Crítica | Abe – “Food porn” com gostinho de filme para a família

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Após sua passagem pelo Festival de Sundance em 2019, Abe, produção nacional que se passa em território americano, mescla dois mundos distintos – o cinema e a gastronomia – em uma comédia dramática sobre amadurecimento que, curiosamente (e diferente de água e óleo), mistura esses universos com bastante entusiasmo. Em partes, o longa funciona muito bem para mostrar o amor de um jovem pela culinária e como a comida une as pessoas, afinal, um dos princípios básicos da gastronomia é exatamente esse, no entanto, o enredo sobre a arte de cozinhar com apreciação peca por entregar uma trama pouco atraente por de trás dos belos e coloridos pratos. Enquanto o drama familiar tem dificuldades de se sobressair, mesmo com conflitos religiosos interessantes, por vezes a obra parece ser um simples e bem filmado comercial de reality show gastronômico.

A trama e o elenco

No contexto de amadurecimento de um roteiro bastante simplista, somos apresentados ao mundo do tímido e doce Abe (Noah Schnapp, de Stranger Things), um menino que – diferente dos demais da sua idade – desenvolve uma forte paixão por cozinhar, pela comida e pela beleza dos alimentos, porém, conflitos familiares o impede de seguir seu maior sonho: se tornar um cozinheiro renomado em Nova York. Abe usa a internet para desabafar e postar nas redes sociais seus pratos mirabolantes e, através disso, conhece a culinária brasileira e decide estudar mais a fundo os sabores peculiares do Brasil. Com a ajuda de Chico (vivido por Seu Jorge), um baiano chefe de um restaurante/food truck do Brooklyn, ambos descobrem que o amor pela comida pode ser algo transformador. A interação da dupla e química de Noah com Seu Jorge funciona que é uma beleza. As diferenças culturais e conflitos de gerações – que sim, poderiam ser um pouco mais explorados – são a base para a relação de companheirismo e aprendizado entre eles.

O carisma de Seu Jorge (Marighella) é estonteante, mas o personagem poderia ter sido mais bem aprofundado. Como uma via de mão única, Chico serve apenas para ser o professor de Abe, ainda que a relação de carinho entre eles seja gradativamente forte. Enquanto isso, Noah Schnapp (mais novo, pois o filme foi rodado faz algum tempo), mostra que é um ótimo ator em drama e segura o filme nas costas sem grande esforço. Quando as divergências familiares assumem o holofote – afinal, sua mãe é judia de origem israelense e seu pai palestino de origem muçulmana – o drama se intensifica e proporciona boas reflexões sobre tolerância através da ótica das diferenças religiosas e como uma criança em desenvolvimento fica no meio desse fogo cruzado de ideologias e crenças. Abe só quer ser normal, só deseja descobrir sozinho o que é melhor pra si e encontra na culinária não apenas o conforto no meio do caos da puberdade, como também uma maneira de unir sua família tão desconexa.

A direção

Por vezes, a condução de Fernando Grostein Andrade (Quebrando o Tabu) se torna repetitiva, especialmente por conta de seus inúmeros planos fechados e takes gastronômicos que, novamente, dão ao filme um ar de comercial de supermercado. Porém, parte dessa correria se deve mais por conta da montagem apressada e de alguns cortes estranhos de um plano para outro.

Como narrativa cinematográfica, o filme tem deslizes no ritmo e no desenvolvimento, mas não a ponto de se tornar maçante. A linguagem da internet – pela perspectiva do menino – ajuda no dinamismo e na narração divertida de Abe sobre sua bagunçada vida adolescente. Mesmo com pequenos deslizes, o trabalho do diretor é sensível na construção do protagonista e da atmosfera “confort movie” que explora ensinamentos e mensagens positivas sobre dar corda a uma criança sonhadora.

Conclusão

Um pouco mais de tempero no enredo certamente deixaria Abe no ponto certo para ser uma marcante comédia dramática sobre amadurecimento de um aspirante chefe de cozinha, porém, mesmo com deslizes na narrativa, o filme conquista seu público pelo estômago e, no fim das contas, garante um apetitoso e alegre banquete de ensinamentos que deve agradar toda a família. Doce em sua essência mais pura e com um elenco apimentado, infelizmente peca por não explorar o drama mais profundo e amargo dos conflitos, mas passa longe de ser uma comédia azeda e fora da validade. E se prepare pois esse filme vai te dar fome.

Nota: 7/10

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