O chamariz de ‘Era Uma Vez Um Sonho’ (Hillbilly Elegy), novo drama familiar da Netflix, está em seu elenco repleto de nomes populares, claramente uma manobra para ofuscar o quão desinteressante sua trama é, centrada em uma história típica sobre o tal “sonho americano”, que tanto se almeja alcançar, do ponto de vista de uma família caipira do interior dos Estados Unidos. Enquanto o roteiro mergulha em suas imperfeições, mais evidencia a falta de estrutura e arco dramático para seus personagens vazios, destacando apenas as boas interpretações de Amy Adams e Glenn Close.

A trama e o elenco

Com base no livro ‘Era uma Vez um Sonho: A História de uma Família da Classe Operária e da Crise da Sociedade Americana’, que por sua vez foi escrito sobre a infância e vida adulta de J. D. Vance, a trama acompanha a família tóxica e a relação de amor e ódio de Vance (vivido na fase adulta pelo ótimo Gabriel Basso) com sua mãe Bev (Amy Adams), enquanto sobrevive em uma cidade pequena, quente e odiosa do sul conservador dos EUA. Dessa premissa, o roteiro extrai o máximo de sentimentalismo com as idas e vindas no tempo e constrói uma narrativa arrastada, sem ânimo e que dá voltas e mais voltas para chegar em apenas um lugar: vangloriar como é difícil crescer na nação capitalista mais poderosa do planeta e como pessoas do interior sofrem dobrado (sendo que, apesar das dificuldades familiares, o protagonista é um homem branco cis hétero e sua luta para alcançar seus sonhos soa um tanto quanto exagerada do ponto de vista da direção).

Desse emaranhado de baboseiras e cenas feitas apenas para impactar o espectador, muito por conta da atuação sempre poderosa de Adams e de uma Glenn Close expressiva e doce, não sobra muito na trama que sirva para mover a história para frente. Falta clímax e muitos arcos dramáticos de personagens não levam à lugar algum, especialmente o do protagonista. Enquanto o roteiro força o fato de que Vance precisa se reconectar com sua linhagem familiar e fazer as pazes com o passado, ele começa e termina sua jornada praticamente no mesmo ponto, com a diferença de que agora parecer ter feito parte de algum quadro do programa “casos de família”. Ainda que Amy Adams (A Chegada) seja uma atriz espetacular e se entregue de corpo e alma, sua personagem é absolutamente insuportável. Nem mesmo as nuances de personalidade o roteiro soube desenvolver.

A direção

Muito desse descompasso se deve à condução debilitada de Ron Howard (Han Solo: Uma História Star Wars), com seus cortes estranhos e excessivos, fora a câmera na mão, algo que passa sim veracidade e profundidade dentro daquele mundo, porém, também desgasta rapidamente. O trabalho de ritmo e montagem também é péssimo. A atmosfera solar, por outro lado, é boa e constrói a nostalgia de clássicos da infância, já que a trama se passa, grande parte, no passado e busca remontar as lembranças de verão do protagonista com sua família problemática. A fotografia, com bastante luz natural, é quente, viva e calorosa. O clima contrasta com o sentimento frio dos personagens e cria uma ambiguidade interessante, mas não o suficiente para se destacar.

Conclusão

Com isso, nem mesmo as boas atuações salvam ‘Era Uma Vez Um Sonho’ de ser uma história desastrosa, mal dirigida e descompensada, uma grande decepção. A trama, sobre uma família tóxica e insuportável de ser assistida, não conquista, não emociona e nem mesmo funciona para passar uma mensagem de perseverança. Infelizmente, mais um grande potencial que se perdeu e foi desovado na Netflix.  

Nota: 3

Share This