A Era dos musicais voltou com força e o gênero – que tanto luta por espaço e aceitação do público geral – grita cinema hollywoodiano em sua mais pura essência, especialmente quando surge uma obra tão festiva como Em Um Bairro de Nova York (In the Heights), nova superprodução da Warner Bros. que visa prestar uma calorosa homenagem ao povo latino que ajudou a construir a América e ao tão comentado sonho americano, vendido para o mundo como o modelo ideal de vida.

Ao esbanjar vivacidade e alegria, no melhor estilo Amor, Sublime Amor (1961), o longa toca em feridas expostas – como a deportação em massa provocada pelo governo Trump – mas dosa com maestria as críticas sociais para fisgar os amantes da boa e velha cantoria cinematográfica.

A trama e o elenco

Sem dúvida, uma das maiores qualidades do longa-metragem é proporcionar um musical clássico com temáticas e técnicas do cinema moderno ao adaptar a peça homônima. A obra acompanha alguns dias de uma comunidade latina na periferia de Nova York, mais precisamente no bairro Washington Heights.

A partir do protagonista Usnavi (Anthony Ramos), dono de uma mercearia local, a história retrata um grupo em busca de seus sonhos nos EUA e como a vida de imigrantes é dura. Dessa premissa, o roteiro extrai um delicioso romance que permeia toda a trama e serve de pilar para sustentar as diversas narrativas de cada núcleo de personagens.

O amor é o elo que une todas as histórias, seja amor pelo Estados Unidos, pelo bairro, por alguém ou mesmo por suas origens. No entanto, enquanto o ritmo contagiante é estabelecido desde a primeira e fantástica cena de dança coreografada – aliás, as coreografias são um presente aos olhos – as letras são complexas demais para fazer com que as canções sejam inesquecíveis, como vemos em filmes recentes como La La Land: Cantando Estações e até mesmo O Rei do Show, mas, sem dúvida, “Carnaval del Barrio” é um das que prova a importância dessa história ser contada.

Ainda que seja um musical, é a típica obra que não há diálogos sem música, momentos de respiro que são absolutamente necessários. Esse modelo deve cansar, especialmente o público que já possui dificuldade de manter conexão.

Se pegarmos o já citado La La Land, há momentos em que a trilha instrumental compõe a narrativa, emociona e nos faz imergir nesse universo lúdico, aqui, porém, cada mínima conversa se desenrola em uma canção e grande parte é facilmente esquecível.

Dito isso, todo o restante está fenomenal, desde as performances do elenco, que conta com ícones como Lin-Manuel Miranda (Hamilton) e o ótimo Anthony Ramos (Nasce Uma Estrela), até a técnica da direção de transformar o bairro em um parque temático de sonhos, cores e diversidade, bem no meio de uma Nova York caótica e cinza. A cantora Leslie Grace, por sua vez, rouba a cena e proporciona momentos de empoderamento que servem para deixar o musical ainda mais contemporâneo. É raro ver um filme de Hollywood composto por um elenco inteiramente latino, por essa razão, o musical já supera paradigma e se torna essencial.

A direção

Desde a primeira sequência musical – que apresenta toda a premissa do filme em poucos minutos – o diretor Jon M. Chu (Podres de Rico) já mostra que sabe – como poucos – comandar uma trama enérgica e repleta de personagens carismáticos. O roteiro assertivo desenvolve muito bem o senso de comunidade do lugar, e a intensidade da cultura latina faz o restante. Visualmente encantador – apesar de ser um pouco escuro para uma história tão festiva – as bandeiras (até mesmo uma do Brasil aparece), a direção de arte e figurino, todos os elementos trabalham em comunhão para tornar a atmosfera ainda mais solar e emocionante. Onde também entra a condução de Chu e seus planos elaborados – como na belíssima sequência e que o casal dança na lateral de um prédio. O bairro em si, também é um personagem e, como tal, conquista facilmente nossos corações, mesmo com o excesso de histórias sendo desenvolvidas simultaneamente.

Conclusão

Ao ser um enérgico espetáculo, Em Um Bairro de Nova York voa para longe dos palcos da Broadway e sua adaptação cinematográfica emociona, diverte e proporciona uma celebração ao amor e a diversidade da cultura latina, ainda que suas canções tenham altos e baixos pelo percurso.

Um musical genuíno, alegre, refrescante e que vem com força para derrubar, de uma vez por todas, os muros que dividem todas as nações. Apesar disso, mesmo com personagens memoráveis e uma narrativa incansável, o excesso de números musicais e as diversas tramas simultâneas devem esgotar aqueles que já não são chegados ao gênero. Uma pena, afinal, poucos filmes esse ano serão tão prazerosos de se assistir na maior tela possível como esse futuro clássico em construção.

Nota: 9/10

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