Crianças endiabradas não é lá algo original no cinema de horror, no entanto, algumas abordagens recentes têm trazido um frescor às obras que apostam nessa premissa, que certamente ganhou força no passado com clássicos como ‘Colheita Maldita’, ‘A Cidade dos Amaldiçoados’ e até mesmo ‘O Exorcista’. O tema “amigos imaginários”, quando bem realizado e focado em desenvolver um terror subjetivo, causa calafrios até mesmo nos mais descrentes, como vemos em ‘O Babadook’, um dos melhores exemplos de como esse subgênero pode funcionar. Recentemente, outro filme teve boa entrega, Maligno, e agora ‘Amizade Maldita’ (Z), estreia recente nos cinemas brasileiros, segue os mesmos passos, ao menos na construção de atmosfera de medo, já que a estrutura básica permanece sem novidades.

A trama e o elenco

A boa e velha narrativa de uma família normal, como tantas outras, que começa a ser atormentada por uma entidade demoníaca disfarçada de melhor amigo imaginário, sustenta o começo promissor da trama de Amizade Maldita ao acompanhar uma mãe que percebe que há algo errado com seu filho de 8 anos e que talvez sua amizade invisível seja bem mais perturbadora do que aparenta. Desse enredo feijão com arroz até nasce um terror sólido, com bons sustos e que sabe trabalhar a atmosfera sombria, criada através da ausência de algo físico como antagonista, como vemos, por exemplo, em ‘O Homem Invisível’. Dentro da casa, o roteiro se aventura pelos cantos escuros e cria uma interessante sensação de que os personagens estão sendo observados por uma quarta “pessoa”, inexiste, mas que provoca pavor sem precisar de muito jump scare, ainda que, claro, seja uma artimanha utilizada.

Essa despreocupação de não inventar a roda faz a trama ter mais liberdade em desenvolver seus protagonistas e a ambientação, elementos que, no fim das contas, pesam positivamente. Keegan Connor Tracy (de Premonição), vive a mãe temerosa e sua performance é ótima, facilmente segura o terror crescente e entrega o que o roteiro pede, já os demais personagens são puramente superficiais, até mesmo o menino (Jett Klyne), que apenas serve de escada para o terror ganhar força e logo é deixado de lado pelo roteiro. Aliás, o terceiro ato deixa muita coisa de lado e muda a trajetória da trama, infelizmente, entregando um desfecho fraco e vazio perto do que estava sendo prometido.

A direção

Na contramão de obras óbvias recentes, a condução de Brandon Christensen (se redimindo do péssimo O Enviado do Mal) é a responsável por essa boa construção de susto, afinal, o diretor toma o tempo necessário para desenvolver cada sequência de terror e consegue manter um bom ritmo, fato realmente difícil hoje em dia. Ainda que descambe no final e perca força quando o roteiro decide explorar uma fantasminha abusivo no lugar de uma entidade macabra, acerta em não parar pra dar grandes explicações sobre o “coisa ruim”. Apenas é isso, ele existe e sua origem não fará diferença. Esse desprendimento é ótimo para que o terror possa realmente envolver o espectador, que, por um bom tempo, não sabe se o vilão existe mesmo ou é fruto da imaginação fértil dos personagens. Sem contar que sobra espaço para sequências genuínas de gelar a espinha e aparições bizarras no estilo “piscou perdeu”, mas se não piscou, traumatizou.

Conclusão

Com sustos estarrecedores e uma direção que explora o horror psicológico, ‘Amizade Maldita’ surpreende em não ter a ambição de reinventar uma fórmula, mas sim, se esbaldar dentro da que já existe. A produção, ainda que de baixo orçamento, funciona melhor que muitas feitas para manipular o sentimento do espectador sedento por sentir medo na sala escura. O final amarga, é um fato, mas a jornada até lá certamente vai te fazer dormir com a luz acesa por um bom tempo.

Nota: 7

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