Muitas vezes, ao consumirmos conteúdos estrangeiros com frequência, esquecemos como há mentes brasileiras brilhantes e com plena habilidade para desenvolver tramas que não perdem em nada para o que vem de fora. Dessas mentes sombrias e criativas, a criminóloga e escritora Ilana Casoy sem dúvida é uma referencia poderosa quando se trata de histórias macabras e envolventes. É desse poço obscuro que nasce o best-seller ‘Bom Dia, Verônica’, de 2016, escrito sob o pseudônimo de Andrea Killmore, em conjunto como o autor Raphael Montes (Uma Mulher no Escuro), outro nome importante no mercado do terror e suspense nacional. Com o produto perfeito em mãos, a Netflix adaptou o livro para uma série que consegue ser tão imersiva quanto seu material de base, ainda que tenha alguns problemas iniciais.

A trama e o elenco

Com base nos três primeiros capítulos, a produção foca em apresentar sua protagonista, a secretária de polícia Verônica Torres (vivida pela ótima Tainá Müller), durante o episódio piloto e, logo em seguida, cruza sua narrativa com a de outra mulher importante para montar os quebra-cabeças da história, a dona de casa Janete (Camila Morgado). Verônica ganha destaque por aparecer na TV pedindo para que mulheres, que são violentadas por seus companheiros, tomem a iniciativa de denunciar e essa é exatamente a vida assustadora de Janete, vítima de um relacionamento regado de abusos, violência e medo por conta de seu marido, o policial militar Claúdio (com uma ótima performance do Eduardo Moscovis).

Aos poucos, descobrimos que ele é muito mais perverso e psicopata do que aparenta e a trama novelesca se transforma em algo muito próximo de filmes sádicos como ‘Jogos Mortais’ e ‘O Albergue’. Janete é aprisionada em sua própria casa e o roteiro faz uma interessante analogia com um pássaro preso na gaiola, enquanto Verônica precisa desvendar os mistérios que cercam diversos casos de mulheres estupradas e desparecidas em São Paulo.

Ritmo

Ainda que possua todas as informações necessárias para se compreender a jornada de provação da protagonista e como ela luta para se destacar em um ambiente de trabalho machista, onde sua voz não é ouvida, o primeiro episódio não mostra todo o potencial da série, algo que muda no segundo, especialmente quando o lado macabro de Cláudio é revelado. Ainda assim, o começo tem problemas no ritmo e a construção de que algo pesado vai acontecer é demasiadamente lenta.

Porém, ainda que fique óbvio que Cláudio esconde um segredo, quando isso é revelado ao público acaba surpreendendo por tamanha bizarrice e estranheza da cena. Desse ponto em diante, a trama conquista e envolve, mas perde novamente força no capítulo três, quando as narrativas de Verônica e Janete se colidem, talvez, cedo demais na história. É com altos e baixos que o roteiro conquista e perde o espectador, mas, de uma forma geral, há fôlego para que algo diferente seja desenvolvido. O suspense, por sua vez, é crescente e instiga a curiosidade.

Roteiro

Totalmente contemporâneo, as camadas mais profundas do roteiro tratam temas pertinentes e que precisam ser exibidos ao público, tais como feminicídio e violência doméstica, ainda tocando em sororidade feminina e abuso de poder policial. Essas discussões são pertinentes e inseridas de forma quase didática na narrativa, que se constrói em torno disso e faz refletir, sentir repulsa e até mesmo temer pelas personagens que estão em risco, mérito de uma direção realmente boa de José Henrique Fonseca (Heleno) e do texto cativante, adaptado por Casoy e Montes, que sabem (melhor do que ninguém) construir uma atmosfera sinistra e violenta.

Conclusão

Entre altos e baixos no ritmo, a trama macabra de ‘Bom Dia, Verônica’ se constrói aos poucos e hipnotiza quando revela o lado mais perverso e violento do ser humano, sendo uma produção brasileira com nuances sofisticadas de “torture porn” estrangeiros. As mentes sombrias de Ilana Casoy e Raphael Montes são uma fonte poderosa de entretenimento, que envolve e provoca repulsa. Só resta esperar se a série da Netflix vai dar conta de tamanha energia criativa ou se a receita vai desandar e perder força no final. Ainda que seja promissora, falta um pouco mais de audácia.

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