É curioso como ‘Mau-Olhado’ (Evil Eye) consegue estabelecer uma atmosfera diferente do convencional através das lendas urbanas e superstições da rica cultura indiana. Ainda que seja uma produção norte-americana, o suspense, desenvolvido de uma vindoura parceria entre a Blumhouse e a Amazon, utiliza bastante da ambientação de um dos países mais populosos do mundo para criar uma trama familiar, que acaba “funcionando” no drama e nas relações humanas, mas que fracassa quase totalmente na tentativa de inserir o fator sobrenatural em sua narrativa que não sustenta o medo ou o terror. O filme, do projeto Welcome to the Blumhouse, é um equívoco no quesito horror, mas nem por isso deixa de acertar em ser um recorte representativo do choque de cultura entre Índia e Estados Unidos e como o chamado “sonho americano” rompe as tradições entre duas nações distintas.

A trama e o elenco

No roteiro de ‘Mau-Olhado’, que mais parece ter sido escrito para ser um drama familiar sobre tradicionalismo, uma jovem, que reside nos EUA, ainda vive sob as superstições ultrapassadas de sua mãe indiana e, quando encontra um homem pelo qual se apaixona, precisa lidar com o fato de que sua família acredita que esse sujeito é a terrível reencarnação do ex-marido agressor de sua mãe, que retornou do além para completar seu plano de vingança. Dessa premissa até mesmo promissora para os padrões de “terror jovem” de hoje, nasce uma obra de horror sem o menor nexo, que falha no desenvolvimento do suspense e que escolhe não justificar as decisões absurdas que toma ao longo da jornada de provação da protagonista, vivida pela carismática Sunita Mani (Glow), que até entrega uma performance boa dentro do possível, assim como a atriz Sarita Choudhury (Um Crime Perfeito), que dá vida a uma mãe irritante de tão super protetora.

Na realidade, os personagens (e os atores) são bons e possuem um desenvolvimento até que adequado na história, especialmente a protagonista, o problema está mesmo na ausência de credibilidade, já que o roteiro vai do ponto A ao ponto B sem dedicar tempo suficiente para que aquele caminho faça algum sentido no clímax. O maluco plot twist é tão ruim e mal estabelecido, que o efeito acaba sendo oposto: torna a trama ainda mais absurda e previsível.

A direção

Sob o comando da dupla Elan Dassani e Rajeev Dassani, que mostra que sabe trabalhar temas importantes, como violência doméstica, e que explora bastante a cultura indiana e suas características singulares, a trama de ‘Mau-Olhado’ tem um desenvolvimento lento e repetitivo, sem contar a falta de astúcia com as cenas de suspense, desequilibradas e mal filmadas. É desastroso como o filme não consegue manter o nível da expectativa em alta e tem sérias dificuldades em estabelecer uma conexão com o público. Ainda que a protagonista seja divertida e doce, nada mais funciona além disso.

O desfecho, especialmente a última cena, é um pesadelo de tão estúpida e joga toda a boa premissa na lata do lixo, já que se mantém na fraca ideia inicial e não se esforça para entregar nada minimamente novo ou criativo ao público que esperou uma hora e meia para saber o óbvio, ainda que esse óbvio seja a pior iniciativa possível na cabeça dos roteiristas.

Porém, vale ressaltar que sim, desde o começo a trama dá pistas do que viria a ser a tal reviravolta, através de flashbacks horríveis e desconexos dentro da história. O desfecho ainda que ruim, era uma possibilidade e o deslize está mesmo no sobrenatural sem pé nem cabeça que só ganha espaço no fim e não convence, não assusta e nem mesmo surpreende. O famoso “é isso aí mesmo e tá bom” e ai do espectador se questionar como algo tão profundo e estranho pode ser possível sem uma lógica coerente por trás. Fora isso, falta elementos atmosféricos marcantes, como uma direção de fotografia mais intensa e uma trilha que coloque o público dentro da sensação de medo e perseguição que o roteiro acredita estar desenvolvendo, como acontece, por exemplo, com o ótimo O Homem Invisível.

Conclusão

Apesar da representatividade e do choque cultural interessante, ‘Mau-Olhado’ é um perfeito desastre em tudo que se propõe. O terror é péssimo e mal concebido, o drama familiar não convence e a trama, sem pé nem cabeça, é a pura essência do desperdício de tempo do espectador. Está cada vez mais distante acreditar que vai sair algo minimamente bom dessa colaboração entre a Blumhouse e a Amazon. O terrível vírus de preencher catálogo da Netflix está contagiando outros serviços que antes prezavam pela qualidade acima de tudo.

Avaliação: 1.5 de 5.

Nota: 3

Leia também outras críticas do especial Welcome To The Blumhouse, como a de Mentira Incondicional e a de Caixa Preta.

Leave a comment

Share This