A Disney segue firme e forte na desconstrução de ideologias ultrapassadas e na reparação histórica de conceitos que tanto defendeu em outras épocas. Animais em cativeiro, por exemplo, é um tema recorrente no estúdio e, assim como a nova versão de Dumbo, do Tim Burton, busca refazer a famosa história do elefante de orelhas enormes, agora O Grande Ivan (The one and only Ivan), híbrido de animação e live-action do Disney+, que tem como base o romance infantil de mesmo nome, da autora K. A. Applegate, que, por sua vez, é retratado de fatos verídicos, faz uma interessante reflexão sobre liberdade, mas do jeitinho inocente e sutil que só a Disney consegue alcançar.

A trama e o elenco

Com um enorme elenco de dubladores, que inclui Angelina Jolie, Helen Mirren e Danny DeVito, felizmente, diferente do caos que é o recente Dolittle e seus animais falantes sem expressividade, O Grande Ivan conquista rapidamente o expectador por mergulhar no lado mais emocional do gorila protagonista e nas consequências de ter uma vida privada e infeliz em um zoológico/circo. Ainda que muitos, todos os animais, feitos através do digital, são importantes para a jornada do personagem e preenchem as lacunas que ficam, uma vez que Ivan (Sam Rockwell) é o mais sério e até mesmo melancólico dessa turma. Cada personalidade brilha bastante e funciona, tanto para emocionar, quanto para divertir o público, especialmente o infantil. Ao se afastar da falta de carisma do live-action de O Rei Leão e abraçar a sensibilidade que marcou uma geração de clássicos como Free Willy e A Menina e o Porquinho, o longa se sustenta bem e constrói sua trama de forma doce, ao mesmo tempo que entrega bons personagens humanos, como o Mack, dono do zoológico, interpretado pela lenda Bryan Cranston (Breaking Bad).

Para equilibrar um roteiro imerso no emocional e que possui consciência dos pontos fracos do público, o humor funciona, não com tanta força quanto o drama, mas está ali para não permitir que as crianças desviem o olhar da tela. A jornada, que começa sutil, acaba tomando proporções maiores e a trama cresce bastante do seu meio para o desfecho, porém, nesse ponto, acaba também por deixar alguns personagens de lado e focar em outros, como a pequena Ruby (Brooklynn Prince), um filhote de elefante que serve de gatilho para que Ivan entenda que o cativeiro tem limitações e que sua infância foi na natureza sem regras. Desse ponto, a narrativa assume um ar mais sombrio e denso, porém, exibe (ainda mais) a sua beleza visual, tanto nas cores vivas que o gorila utiliza para pintar suas artes sobre uma vida que já não lhe pertence, quanto nos excelentes efeitos digitais, que criam animais perfeitos, com textura e que interagem bem no mundo live-action. Definitivamente, é mais um deslumbre visual alcançado pela casa do Mickey.

A direção

Ainda que o longa tenha problemas no seu ritmo e que o roteiro seja explicativo além do necessário, o trabalho da diretora Thea Sharrock (Como Eu Era Antes de Você) acerta em não focar suas energias apenas na ação desenfreada, como o já citado Dolittle faz, no entanto, sobra espaço para que o texto seja desenvolvido com mais vigor e para que o emocional do público seja atingido por tamanha sensibilidade de seu olhar aguçado. Temendo aproximar-se de proporções maiores por ser vendido como uma aventura com animais falantes, o longa vai no sentido oposto e valoriza, até mesmo, momentos de puro silêncio.

Se pegarmos, por exemplo, a trama de Dumbo e seu lado mais comovente, o longa acaba exagerando e entrega um desfecho desproporcional e sem emoção, enquanto aqui, é a emoção que assume o controle e a ação se dissipa pela história. Sem dúvida, uma decisão sábia da direção e que faz a proposta repercutir por mais tempo, ainda que, certamente, pode causar algum tédio no público mais jovem. Fora isso, a trilha sonora ajuda nessa construção de clima e a fotografia dá ao filme uma tonalidade típica dos anos 1990, ainda que esteja bastante escura em algumas cenas.

Conclusão

Divertido, doce e comovente, O Grande Ivan não é apenas o melhor filme Original do Disney+ até o momento, como também entrega uma boa dose de sensibilidade, enquanto trabalha sua forte mensagem anti-cativeiro e corrige ideologias que uma vez a Disney já tanto defendeu. Tudo isso com o gostinho marcante de clássicos como Free Willy. Apesar de ter problemas de ritmo e uma trama lenta para os padrões de aventura que promete, seu interior é tocante e remete ao bom e velho modelo do estúdio de fazer uma obra emocional, para toda a família, mas que não abre mão de deixar sua mensagem ecoar por algum tempo na cabeça do espectador. E esse atinge o coração bem no alvo.

Nota: 8/10

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