As injustiças e erros do sistema penal americano é uma tecla que necessita ser batida, mesmo com uma produção realizada em 2017 e só lançada agora no Brasil com o selo de Original Netflix. Monstro (All Rise), drama penal sobre um jovem de 17 anos que se torna réu em um caso de assalto seguido de morte em Nova York, explora todas as nuances presentes nesse tipo de obra e entrega uma montanha russa de sentimentos conflitantes ao mostrar o ponto de vista do protagonista e instigar o espectador à refletir sobre suas decisões polêmicas no tribunal, com o intuito de não passar o restante de sua juventude preso por um crime que – aparentemente – não havia cometido ou participado. Assim como a ótima minissérie Olhos Que Condenam, o longa propõe um debate acalorado sobre culpa, perdão, racismo estrutural e como a sociedade aponta o dedo para julgar sem antes compreender, ou seja, o famoso “bandido bom é bandido morto!” que tanto distorce o senso de justiça de uma parcela da nossa sociedade.

A trama e o elenco

O que faz de alguém um monstro? O que faz de você alguém que pode julgar quem é o monstro? O político branco de meia idade que rouba milhões e propaga o mal por debaixo dos panos? O policial despreparado que entra na favela atirando para depois conferir o alvo? Ou o jovem negro condenado por 20 anos de prisão por um suposto – e não comprovado – envolvimento em um assalto? E caso seja culpado, existem níveis de monstruosidade ou todos são tratados da mesma forma? A trama, baseada no livro de 1999 homônimo escrito por Walter Dean Myers, como uma boa e velha narrativa de tribunal, coloca o espectador no papel de agente julgador, que acompanha o ponto de vista do protagonista, sabe de suas decisões mais íntimas, seus sonhos mais vívidos e precisa, eventualmente, definir um lado com o desenrolar da história e seu desfecho chocante.

Dessa premissa, acompanhamos a rotina de Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.), um estudante de 17 anos que sonha em ser cineasta e passa seus dias brincando pela cidade, até se envolver com pessoas erradas e ir preso por um crime de assalto que acarreta uma morte. Desde sua família bem estruturada, até seu senso de moralidade, nada disso importa quando na cadeira do réu está sentado um homem negro. E é através disso que o enredo se desdobra.

Sem dúvida, parte da força da trama e da carga emocional está no trabalho excelente de Kelvin Harrison Jr. (Ao Cair da Noite). O ator se entrega de corpo e alma ao protagonista e passa veracidade nos sentimentos que vive, ainda que não tenha tanta presença como vemos, por exemplo, Jharrel Jerome em Olhos Que Condenam, já que ambos os personagens se relacionam muito bem. Por outro lado, Jennifer Ehle (O Discurso do Rei), a defensora pública, rouba a cena e prova a força de atuação que possui. Infelizmente, Jeffrey Wright (Westworld) e Jennifer Hudson (Cats), são colocados como meros coadjuvantes e não entregam o potencial máximo, acabam perdendo destaque dentro da história. Um total desperdício desses talentos.

A direção

O trabalho de condução do novato Anthony Mandler é ótimo em seu ritmo, ainda que a história tenha sido inflada para preencher um longa de uma hora e meia. A cinematografia, ou seja, o trabalho de direção de fotografia é espetacular, desde o uso de cores terrosas para mostrar o mundo caloroso do jovem em uma Nova York cinematográfica e cores mais frias, cinza e preto, em cenas internas do tribunal, até o fato da narração em off fazer metalinguagem com o roteiro, cada momento é pensado com delicadeza e funciona, especialmente para comover o público, mesmo que tenha poucas cenas realmente intensas. O drama em si é denso, por vezes desesperançoso, mas há uma energia positiva no protagonista que acaba por deixar a narrativa levemente mais confortável de ser assistida, ao contrário de outras obras completamente angustiantes e viscerais. Ainda assim, a direção carece de sutilezas essenciais nesse tipo de obra e propõe uma abordagem superficial sobre um tema muito mais profundo do que o recorte simplificado que vemos em tela.

Conclusão

Apesar da abordagem superficial e da falta de sutilezas da direção, Monstro propõe um drama tribunal reflexivo bastante potente sobre o falho e racista sistema judicial, mas entrega mais que isso, através do olhar sensível e cativante de um protagonista feito de muitas camadas. Uma trama potente em seu tema e ainda mais poderosa na forma como nos instiga a pensar sobre quem, de fato, é o monstro de verdade. Fora o desperdício de alguns coadjuvantes e da demora para pegar no tranco, definitivamente é um filme acima da média da Netflix e que, como tal, necessita repercutir para que esse assunto nunca fique aprisionado injustamente dentro de nós.

Nota: 7/10

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