O cinema, como imersão e distração, consegue manipular perfeitamente nosso sentido e nosso senso de verdade como um mágico. Um roteiro bem escrito, elaborado e trabalhado minuciosamente em seus detalhes consegue ser um perfeito tabuleiro de jogo, onde nós, espectadores, somos também parte da narrativa. De forma passiva, ou seja, observando e refletindo sobre cada peça que é mudada nas jogadas, ou mesmo de forma ativa, quando nós sabemos mais informações valiosas que os personagens da trama. De uma maneira ou de outra, é primoroso quando acreditamos que temos todas as respostas e vem a história e entrega novas pistas, essa luta constante para encontrar a verdade é a chave de ‘Entre Facas e Segredos’ (Knives Out), longa que faria qualquer fã da literatura de Agatha Christie sentir um calor no coração de tamanha esperteza que o roteiro traz.

Certamente, há uma inspiração descarada de ‘Assassinato no Expresso do Oriente’, tanto do livro quanto do filme de 2017, já que o elenco estelar se repete em ambas as produções. Porém, e felizmente, ‘Entre Facas e Segredos’ se afasta do convencional e manipula o espectador com falsas pistas por diversas vertentes, ao explorar a misteriosa morte de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), que supostamente se suicidou no dia de seu aniversário de 85 anos. Com isso, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é contratado para investigar o caso e descobre que, entre os funcionários misteriosos e a família conflituosa de Harlan, todos podem ser considerados suspeitos do crime. Essa busca para encontrar o que, de fato, aconteceu naquela noite, é um verdadeiro jogo de “arremesso de facas” na escuridão.

Se pegarmos outras produções similares, como o recente ‘Mistério no Mediterrâneo’, filme da Netflix que faz uma parodia desse tipo de trama, e também o investigativo ‘Os Homens que Não Amavam as Mulheres’, ambos não conseguem expressar a inteligência que o visionário diretor Rian Johnson (Star Wars: Os Últimos Jedi) agrega para o gênero suspense/policial ao trabalhar as reviravoltas de forma natural, coerente e sem forçar a barra, ou mesmo mentir para o espectador, já que as pistas são dadas desde o começo e, assim como um jogo de quebra-cabeça, precisam ser acumuladas e colocadas juntas para que façam sentido. A direção é eficiente e guia a trama de maneira instigante e incansavelmente interessante de ser acompanhada, assim como o trabalho da montagem e da composição das cenas, que auxiliam na completa imersão dentro da mansão dos Thrombey.

Com o roteiro equilibrado e a direção habilidosa, o elenco entrega a veracidade e o humor ácido que a trama tanto necessita. Por sorte, o time é forte. Chris Evans (Vingadores: Ultimato), Jamie Lee Curtis (Halloween), Michael Shannon (A Forma Da Água), Don Johnson (Watchmen), Lakeith Stanfield (Corra!) e como se ainda não fosse o suficiente, Toni Collette (Hereditário). Mas é a novata Ana de Armas (Blade Runner 2049) que rouba a cena, tarefa realente difícil com o elenco estelar desse, mas o roteiro privilegia sua personagem e a coloca como peça central no jogo de mistérios. Com exceção Katherine Langford (13 Reasons Why) e Jaeden Lieberher (It: A Coisa), que não conseguem se destacar, o restante do elenco está excepcional e trabalha a comédia com naturalidade e eficiência.

A direção de arte e a fotografia trazem um ar clássico, que brinca com elementos de Sherlock Holmes e filmes de detetives dos anos 60/70, porém, a trama é contemporânea. Essa mistura de ambientação agrega originalidade ao filme, que também utiliza o humor inteligente como válvula de escape para a inevitável breguice que esse tipo de obra acaba por cair. O roteiro, plenamente consciente desse fato, ri de si mesmo quando a investigação (e o investigador) começam a seguir pistas mirabolantes. Outro fator fundamental para destacar esse filme entre outros, é que nós recebemos a informação sobre parte do que aconteceu naquela noite antes dos investigadores. Isso acontece já no segundo ato da trama e, dessa forma, a quebra de clichês e previsibilidades se torna evidente, já que a grande revelação é feita de forma lenta até o desfecho, mais uma vez, puxando o tapete que achávamos ser a verdade. Essa subversão é criativa e incentiva que o filme seja revisto, para que a experiência de juntar as pistas possa ser concretizada por completa.

Dessa forma, Rian Johnson nos convida para participar de um jogo espirituoso, onde precisamos juntar minuciosamente as peças para desvendar o culpado, como uma deliciosa partida de Detetive. O roteiro é estimulante, manipulador e divertido, o elenco é absurdamente eficiente e o humor se destaca com a precisão de uma faca atirada em um alvo. No ano em que as sequências e remakes tomam conta dos cinemas, ‘Entre Facas e Segredos’ é um frescor, a mais pura genialidade de uma investigação criminal que certamente vai te deixar sem unhas para roer nos cinemas.

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