Imagina estar com raiva o tempo todo. E essa crise aguda de ódio só cessa quando um dispositivo lhe dá um choque elétrico capaz de te fazer lembrar que, no mundo real – com regras e leis – não se pode sair por aí agredindo qualquer um à troco de nada. Agora imagina isso sendo uma doença diagnosticada na infância e a explosiva crise de fúria fará de você um ser humano especial, dotado de habilidades de combate que serão manipuladas por instituições que visam apenas usar sua singularidade para cumprir missões no mundo do crime organizado. Essa é a premissa de Jolt: Fúria Fatal (Jolt), nova comédia de ação original do Amazon Studios que acerta em todo o conceito “filme de vingança sem freio”, mas, apesar do enredo não ser lá assim tão inovador no que se propõe, erra catastroficamente em sua execução caótica.

A trama e o elenco

Ao seguir a tendência natural do momento e tirar o protagonismo masculino de filmes de ação, Jolt até começa a desenvolver elementos fortes e interessantes que colocam sua personagem central, Lindy – vivida pela carismática Kate Beckinsale – como uma heroína fria e implacável, mas que tem seu coração partido e busca vingança utilizando suas explosões catatônicas de raiva. Tudo que Lindy quer é ter uma vida normal após anos sendo estudada e utilizada como arma (quase que uma mutante dos X-Men) por homens, porém, a jornada de vingança se inicia quando ela acredita que seu interesse amoroso – vivido pelo ator Jai Courtney, de Esquadrão Suicida – foi assassinado. No mundo dominado por homens poderosos, ela corre o risco de ser esmagada facilmente caso não lute com todas as suas forças para sobreviver e descobrir o que aconteceu com seu namorado.

Calha que essa iniciativa de dar protagonismo forte para a anti-heroína cai por terra uma vez que ela abre mão de sua independência para continuar sendo um fantoche na mão de homens e, por conveniência de um roteiro absolutamente sem progressão, sua dureza e até mesmo a gravidade de suas ações impensadas de puro ódio são frágeis e não passam a menor sensação de perigo, elemento fundamental para que esse tipo de filme de ação possa sobreviver até o desfecho sem cair no desinteresse.

Além de necessitar de uma dose extra de suspensão da descrença para acreditar nas cenas sem nexo algum com a realidade – o que tá tudo bem, uma vez que Jolt tem a liberdade criativa de arriscar em prol de fazer boas cenas de ação – o grande problema está mesmo no mal aproveitamento de um filme que, por si só, poderia ser dez vezes mais denso, mais divertido e mais estiloso do que o resultado medíocre que vemos aqui.

O humor não funciona e até mesmo constrange uma vez que Kate Beckinsale (Anjos da Noite) – ótima atriz de ação física – não tem força para manter a comédia e nem mesmo o lado mais dramático e profundo da personagem. Tudo que vemos é a superfície de uma mulher traumatizada, carregada de cicatrizes, obrigada a se auto eletrocutar para se acalmar como uma espécie de Mulher-Hulk.

Essa densidade, essas camadas mais intensas, são descartadas para construir uma protagonista piadista, rasa e sem expressão, Parte culpa da atriz, limitada, parte culpa da direção que não soube extrair o melhor possível do carisma e charme de Beckinsale, que se esforça, ainda que engessada.

Até mesmo nas cenas de ação – sua zona de conforto – o resultado é bastante insosso e mais do mesmo. Inclusive, esses momentos agitados são poucos, uma vez que o filme está bem mais preocupado em insistir na química inexistente dos personagens – especialmente na de Kate com Stanley Tucci (Jogos Vorazes) ou com o detetive incompetente vivido por Bobby Cannavale (O Irlandês) – do que nas cenas de lutas coreografadas e tiroteio pela cidade.

Se você espera um filme de ação escapista convencional no melhor estilo Atômica e John Wick, certamente vai ficar decepcionado com Jolt, já que esse se aproxima bem mais de ser uma versão genérica de obras como Lucy (2014), que já nem é lá assim tão criativa. No demais, Laverne Cox (Bela Vingança) segue como o único acerto do elenco e olhe lá.

A direção

Qualquer construção de uma narrativa coerente é destruída pela condução caótica de Tanya Wexler (Como Sair de Buffalo) e seu uso excessivo de planos repetidos – como aquele que mostra o choque passando pelo olho de Beckinsale, exibido umas 10 vezes ao longo do filme (pode contar!) – e uma direção picotada nas cenas de ação que deixa o momento confuso, bagunçado e desordenado. Fora, é claro, seu apego emocional ao recurso de flashforward – típica interrupção de uma sequência cronológica narrativa pela interpolação de eventos ocorridos posteriormente – que mostram o que a protagonista poderia fazer com sua crise de raiva sem, de fato, nunca fazer nada, ou seja, frustrante.

É o mais completo e cansativo desânimo quando esse artifício acaba sendo utilizado mais de uma vez em um filme e aqui, são inúmeras. Até a forma como filma diálogos, com planos frontais, é estranhíssima para o resultado, já que parece que os personagens estão quebrando a quarta parede e se direcionando ao público. A trama, por sua vez, demora para alcançar o conflito e o clímax é bastante desanimador (e repleto de inconsistências), assim como o vilão estereotipado ao extremo e a reviravolta do desfecho que, de surpresa, não tem nada. A trilha não é marcante, a fotografia tenta usar neon – que está em alta – mas não inova na proposta e vai para o ralo como todo o resto da obra.

Conclusão

Dessa forma, o mais difícil é não ter uma explosão de raiva ao ver o tamanho do potencial desperdiçado em Jolt que não acerta o tom do humor, não entrega cenas de ação divertidas e ainda mergulha na cafonice de uma trama genérica e previsível.

Enquanto Kate Beckinsale se esforça para sair do óbvio como a boa femme fatale que é, tudo que o roteiro caótico e a direção agressiva conseguem fazer é agredir a inteligência do público. Um espetáculo de inconsistências e personagens rasos que miram nas ótimas obras de ação protagonizadas por mulheres em busca de vingança, mas que acerta mesmo é na prateleira de filmes poucos inspirados e irrelevantes.

Nota: 3/10

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