É de pequenas ideias que nascem as boas histórias. Colocar um senhor de 70 anos como estagiário de uma empresa jovem e moderna é, sem dúvida, um plot que pode render uma trama divertida e curiosa, algo que realmente acontece com ‘Um Senhor Estagiário’ (The Intern), comédia de 2015 que está fazendo sucesso na Netflix (onde está sendo chamada de ‘O Estagiário’) pelo seu alto teor de fofura, palavra essa que dificilmente seria relacionada à Robert De Niro (O Irlandês) senão nesse filme, em que, diferente de todos em sua carreira, abaixa a guarda e a pose de poder para viver um homem experiente com a vida, doce e que precisa encontrar formas de se distrair após o falecimento de sua esposa. Um papel relativamente fácil para o ator veterano e que o consome pela emoção e a excelente química com o outro pilar dessa história: a atriz Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada).

Se de um lado temos um senhor gentil, solitário e calado, do outro temos uma personagem jovem acelerada, fechada e focada em comandar uma empresa que construiu sozinha. Dois opostos que se completam e se equilibram perfeitamente. Aliás, a dinâmica da história gira em torno dessa união de mundos diferentes, do “ultrapassado”, com o moderno, do jovem superconectado, com o velho que trabalhou a vida inteira em uma empresa de listas telefônicas, substituída posteriormente pelo Google, assim como ele, que acaba sendo deixado de lado pela idade. O roteiro busca valorizar as origens e também faz uma leve, porém evidente, crítica a frieza que o mundo se tornou com a internet. E é dessa dinâmica que são extraídas as piadas da trama.  

O humor não pesa para o pastelão, ainda que boa parte das piadas não decolem, mas centra sua energia em pequenos detalhes do cotidiano e da relação fraternal entre Ben e Jules. Sendo o lado emocional mais valioso e cativante. Boa parte das cenas de comédia, como uma sequência sem o menor nexo do grupo roubando um computador para apagar um e-mail enviado de forma errada, poderiam ser facilmente descartadas e ainda contribuiriam para melhorar o ritmo do filme, outro grande problema. A história é boa e rende situações interessantes, mas é tão demasiadamente longa, que precisa recorrer a outras peripécias para se manter, como essas cenas bobas, forçadas e que deixa o filme inchado, como um pastel de vento. Sem dúvida, ter uns 20 minutos a menos faria total diferença. Ainda assim, a direção de Nancy Meyers (Alguém Tem Que Ceder), já experiente com esse tipo de comédia “Sessão da Tarde”, é eficiente e sabe valorizar o elenco e seus momentos dramáticos.

Além do excesso de tempo que algumas sequências levam, também há muitos personagens, que só servem para gerar situações cômicas, como o vivido por Adam DeVine (Jexi – Um Celular Sem Filtro) e a massagista, vivida pela atriz Rene Russo (O Abutre). Não que o descarte de ambos faria melhor para o roteiro, mas reduzir seu número de cenas já deixaria a trama mais enxuta e menos boba, afinal, é o lado emotivo que acaba pesando positivamente para o envolvimento do público e esse é plenamente suportado pela atuação silenciosa de De Niro e pelas nuances emocionais da personagem de Hathaway. A montagem também segue um bom ritmo, apesar das cenas prolongadas. A trama, como um todo, se desdobra de forma coerente e caminha até mesmo por algumas surpresas, ainda que, claro, seja previsível que ambos os protagonistas irão desenvolver carinho e afeição um pelo outro, mesmo com os conflitos propostos para que isso seja dificultado e o excesso de cenas em que Ben precisa cuidar de Jules, como um pai, apenas para evidenciar essa aproximação.

Além de emocionar, quando o roteiro de ‘O Estagiário’ não está entregando piadas fracas através dos coadjuvantes, consegue fazer refletir sobre a passagem apressada de tempo da vida, algo que só é permitido através da ótima dinâmica entre o veterano Robert De Niro e Anne Hathaway. Um filme doce, inofensivo, divertido e que ainda é capaz de fazer uma crítica singela ao nosso modo atual de viver sem se importar com as pessoas e as histórias fantásticas que vieram antes de nós. Sem dúvida uma escolha calorosa para assistir na Netflix.

Nota Geral
8

Resumo

Um filme doce, inofensivo, divertido e que ainda é capaz de fazer uma crítica singela ao nosso modo atual de viver sem se importar com as pessoas e as histórias fantásticas que vieram antes de nós. Sem dúvida uma escolha calorosa para assistir na Netflix.

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