Crítica | ‘Eu Nunca…’ é a nova “Sex Education” da Netflix

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O compromisso da Netflix com a representatividade talvez tenha chegado ao seu auge com a série de comédia ‘Eu Nunca…’ (Never Have I Ever), que cataloga todos os assuntos atuais da nova geração e, de forma extremamente divertida, aborda cada um deles com bastante eficiência e sensibilidade. Assim como ‘Sex Education’ e ‘Euphoria’, a série teen serve como um livro didático moderno, voltado para jovens adultos que estão se desconstruindo em um mundo repleto de amarras impostas pela sociedade. A inteligência vem de um roteiro sagaz, que dá voz e protagonismo à jovens que fazem parte da chamada “minoria”. Sem usar o manto de vitimismo, debate as razões pelas quais esses grupos são minoritários e como é ser adolescente em um mundo que está em constante modificação.

Como a comédia, de todos os gêneros, consegue abordar esses assuntos de forma leve, porém, comprometida em servir de explicação, o humor aqui é pontual, ácido e muito bem construído dentro da trama que está sendo desenvolvida. Além do mais, a historia sensível, sobre uma adolescente de origem indiana que mora em Los Angeles e está na fase de se descobrir, tanto sexualmente quanto emocionalmente, subverte o gênero e, ao invés de entregar uma comédia romântica clichê tradicional (ainda que utilize a estrutura de uma) segue caminhos originais e criativos que são realmente surpreendentes e emocionantes. Os 10 episódios, com um pouco mais de meia hora cada, são diretos, ágeis e passam voando. Ao final, a sensação de querer ver mais daqueles personagens é forte, ou seja, somos consumidos pelo mundo proposto pela produção. E isso é fantástico!

O elenco também tem uma enorme parcela de culpa de as piadas serem tão eficientes. Maitreyi Ramakrishnan, que vive a protagonista, é incrível. Seu timing cômico, somado a sua emoção, são perfeitos para a jornada de altos e baixos da personagem. A atriz é um fenômeno e logo vai ganhar Hollywood com força, pode apostar. Outro destaque fica para a mãe, Poorna Jagannathan (The Night Of), também hilária, sendo a que carrega a maior parte do drama da série. Fora isso, a química da protagonista com suas amigas da escola, que também carregam consigo dramas e debates interessantes sobre homossexualidade, racismo e preconceitos, é fundamental para a dinâmica, além de deixar o texto mais rico, criativo e engenhoso.

Desde o começo, somos informados que John McEnroe, famoso esportista, será o narrador da história. Essa união inusitada faz sentido ao longo da trama e funciona como nosso olhar de fora para as situações cômicas vividas pelos personagens. Com exceção de um episódio fantástico, que é narrado pelo astro de ‘Brooklyn Nine-Nine’, Andy Samberg, todos os capítulos têm uma narração super divertida de McEnroe  para guiar as presepadas adolescentes. Aliás, ao pensar em capítulos isolados, há um episódio bem colorido e fundamental, que brinca com as tradições rígidas da cultura indiana, enquanto mostra que a protagonista se sente mais americana do que qualquer outra coisa. O capítulo é um perfeito exemplo de debates que são levantados, com boas intenções e muito humor, mas que também servem como uma aula sobre o tema.

O humor, como já citado, é inteligente e tem plena convicção dos caminhos que está percorrendo, similar à outras séries como ‘Todo Mundo Odeia o Chris’, ‘The Middle’ e o filme ‘Fora de Série’. Há uma cena, por exemplo, que faz uma zoação com ‘Riverdale’, por mostrar jovens adultos demais para uma escola de ensino médio, porém, ao mesmo tempo, essa crítica se converte em homenagem, já que uma das personagens se inspira na série para ser uma mulher independente e corajosa. Esse tipo de eficiência criativa é o diferencial da obra, além de também ser colorida e alegre, no melhor estilo Bollywood, mas saber dosar essa alegria com um drama sobre perda e saudade, que emociona e aprofunda os personagens.  A criadora e atriz Mindy Kaling (Late Night) tem sua carreira cercada de histórias sobre feminismo e sobre a luta de estrangeiros nos Estados Unidos, essa bagagem dá à serie conteúdo acima da média de outras séries teens recentes.

E quando você não esperava que nada superasse a inteligência de ‘Sex Education’ esse ano, chega ‘Eu Nunca…’ para roubar o posto de melhor obra coming of age da Netflix. Como é bom se entreter com algo realmente prazeroso, inteligente e que está em harmonia com o mundo jovem atual. Uma história sensível sobre maturidade, perda e descoberta da sexualidade que, além de arrancar boas gargalhadas, ainda emociona como poucas séries teens da atualidade. A única coisa ruim, aparentemente, é que a segunda temporada ainda não foi confirmada.

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