Crítica | O Vento Muda – Ritmo cansativo é marcado por reflexão poderosa sobre liberdade feminina

Publicidade

Não precisa de muito no enredo quando o olhar sensível da direção consegue captar todas as nuances de sentimentos que uma obra pode explorar. Tramas extremamente simples não são necessariamente vazias. Isso podemos perceber com o instigante cinema suíço, em especial, o drama ‘O Vento Muda’ (Le Vent Tourne), que faz parte do 8º Panorama Digital de Cinema Suíço, que apresenta 14 filmes e dois programas de curtas, que serão exibidos gratuitamente na plataforma Sesc Digital, aqui no Brasil. Com direção de Bettina Oberli (do ainda inédito My Wonderful Wanda), a narrativa é lenta e se desenvolve em seu próprio tempo, mas o foco é a jornada através da redescoberta da vida, cuja protagonista passa ao perceber que tudo à sua volta é passageiro.

A trama e elenco

Após Ester realizar um sonho de vida ao lado de seu marido, de criar um ambiente autossustentável em sua fazenda e viver sem provocar grandes mudanças no mundo, Pauline (Mélanie Thierry, de ‘Destacamento Blood’) começa a se apaixonar pelo engenheiro Samuel (Nuno Lopes, de ‘A Prima Sofia’) e percebe que precisa lidar com o peso de ter que seguir em frente com esse amor carnal ou continuar ao lado do marido, vivido pelo ator Pierre Deladonchamps (Um Estranho No Lago). Dentro dessa premissa, o roteiro desenvolve uma história sobre liberdade feminina, que se torna bastante interessante de ser acompanhada, principalmente pelo excelente trabalho do elenco, em especial, da francesa Mélanie Thierry e sua incrível capacidade de sorrir e chorar ao mesmo tempo em cena.

Além disso, a ambientação da fazenda, isolada do mundo, provoca uma sensação bem-vinda de aprisionamento, ainda mais quando os animais e as plantas do lugar começam a morrer, uma perfeita analogia ao relacionamento da personagem e como seu casamento está doente e incurável. Ao mesmo tempo em que a trama mostra a força humana de desenvolver uma consciência com a natureza, também explora a fragilidade do desejo carnal e como  nós, seres humanos, somos tão fracos perante o próprio instinto. A condução narrativa de Oberli consegue nos fazer ter raiva e compaixão ao mesmo tempo pelas decisões de Pauline e essa nuance é o que mantém o espectador imerso na história, apesar de problemas de ritmo e da falta de emoção em algumas sequências que mereciam mais atenção e, até mesmo, uma trilha mais poderosa. Por outro lado, a direção de fotografia utiliza bastante luz natural e cria uma atmosfera calorosa e acolhedora na natureza.

Ritmo e realismo

Outro fato que chama atenção na produção está em seu realismo natural de mostrar, inclusive, o parto de uma vaca. Há uma conexão com a natureza necessária e a trama mostra essa intimidade dos personagens com o campo e os animais, porém, isso poderia ser ainda mais profundo e evidente. A forte carga dramática e emocional que Pauline sente no 3º ato, junto com o sentimento de culpa, está interligado à desistência de tudo que acredita e como o lugar parece estar “amaldiçoado”, como uma prega divina. Paralelo a isso, está sua paixão pelos animais, algo que também emociona o espectador, mas que poderia ser mais bem trabalhado. Já o ritmo, como citado, é lento e contemplativo, a trama caminha devagar e algumas vezes vai para lugar nenhum, fato que deve afastar o público que busca mais entretenimento, apesar de ser um filme totalmente desenvolvido para ser uma reflexão sobre solidão, liberdade e desejo, sem o intuito de divertir, já que até mesmo o humor não está presente na obra.

Conclusão

Dessa maneira, ‘O Vento Muda’ toca em questões interessantes e se torna uma contemplativa observação da liberdade feminina e da constante busca pela felicidade da espécie humana, mesmo quando tudo parece estar bem. Enquanto seu ritmo cansativo provoca tédio, sua reflexão gera um diálogo precioso, que certamente irá impactar a parcela do público que busca um filme mais denso e diferente do habitual cinema mastigado ocidental.

Sobre o Festival:

O PANORAMA DIGITAL DO CINEMA SUÍÇO chega à sua 8ª edição, a primeira on-line, com muitas novidades em 2020. De 27 de agosto a 6 de setembro, o evento, que busca aproximar brasileiros da produção cinematográfica suíça, apresenta 14 filmes e dois programas de curtas, que serão exibidos gratuitamente na plataforma Sesc Digital. O festival é uma realização do Consulado da Suíça em São Paulo e do Sesc São Paulo, em parceria com a agência de cinema SWISS FILMS.

A programação completa está na página do Facebook do Festival, que você pode conferir clicando aqui.

xxx
Última Notícia
Publicidade

Mais lidas

Mais recentes