Crítica | Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City abraça a essência do horror e entrega uma chuva de fanservice

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O cinema e as adaptações de jogos tem sido uma relação intensa de amor e ódio. A luta entre fidelidade e liberdade criativa constantemente prova que algumas histórias funcionam melhor em mídias específicas. Mas esse nunca pareceu ser o caso da franquia Resident Evil que, desde o início, foi um sucesso de público nos cinemas uma vez que desmembrou sua essência survival horror e se apossou apenas do aspecto da ação, algo que, convenhamos, funcionava melhor para o agitado começo dos anos 2000 – com obras como Matrix em alta – e fisgava o público não familiarizado com os games da Capcom. Mas Resident Evil nunca teve seu potencial máximo alcançado nas telonas e a saga de filmes, estrelada por Milla Jovovich (são 6 filmes ao todo), se tornou gradativamente mais distante do que o videogame de fato representava.

Passam-se os anos e agora a Sony resgate a febre em Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, uma tentativa desesperada de reiniciar a lucrativa história de zumbis nos cinemas após a perda de foco da saga original. Com a promessa de investigar a “origem do mal” e centralizar sua narrativa no horror e não mais na ação desenfreada, o reboot faz algo novo até então: ser extremamente fiel aos games à ponto de replicar de forma idêntica algumas sequências. Agora, se o saudosismo e a quantidade exorbitante de fanservice serão o suficiente para abafar as falhas terríveis do roteiro, aí vai depender do nível de expectativa de cada fã. Mas é esse o grande truque da produção.

A trama e o elenco

Talvez o grande problema da franquia de jogos – e certamente desse novo filme – está em sua trama datada, pouco relevante para os dias de hoje após uma tonelada de filmes de zumbis semelhantes e infinitamente mais inteligentes.

Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City abrange a trama do primeiro game, lançado em 1998 nos EUA, e seu enredo também se passa no mesmo ano ao acompanhar a volta para casa da jovem Claire Redfield (vivida pela boa Kaya Scodelario) ao descobrir que a cidade (localizada no Centro-Oeste dos Estados Unidos) – agora pouco habitada após a gigante da indústria farmacêutica Umbrella Corporation poluir o local – vive seu momento mais tenso e sombrio, com um vírus (sim, o T-Virus) que transforma pessoas em zumbis, tomando conta da população que resta no lugar.

Com isso, Claire se junta ao seu irmão Chris Redfield (Robbie Amell) e a equipe de vigilantes, que inclui nomes famosos dos games como Jill Valentine (Hannah John-Kamen), Albert Wesker (Tom Hopper) e o galã Leon S. Kennedy (Avan Jogia), para investigar o surto coletivo de criaturas horripilantes e tentar sobreviver por uma noite na cidade infernal.

Dessa premissa – bastante semelhante aos dois primeiros games – o roteiro desenvolve situações de terror através da atmosfera de “cidade pequena” cercada de mistérios, e a trama – que realmente cobre apenas a noite de 30 de setembro de 1998 – segue à risca as referências retiradas diretamente da obra original.

Absolutamente tudo que faz a franquia ser icônica está ali. Desde os puzzles mirabolantes (como aquele do piano que toca “Moonlight Sonata”), passando pelos cenários idênticos da delegacia R.P.D. e Mansão, até as criaturas clássicas, cada detalhe imerge o espectador na essência de terror e medo que os jogos proporcionam, e de uma forma tão divertida e empolgante, que a franquia anterior jamais conseguiu alcançar. Por vezes, é como se o controle do PlayStation 1 estivesse em nossas mãos e a nostalgia realmente fisga.

Porém, nem tudo são flores e por debaixo de toneladas de easter eggs feitos para o fã apaixonado, há uma trama mal estruturada, apressada e incoerente, que foca tanto em satisfazer a fidelidade, que se esquece de apresentar algo que a faça funcionar, afinal, os jogos já fizeram isso e fizeram de forma muito melhor.

As personagens são rasas, seus objetivos igualmente fracos e nenhuma atuação se destaca, mesmo com um elenco de bons atores. Isso para não ressaltar as conveniências de roteiro, problemas de ritmo e algumas referências tão específicas, que soam forçadas e gratuitas demais.

A atmosfera de horror, por sua vez, é o ponto alto. Na contramão de fazer algo apocalíptico clichê (com cidades destruídas), Reccoon City é um lugar “normal”, que se tornou uma espécie de Chernobyl com o tal vírus mortal meio que deixando o lugar doente, poluído e radioativo para se viver. Quem ainda não se transformou em morto-vivo, vive como se estivesse em estágio terminal de câncer. A sujeira das ruas, a chuva constante e os cenários escuros são o suprassumo desse tipo de obra e aqui, felizmente, são bem realizados.

Flashbacks da infância de Claire remontam parte de como a cidade se transformou em algo tão perverso. Mesmo que seja uma história previsível e pouco justificada, ao menos há uma base sólida para ser explorada e que segue, assim como tudo, a natureza dos games e seu start com a personagem Lisa Trevor, a primeira portadora do vírus que se tornaria a grande ameaça da humanidade no futuro próximo.

Com base forte no suspense, o diretor Johannes Roberts (Medo Profundo) se mostra capaz de conduzir boas sequências de aflição, mas usa e abusa do jump scare para fazer funcionar os sustos. No entanto, a ação acelerada e a narrativa desajeitada – com uma montagem confusa – acaba por deixar parte dessa qualidade pelo caminho. Quando a tensão cresce em torno de uma cena, a construção de medo é eficaz, mas há pouca entrega para tanto preparo.

No fim, após um clímax corrido e que parece ter sido retirado do “modo fácil” dos jogos, uma vez que o vilão é morto sem grandes dificuldades, o desfecho confirma o óbvio: que uma sequência vem por aí e a cena pós-créditos estabelece esse caminho. Aliás, essa cena de encerramento só comprova que este filme tem funcionalidade maior para fãs da franquia e saudosistas, aquele sujeito que vai sacar as referências jogadas a todo custo na sua cara, caso contrário, deve ser pouco atraente a quem não está familiarizado com a história. E esse apelo desesperado pela nostalgia talvez seja o maior de todos os problemas dessa nova adaptação.

Conclusão

Surpreendentemente mais divertido do que se poderia esperar, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City visa fisgar o fã raiz dos games e recomeça a franquia da forma que ela deveria ter sido desde o início: focada no horror e sustentada pelas referências clássicas. Essa nova adaptação tem um compromisso satisfatório com a fidelidade e, apesar de toneladas de clichês, previsibilidade e um roteiro raso – fruto de uma trama já desgastada pelo tempo -, apela para a nostalgia e não há guarda-chuva que proteja da tempestade de fanservice.

Assim como seus monstros, Resident Evil parece ter se infectado pela síndrome do reboot e revive do mortos com um certo frescor de defunto que proporciona bons sustos, afinal, depois de ver Milla Jovovich atingir o auge da falta de ânimo em uma franquia catastroficamente sem rumo, qualquer coisa parece bem mais atraente, especialmente se é algo menor, mais autêntico ao material original e que deve cativar os amantes do survival horror.

Nota: 7/10

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