É curioso como contrastes funcionam tão maravilhosamente bem no cinema. A ideia de colocar uma bailarina sonhadora, que admira o balé russo, em uma cidade pequena do interior do Ceará, parece arriscado de início, mas não é que a premissa astuta e criativa realmente funciona? Em ‘Pacarrete’, o contraste não apenas dá certo, como também nos presenteia com uma obra sensível e carismática, que presta uma homenagem aos sonhadores de plantão enquanto faz nascer uma das figuras mais intrigantes do cinema contemporâneo brasileiro: uma senhora raivosa e decidida, que passa por cima de tudo e todos para ter seu desejo realizado. Mais brasileiro que isso, impossível!

A trama e o elenco

Na cidadezinha de Russas, a dona Pacarrete sonha em um dia poder apresentar seu balé para todos do lugar e aproveita um grande evento para, enfim, ter sua tão desejada apresentação. Porém, o que ela não compreende é que o mundo de hoje não funciona da mesma forma que na sua cabeça e a modernidade não tem mais espaço para seus planos doces, de um passado distante. Dessa premissa, nasce uma obra extremamente sensível, que explora os contrastes. Não apenas do balé russo na cidade calorosa do Ceará, mas também do novo com o antigo, da passagem de tempo do mundo e de como os sonhos ficam alojados em nossas mentes pela eternidade. Através do ponto de vista da protagonista, que diga-se de passagem é interessantíssima e repleta de camadas, somos instigados a conhecer seu universo surreal e sentir na pele a opressão da sociedade diante da velhice de alguém que, assim como muita gente, não quer aceitar suas limitações pela idade.

Marcélia Cartaxo (A História da Eternidade) dá corpo, alma e vida à protagonista. Sua performance é sublime e emotiva, afinal, Pacarrete não é aquela personagem fácil de gostar. Ela é durona, arrogante e furiosa, mas isso é apenas as camadas da superfície, um muro de tijolos que criou em torno de si para se defender das críticas. Por debaixo, sua personalidade doce, sensível e solitária emociona até mesmo quem tem coração de pedra. O humor afiado do roteiro e o seu tom imaginativo, que presta homenagens aos clássicos do cinema, ajuda a criar a atmosfera perfeita na cabeça do espectador. Pacarrete se recusa a aceitar que o mundo modernizou e sua casinha simples, ao lado de um grande centro comercial, se mantém ali, firme e forte, assim como sua resistência ao contemporâneo. Aos poucos, a trama vai desconstruindo sua blindagem e revelando uma pessoa desesperada por atenção, amor e carinho, culminando em um desfecho espetacular e poético. Aliás, Zezita Matos (O Céu de Suely) e João Miguel (Estômago) também roubam a cena.

A direção e o roteiro

O trabalho do cearense Allan Deberton (Do Outro Lado do Atlântico) é de encher os olhos com tamanha empatia e astúcia em como desdobra as camadas da protagonista ao longo de sua jornada. O diretor escolhe filmar o lugar sempre focando suas lentes para a casinha de Pacarrete e nunca para a cidade em si. Além disso, as longas tomadas contribuem para essa imersão no drama proposto. Sua condução é realmente impecável, porém, se existe um problema, ainda que bem pequeno visto a grandiosidade da trama, está no texto muito robótico e menos natural da protagonista. Faltou mais naturalidade e a direção poderia ter suavizado a personagem, assim como Regina Casé, por exemplo, age de forma natural dentro de sua simplicidade, em filmes como ‘Que Horas Ela Volta?’ e Três Verões. Não atrapalha na imersão, até mesmo pelo fato do humor distrair, mas é um erro aparente.

Conclusão

O cinema nacional está cada vez mais estonteante de narrativas brilhantes e ‘Pacarrete’ é o puro fruto dessa árvore carregada de histórias deliciosas e singulares. O humor ácido diverte, o drama emocional faz chorar e a protagonista, diferente de tudo que já vimos recentemente, fica no seu coração por bastante tempo. Marcélia Cartaxo tem o charme e a irreverência suficientes para levar esse filme por muitos festivais fora do país e não seria exagero se ouvíssemos falar em Oscar por aí. Uma coisa é certa: ‘Pacarrete’ é um doce agridoce para cinema estrangeiro nenhum colocar defeito.

Avaliação: 4.5 de 5.

Nota: 9

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