melancólica trilha sonora, que sobe sempre que um momento mais adocicado está por vir. A montagem, por sua vez, é um pouco corrida e se apressa para recortar apenas um pequeno período da vida da família, que começa antes da bebê nascer e poucos anos depois. Essa aceleração provoca estranheza em alguns momentos.

Por mais que possam destoar da emoção e por vezes se perder no humor sem ânimo, as sequências de Tom com seu melhor amigo – que se acha um paizão e descobre ser um “pai de self” – acabam recheando ainda mais a reflexão de como o homem sempre parece ter menos envolvimento emocional em tudo que se propõe fazer. O roteiro faz o possível para ser justo com a sobrecarga da mãe e não a coloca como uma mulher exagerada ou mesmo “louca”, mesmo sendo um conto paterno.

E a condução de Caíto Ortiz (O Roubo da Taça), por fim, é a engrenagem que faz todas as demais funcionar com maestria. O diretor brilha, mas também foca em fazer o elenco entregar o melhor possível em ambos os gêneros. Ortiz visivelmente coloca parte do seu coração no drama e sabe que a melhor forma de entregar esta mensagem é extraído lágrimas.

Conclusão

Por vezes, o cinema tem dessas de nos transportar para realidades que nos faz ter um novo ponto de vista sobre vida, sobre família e sobre nós mesmos. E é exatamente isso que Papai É Pop faz ao apresentar sua visão sincera, tocante e agridoce sobre paternidade – e de quebra sobre o amor que se conquista. Uma prometida comédia tradicional que se prova muito mais afiada e inteligente quando o assunto é arrancar lágrimas do público.

Uma produção divertida para o Dia dos Pais e, ao mesmo tempo, um filme poderoso contra o abandono parental elevado do Brasil. Para aquecer o coração, mas também para parti-lo algumas vezes e reconstruí-lo um pouco mais forte, afinal, ser pai não é sobre alcançar a perfeição inalcançável, mas sim sobre estar presente. Sobre ser nosso primeiro super-herói.

NOTA: 8/10

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