Lançado no final do ano passado e começo desse ano lá fora, ‘A Verdadeira História de Ned Kelly’ (True History of the Kelly Gang) está chegando só agora ao Brasil, devido a situação da pandemia, mas, definitivamente, não é um filme que passa despercebido, especialmente por conta do seu recorte sombrio e cruel da vida de um dos “foras-da -lei” mais famosos da história, o astuto e violento Ned Kelly. A cinebiografia, que mescla fatos verídicos com contos fictícios, remonta sua vida desde a infância difícil, na zona rural de uma Austrália colonial do século XIX, até sua vida adulta, marcada por violência e crimes. Um personagem curioso, difícil de ter empatia e cheio de nuances, que está longe de ser o mocinho e não é ruim o suficiente para ser um vilão, mas que se tornou parte da história moderna por conta do nosso fascínio por anti-heróis e suas ideologias fragmentadas.

A trama e o elenco

A jornada é dívida em dois momentos: a infância e a vida adulta de Kelly, com o nascimento de sua famosa gangue de criminosos que desafiou as autoridades da Austrália sem medo de morrer. A primeira parte explora a conturbada e triste vida que o menino tinha com sua família problemática, já que, desde muito cedo, foi ensinado a matar e cometer crimes, obscurecendo a personalidade doce e gentil que possuía. Conforme a trama avança, sua vida adulta mostra um homem perverso, inconsequente e fruto de toda a violência psicológica que viveu no passado.

Semelhante ao ‘Coringa’ de Joaquin Phoenix, Kelly impõe suas ideias em todos a sua volta e tem uma visão distorcida da realidade, o que o faz ser uma pessoa repleta de camadas para serem exploradas pelo roteiro. Dessa premissa, nasce uma obra original, com um elenco impecável, destaque para atuação de tirar o folego do talentosíssimo George MacKay (1917), que se entrega totalmente ao icônico personagem, que também já foi vivido nos cinemas pelo inigualável Heath Ledger (no filme de 2003). Russell Crowe (Fúria Incontrolável) vive um padrasto perverso e entrega bastante emoção e carisma. Além deles, Essie Davis (O Babadook) e Charlie Hunnam (Magnatas do Crime) também roubam a cena.

O roteiro e ritmo

Diferente da versão cinematográfica de 2003 do bandido, dirigida por Gregor Jordan, essa nova narrativa mergulha mais profundamente em seu passado, se afasta de ser um faroeste convencional e entrega mais drama e emoção. A divisão da trama em duas partes funciona para contar, em detalhes, todas as peripécias que o protagonista viveu, porém, o roteiro intrigante e astuto perde força e qualidade gradativamente, especialmente no 2º ato, quando a trama se arrasta sem ritmo por uma narrativa desinteressante em relação ao ótimo e promissor começo.

Curiosamente, seu momento mais fraco é quando deveria ter mais ânimo, já que explora os caminhos que leva o personagem a montar sua gangue e se rebelar, após anos acreditando ser injustiçado. Porém, mesmo com esse miolo cansativo, parte da energia retorna para um desfecho monumental e violento, que resgata o espectador, expõe o nível de insanidade que aqueles personagens possuíam e mostra como tanto ódio absorvido resulta em uma conclusão triste e brilhantemente filmada.

Direção

A condução de Justin Kurzel (Macbeth: Ambição e Guerra) é impecável do começo ao fim. Seus planos elaborados e a forma como conta a história é pura sofisticação, ainda que perca o ritmo na metade e volte a crescer no desfecho. Somada a isso, a direção de fotografia faz um trabalho belíssimo ao criar a atmosfera suja, obscura e solitária da trama, com florestas sombrias e frias, fora o bom design de produção. A parte técnica é realmente chamativa e caprichada, que culmina em uma cena arrepiante no final, tanto na maneira como Kurzel filma e escolhe usar planos de ponto de vista, como na iluminação, que provoca medo e emoção ao mesmo tempo. Essa elegância se sobressai aos erros da falta de ritmo e justifica o fato do filme ser uma das obras que tem se destacado esse ano.

Conclusão

‘A Verdadeira História de Ned Kelly’ é um filme sofisticado, denso e obscuro, sobre como traumas e a violência familiar moldam a nossa personalidade, tudo isso realizado com uma direção bastante elegante e caprichada, fora as atuações impecáveis de nomes de peso como Russell Crowe e do talentoso George MacKay. Uma obra boa e raivosa, com deslizes no ritmo em alguns pontos, mas que, definitivamente, está entre as melhores e mais originais do ano até o momento.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 8

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