Além de servir como base para o que hoje conhecemos como super-heróis (ou apenas heróis), poucas histórias são tão ricas em detalhes quanto a mitologia nórdica e todas as suas inúmeras subtramas sobre Deuses, símbolos e lendas. Narrativas espetaculares, lutas colossais e a interação entre seres imortais e meros humanos fazem parte do imaginário popular desde a Idade Média. Essas histórias ajudaram a moldar a forma como contamos a fantasia na arte, através da estrutura dos atos e da jornada do herói, e influenciaram diversas obras da literatura, dos quadrinhos e do cinema. Ou seja, sua dimensão é tamanha, que ao pegamos séries simplistas como ‘Ragnarok’, produção norueguesa da Netflix que busca ser o pontapé inicial para um novo projeto de “super-heróis” na gigante do streaming, é inevitável não sentir que a mão do criador pesa muito mais para a zona de conforto de séries teen como ‘Riverdale’ e filmes de aventura como ‘Percy Jackson’, do que para obras mais ousadas, como ‘American Gods’.

Não que a simplicidade seja um demérito, afinal, sua proposta de trazer as histórias nórdicas para o mundo moderno e menos grandioso é interessante e, como já citado, funciona para o público jovem, no entanto, apesar da premissa criativa e da energia que a trama da 1ª temporada investe em suas referências, há inúmeras crateras pelo caminho que acabam influenciando o envolvimento do espectador, que busca algo mais, digamos, direto ao ponto, ainda mais por se tratar de personagens já conhecidos e muito explorados na cultura pop, como Thor, ainda que a série se proponha a fazer uma releitura que se agarra apenas aos principais conceitos do personagem. Com apenas (e felizmente!) seis episódios, a história consegue fluir com mais vigor pelo duração, mas o excesso de tramas paralelas desinteressantes enfraquece o ritmo da jornada do protagonista, que perde o holofote.

Na trama, recém chegado a cidade de Edda, Magne (David Stakston) acaba testemunhando um terrível acidente envolvendo uma amiga. Após a tragédia, o jovem começa a perceber que possui algumas habilidades especiais e que nem todos os habitantes da cidadezinha são humanos. Conforme descobre seus poderes, começa a entender que, na verdade, se trata de um antigo Deus capaz de controlar a eletricidade, chamado Thor, e que misteriosos acontecimentos a sua volta marcam a chegada do apocalipse, ou Ragnarok, no idioma nórdico. Dessa forma, a premissa instigante, inicialmente abordada pelo roteiro, que escolhe não fazer tanto suspense e já mostra nos primeiros minutos que o jovem não é apenas um adolescente comum, perde a energia conforme os episódios avançam.

Situações óbvias são abordadas com frequência pelo roteiro para deixar claro ao espectador que a trama é sobre a origem do Deus Thor. Desde arremessar marretas à quilômetros, até saber a hora exata que vai chover. Ainda que seus poderes façam parte da releitura e fugir do clichê é uma tarefa difícil nesse caso, as situações são puramente gratuitas e mal desenvolvidas dentro do contexto, que torna previsível todo o rumo da trama. Enquanto seu protagonista vive uma espécie de “jornada do herói” desconstruída, as subtramas são ainda mais fracas e arrastadas. Há um contexto ambiental forçado apenas para mostrar os efeitos do “fim do mundo”, isso para não falar dos vilões, uma família de seres malignos denominados “gigantes”, que possuem rivalidade com os Deuses desde o início dos tempos. Apesar da ideia ser boa e a família adotar uma vibe ‘Crepúsculo’, sendo os diferentões e ricos do lugar, mais uma vez o roteiro peca no desenvolvimento de suas personalidades, rasas e desinteressantes, assim como a construção do personagem Laurits (Jonas Strand Gravli), que começa e termina sem rumo.

Com um elenco fraco de jovens, uma montagem caótica e erros de continuidade nas cenas de ação, uma das grandes apostas da Netflix para esse ano acaba prometendo demais e cumprindo de menos, mesmo que a premissa seja realmente boa. Até há elementos positivos em ‘Ragnarok’ que mostram potencial na série, como os efeitos especiais bem acabados e o desfecho da primeira temporada (ainda que mínimo dentro do confronto que estava sendo desenvolvido para ter), que promete uma guerra eminente caso haja um novo ano, porém, ainda precisa ser polida e repaginada para chegar aos pés da história grandiosa sobre Deuses imortais que está tentando contar.

6

Resumo

Uma das grandes apostas da Netflix para esse ano acaba prometendo demais e cumprindo de menos, mesmo que a premissa seja realmente boa.

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