[O texto NÃO contém spoilers aprofundados sobre a história, apenas há alguns detalhes da narrativa que são importantes serem destacados e analisados!]

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É terrivelmente complicado dar fim à uma obra. Começar até pode ser divertido, instigante e cheio de expectativa, mas definir um desfecho é um trabalho árduo e complexo, que exige muita perspicácia narrativa e alguns anos de planejamento. Talvez por conta disso, tantas séries incríveis e criativas terminam insatisfatórias, seja por ainda ter história para contar ou pelo contrário (que é ainda pior), não ter mais história e se arrastar interminavelmente apenas para gerar lucro. De fato, a ganância é a inimiga número um da criatividade. Bem, essa introdução é necessária para deixar claro um detalhe: isso definitivamente não acontece com ‘Dark’. Dificilmente a TV ou os serviços de streaming presenciaram um evento tão criativo quanto a série alemã da Netflix, especialmente por conquistar o impossível: contar uma história complexa, inteligente e elaborada em três temporadas impecáveis e ainda terminar da forma sublime que termina. Como se o desfecho já estivesse sido gravado lá em 2017, quando ainda estava dando os primeiros passos rumo à se tornar uma obra prima moderna.

De fato, depois de perfeição, planejamento é a palavra que melhor define a série. Seja por ter uma história cíclica complexa ou por simplesmente ter seu roteiro desenvolvido com atenção aos mínimos detalhes, a obra começa tão bem quanto desenvolve sua história ao longo dos capítulos. De início, confusa e até mesmo maluca por brincar com o conceito de tempo, mas que se torna cada vez mais clara conforme mergulhamos em suas camadas mais profundas. Isso é raro no mundo das séries. Essa eficiência criativa que transforma cada mísero episódio em uma pequena parte fundamental para o todo fazer sentido. As viagens no tempo se tornam menos difíceis de se compreender depois de alguns episódios e finalmente entendemos que o passado, o presente e o futuro acontecem no mesmo momento. Pois é, pensa o quão complicado é escrever um roteiro cujo conceito básico de tempo não existe ou não se altera. Os anos, os ciclos, as famílias, os objetos, tudo está interligado por um nó invisível que permeia por suas vidas. É poético e delicioso, é o jeito ‘Dark’ de brincar com narrativas, com mistérios e fazer a internet surtar a cada nova temporada, carregada de perguntas que precisam ser respondidas. Diferente de ‘LOST’, ‘Dark’ satisfatoriamente responde cada uma delas com bastante criatividade, em uma terceira temporada catártica e reveladora.

Então vamos começar a falar sobre o final. Na verdade, a temporada começa de onde a segunda havia parado, após o apocalipse ter se iniciado. Mas há um salto temporal de três meses, ou seja, a trama da linha do tempo de junho 2020 agora acontece em setembro de 2020, em um mundo completamente devastado pela destruição que teve origem na Usina Nuclear de Winden (não vemos o planeta fora da cidade, mas dá a entender que foi uma versão 10x pior que Chernobyl, porém, partes do mundo segue “bem”, pelo menos por algum tempo). Há sobreviventes neste período e outros que viajaram no tempo, para o passado e para o futuro. Além das clássicas jornadas através do tempo, o diferencial da temporada é explorar um mundo paralelo sinistro, de onde veio a Martha no final da segunda temporada. Sim, além de mexer com o tempo, agora a série se torna ainda mais complexa por mexer com universos paralelos. Mas esse mergulho rumo à loucura fará sentido para o desfecho, prometo.

Um dos maiores medos dos fãs é que essa inserção apressada de um novo mundo possa acabar confundindo a cabeça e tornar a história ainda mais elaborada, de forma negativa. Bem, isso acontece, é um fato, mas não demora muito para compreendermos as regras desse novo mundo (que chamaremos de mundo B daqui pra frente), um “mundo-espelho”, em que tudo (ou praticamente tudo, já que alguns personagens não existem!) que conhecemos existe. Mas há pequenas mudanças, seja nas características físicas dos personagens ou em suas personalidades. Curiosamente, é tão espelho que até mesmo os cenários são feitos ao contrário no mundo B (graças a uma direção de arte fantástica). As casas que tanto conhecemos estão com suas configurações invertidas. É realmente divertido, criativo e auxilia no entendimento de quando a história está no mundo A e quando ela literalmente pula para o mundo B. Outro detalhe, o clássico “tic” de relógio do mundo A, quando a história muda de ano, nesse mundo B é um efeito sinistro, que lembra coisas que poderiam ser feitas em ‘Harry Potter’, como a aparatação, por exemplo. É literalmente um “pulo” entre dimensões. Nesse lugar invertido, os personagens seguem as mesmas tramas habituais, que já vimos no mundo A, o tal “destino” parece ser o mesmo para todos, mas pequenas mudanças fazem total diferença, especialmente porque Jonas se torna o tal “erro na Matrix” que tanto comenta desde a 1ª temporada. E essa frase ganha um significado especial dessa vez.

Aliás, a fotografia nunca esteve tão obscura, parecida com o tom adulto e macabro dos últimos filmes da saga do bruxo já citado. Essa temporada está mais cinematográfica que as anteriores e assume o manto que lhe dá nome, pois é totalmente sombria, adulta e consegue até mesmo ser assustadora em certos momentos, especialmente por já nos primeiros minutos mostrar três figuras macabras e ainda desconhecidas, de diferentes gerações, tacando fogo na sede do Sic Mundus. Esse sujeito, fruto de teorias dos fãs, é a peça fundamental para o desfecho (Na reta final, ‘Dark’ não tem tempo para novos personagens, por conta disso esse é tão fundamental), para se encontrar a tal origem do nó que liga todas as vidas. Curiosamente, sua identidade já havia sido introduzida na série antes, mas os pontos só se ligam na 3ª.

As respostas são entregues uma a uma. Os primeiros episódios (do 1 ou 4), são mais elaborados e confusos, além de explorarem outros tempos ainda inéditos, já que a trama avança para além de 2053 (e é fantástico!) e retrocede para antes de 1920. Essas viagens são fundamentais para compreendermos o desfecho e o que existe além dos anos conhecidos. Nos últimos capítulos, a série dedica tempo para fechar pontas soltas e, finalmente, desfazer os nós que entrelaçam as histórias. O episódio 7 (Entretempo), em especial, é fantástico (meu favorito!) e todo dedicado a preencher as lacunas que existem entre os anos que a história já explorou. Sua narrativa é reveladora e dá aquela a sensação de “então quer dizer que foi assim que isso aconteceu…”. Esse capítulo, em especial, mostra como os roteiristas de ‘Dark’ são engenhosos e como as três temporadas definitivamente funcionam como um círculo, mas de uma forma organizada. É a personificação do “desfecho redondinho”. Todos os personagens têm seus finais adequados, porém, alguns são melhores que outros e muitos morrem antes mesmo da trama engrenar, já que o tal apocalipse, provocado pela Partícula de Deus ceifou muitas vidas (e eliminou metade do elenco).

Em destaque, diria que Charlotte (Karoline Eichhorn) é outra peça-chave para o desfecho (talvez a mais importante de todas!) e seu final é brilhante. Claudia (Lisa Kreuzer/Julika Jenkins) também se mantém como uma das melhores personagens e sua jornada talvez seja a mais minuciosamente elaborada e explicativa. A trama da Silja (Lea Van Acken) surpreende e ela explora outros períodos temporais, que serve para revelar sua verdadeira origem, foi uma surpresa boa. Porém, Adam (Dietrich Hollinderbäumer) é o que perde destaque e sua presença, ainda que importante e medonha, decepciona quem certamente está esperando reviravoltas malucas. Ainda assim, há espaço para surpresas e muitas teorias dos fãs se comprovam erradas. A série consegue enganar com perfeição e entregar respostas falsas em seus trailers. Nada é o que parece ser.

Tanto Jonas (Louis Hofmann) – adolescente e adulto (Andreas Pietschmann) – quanto Martha (Lisa Vicari) possuem papeis cruciais, especialmente Martha, que ganha o destaque que nunca teve antes. Essa versão sombria, astuta e inteligente, que vive em outro universo, é uma das engrenagens que faz a trama caminhar nos trilhos. Jonas não é mais o protagonista da história e isso é bom, abre brechas para novas narrativas e para que personagens secundários possam ter mais destaque, uma manobra importante do roteiro para que todos os núcleos de personagens possam ter um momento de holofote antes do fim. Outro elemento técnico, que novamente segue impecável, é a montagem. As narrativas se desenvolvem paralelas, mas entrelaçadas pelo trabalho estatuto da montagem e da direção dos capítulos. É visível o empenho da produção em fazer o que certamente foi gravado fora de ordem e contexto, ter sentido. Ainda que essa temporada tenha mais um quebra-cabeça adicional, que é a união de dois mundos diferentes, tenho a impressão de que foi o ciclo mais fácil de se compreender, especialmente da metade para o final. Quando o nó é desatado, a trama se torna praticamente linear. A direção de arte e figurino, por si só, já merecem uma indicação ao Emmy de tão trabalhosa e detalhista. Nesse ciclo, mais sombrio e escuro, o visual pós-apocalíptico predomina. Há muita chuva, inclusive.

Ao passar para o desfecho, no fatídico e aguardado capítulo 8, o final é condizente com toda a série até então. É poético, resgata algumas memórias e certamente irá emocionar os fãs por ter uma enorme carga sentimental e romântica. Quem poderia dizer que, por debaixo de tudo, ‘Dark’ seria uma história de amor? Apesar disso, há sim alguns problemas que, a meu ver, poderiam não existir para que tudo fosse menos novelesco. A cena que serve de epílogo, por exemplo, empobrece a história e teria funcionado melhor sem que existisse, ainda que sirva para deixar uma cerejinha no bolo após o final. Fora isso, há um momento de diálogo expositivo entre dois importantes personagens anciões, que serve, claro, para recapitular alguns detalhes no melhor estilo Scooby-Doo, mas vindo de um roteiro tão inteligente, soa desnecessário a esse ponto. As últimas cenas, sem dar detalhes, são a mais pura e deliciosa ficção científica, que lembram obras do Christopher Nolan com a sensibilidade do J. J. Abrams.

Fica claro que a intenção é deixar tudo bem evidente e, apesar de isso ser bom, em histórias como esta, cujos mistérios se resolvem sozinho na cabeça do espectador, o roteiro acaba extrapolando em alguns pontos. Ainda sobre o desfecho, há sim um motivo para que tudo que acompanhamos ter começado e esse motivo é o que serve para que tudo seja, obviamente, concluído (como já havia sido revelado na segunda temporada). O motivo em si é bom (há pistas dessa ponta do nó desde a primeira temporada, só ficar atento), um pouco brega para o nível da série? Talvez. Mas faz sentido dentro da proposta e funciona para mim. Com isso, ‘Dark’ escolhe um caminho mais fácil e decide terminar de uma forma que não deixa possibilidades para que a história, como conhecemos, possa continuar, mas abre pequenas brechas para uma nova jornada. O que, a meu ver, não deveria acontecer.

Dessa forma, a última temporada de ‘Dark’ é o desfecho emocional necessário, que passeia pelo sublime e consagra essa como a melhor obra de arte que a Netflix já realizou. Seu final é impecável e o roteiro inteligente consegue concluir e fechar todas as pontas soltas com maestria e criatividade. No fim, ‘Dark’ não é apenas o produto da ficção científica com viagem no tempo mais intrigante da cultura pop, mas também uma série que manteve seu nível de perfeição do começo ao fim, um fato raríssimo no mundo das séries e que precisa ser aplaudido de pé.

Uma história de amor, de laços familiares, que explora inúmeros núcleos e diferentes tipos de pessoas, mas que no fim, é genuinamente um drama sobre perda, amadurecimento e amizade. Dificilmente a conclusão irá desagradar os fãs mais devotos, já que, mesmo brincando com mundos diferentes, sua essência se mantém intacta. É sólido dizer que igual ‘Dark’ nunca mais terá e que a cidade maluca e repleta de dramas de Winden vai deixar uma saudade enorme no coração dos fãs. A sensação que fica após assistir a última e doce cena da temporada final é de querer ter uma máquina do tempo só para poder voltar para 2017 e reviver a série toda outra vez.

Nota Geral
10

Resumo

A última temporada de ‘Dark’ é o desfecho emocional necessário, que passeia pelo sublime e consagra essa como a melhor obra de arte que a Netflix já realizou.

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