Se você soubesse o exato momento de sua morte, faria algo para mudar seu destino fatal ou aceitaria a realidade como ela é? A manipulação do livre-arbítrio, assim como o uso da tecnologia como forma de autodestruição, tem sido temas recorrentes nos filmes de terror. Desde o sucesso de ‘Black Mirror’, cada vez mais filmes e séries estão apostando em histórias mirabolantes, em que a internet (e suas derivações!) é a principal vilã. Se por um lado essa atualização no gênero é bem-vinda e rende obras ótimas como ‘Buscando…’, por outro, está se tornando padrão utilizar aplicativos de smartphones como receptáculo de maldições e demônios. E essa padronização acaba por render algumas presepadas, como é o caso de ‘A Hora da Sua Morte’ (Countdown), terror convencional, lambuzado de clichês do gênero e que se perde em sua própria ambição de ser uma versão moderna de ‘Premonição’.

A trama, semelhante há filmes como ‘Verdade ou Desafio’ e ‘A Morte Te Dá Parabéns’, é centrada em um novo aplicativo de celular que promete prever o momento exato da morte de cada pessoa. Após se tornar viral e conquistar muitos adeptos, a jovem enfermeira Quinn (Elizabeth Lail) resolve baixá-lo, mesmo sem acreditar, porém, descobre que só lhe restam apenas dois dias de vida. Quando a contagem regressiva começa, coisas sombrias passam a acontecer e ela precisa desvendar o mistério de como enganar a morte para sobreviver. A premissa, de fato, é boa e o roteiro até sabe como trabalhar em cima dela por algum tempo. Toda a construção inicial da trama é equilibrada e, quando o roteiro não tenta aprofundar demais no passado dos seus personagens sem carisma e na origem sem nexo da tal maldição, é também quando entrega as melhores cenas.

Melhores com bastante aspas, pois a construção do terror tem um problema estrutural bem comum: começa bom e na hora do susto é puro fracasso. Não que não assuste, pois o uso de jump scares é exagerado, mas a escolha de mostrar demais a criatura é falha e não deixa que o espectador possa imaginar seu próprio “monstro”. Dessa forma, o suspense é como uma montanha-russa, que sobe e quando está no ápice, despenca para lugar nenhum. Além disso, há excessivas subtramas acontecendo ao mesmo tempo que não acrescentam nada ao plot principal e o roteiro tenta inserir inúmeros elementos do gênero para deixar o filme mais enxuto, porém, o efeito é contrário, há demônios, maldições, padres exorcistas, hackers, subtexto de assédio no trabalho, rituais religiosos e por aí vai. Muita informação para pouco conteúdo.

Por ser o primeiro longa-metragem de Justin Dec na cadeira de diretor, até é de se admirar que haja certas qualidades na forma como apresenta os sustos e como guia a câmera pelos ambientes sombrios, de todos os males, o menor. Mesmo que não saiba trabalhar seus atores e a carismática Elizabeth Lail (da série ‘Você’, da Netflix) não entrega o menor carisma aqui. Ao menos, é a que melhor se destaca do elenco, já que Jordan Calloway (Riverdale) e Talitha Eliana Bateman (Annabelle 2) não fazem diferença e seus personagens só existem para que o filme possa ter uma duração maior. Ainda assim, vale destacar que uma das melhores, senão a melhor, cena de terror acontece com Calloway em um banheiro do hospital, essa é intensa e lembra a boa construção de medo de filmes da franquia ‘Invocação do Mal’.

Apesar da direção de fotografia ser escura demais, a atmosfera não é ruim, mesmo que insista em adentrar em ambientes criados apenas para auxiliar no terror, como a tal ala abandonada do hospital, lugar visivelmente perigoso, mas é claro que todos os personagens vão querer estar ali de forma gratuita. São esses clichês e idiotices do roteiro que colocam a prova a credibilidade do espectador e certamente é o maior erro, já que trata o público como estúpido, por forçar acreditar e engolir as resoluções mirabolantes que a trama entrega, assim como o desfecho raso e sem nexo. Por pior que possa parecer e destoar de toda a história, é o humor de dois personagens alívios cômicos (o padre descolado e o hacker de celulares) que mantém o pouco fascínio que o filme possui.

Com isso, ‘A Hora da Sua Morte’ tem roteiro raso e replica clichês do gênero, quando poderia aproveitar sua premissa interessante para criar algo original. Há sim bons sustos e a construção do terror não é ruim, porém, infelizmente isso não é o suficiente para que tenha algum destaque. Se o filme tivesse acesso a esse aplicativo, certamente seu tempo de vida seria apenas pela sua duração, morrendo e sendo completamente esquecido após a sessão. Já que o tempo é a base da trama, é irônico que seja desperdício de tempo assistir esse filme.

Este filme foi assistido na cobertura oficial do Festival do Rio 2019.

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