The Handmaid’s Tale é a expressão mais pura de uma verdadeira arte

Definir o que é arte é talvez a maior discussão da atualidade no Brasil. Caso você esteja lendo este texto algum tempo depois, acredite, estamos tendo esta discussão em 2017. Mas afinal, o que é arte? De acordo com nosso QUERIDO Wikipédia, é a “habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional”. Sabendo – mais ou menos – o que é arte, vamos entrar em outro conceito: o estado da arte, considerado o mais perfeito estado ou expressão que a obra (ou objeto), seja ela qual for, pode alcançar. The Handmaid’s Tale representa o estado da arte em obras seriadas.

Este texto não é uma crítica, mas um conjunto de opiniões minhas sobre a série e sobre o quanto eu me apaixonei por ela. Para quem não sabe, The Handmaid’s Tale foi a maior vencedora do Emmy 2017, com 8 premiações, incluindo melhor série dramática, melhor atriz e atriz coadjuvante. A série, baseada em um romance homônimo da Margaret Atwood de 1985, é do serviço de streaming Hulu, um dos maiores concorrentes da Netflix, e que ainda não chegou no Brasil. Porém, ela será transmitida oficialmente pelo Paramount Channel.

A série se passa em um futuro distópico onde os Estados Unidos sofreram um golpe de estado por um grupo chamado Filhos de Jacó, que mudaram o nome do país para Gilead. Este grupo, totalitário e teocrático, ou seja, uma antidemocracia “baseada” na bíblia, as mulheres são divididas em três categorias: as marthas, uma espécie de donas de casa, as aias (ou handmaid’s) e as esposas estéreis dos homens que comandam esta nova sociedade. The Handmaid’s Tale significa literalmente “O Conto das Aias”, e é nelas que vamos focar. Essas mulheres, cujo o objetivo é APENAS PROCRIAR, são objetos das famílias que as tem. Neste país, poucas conseguem ter filhos. Não se sabe exatamente o motivo disso estar acontecendo, por isso, para garantir a continuidade da humanidade, as aias são estupradas pelos seus comandantes num evento chamado de “cerimônia” e, quando grávidas, são tratadas como rainhas para após o nascimento da criança, descartadas como lixo. Com o prefixo “of”, as aias não tem mais nomes próprios. Agora se chamam Offred, Ofglen, Ofsteven, isto é, Do Fred, Do Glen, Do Steven.

Se eu fosse dar uma nota para cada série eu que já vi, poucas eu daria 10. Com a maioria é assim, creio eu. Nem mesmo as minhas preferidas. Como já falei aqui no Pipocas, Breaking Bad é pra mim a maior série de todos os tempos, digna de um verdadeiro 10. The Handmaid’s Tale é, desde o final da saga de Walter White, a melhor série feita pra mim, e também digna de nota máxima.

Assim como Bryan Cranston, pra mim o ponto mais alto de Breaking Bad, Elisabeth Moss é o ponto mais alto da série. Sua atuação é simplesmente incrível. Em vários momentos a câmera faz um close completo no seu rosto. É como se a gente só ouvisse a cena e tentasse saber o que está acontecendo através de suas reações. Cada respiração, olhar, choro é uma história contada. Moss narra em muitas cenas a história como se fosse o pensamento da personagem June/Offred. Em uma das cenas, sem soltar muito spoiler, ela diz que tudo naquele momento seria uma metralhadora. Seus “fuck’s”, junto às suas reações, o momento vivido e nossa indignação, quase nos faz querer metralhar junto com ela.

A fotografia é maravilhosa. As cores são bem pastéis no geral, onde as aias se tornam, por coincidência do destino – mas de propósito por parte da autora – as mais coloridas. Elas se vestem de vermelho, para remeter ao sangue do nascimento. As cenas se tornam visualmente lindas, mesmo que extremamente chocantes. A história é contada baseada em flashbacks, para entendermos que de uma hora pra outra, em uma sociedade normal como na qual vivemos agora, algo deste nível aconteceu e mudou completamente o modo como se via esta sociedade. No mundo antigo, as cores são mais variadas. No atual, mais limpas, brancas, claras, para transmitir paz e tranquilidade às pessoas que vivem em Gilead. Como se elas estivessem vivendo um lindo sonho, em um verdadeiro paraíso.

O mundo implantado em The Handmaid’s Tale é assustador. As vezes nos perguntamos “será que isso pode acontecer?”; “onde estão as boas pessoas? Todas reprimidas?”. Vemos uma briga desleal. Homens de preto armados até os dentes mandando em mulheres aparentemente frágeis. A perplexidade acontece em vários momentos. No estupro, para a conceber um filho, até o momento em que um policial enfia uma arma na boca de uma aia que não “cumpriu com seu dever”. O sentimento mais comum é o de vingança. Pelo menos pra mim. Eu quero ver logo uma revolução! Pela cara da Elisabeth Moss, eles que se preparem.

O elenco é todo sensacional. Desde a Moss, como já falei, ao Fred, o comandante, sua esposa estéril até a Tia Lydia, vivida pela Ann Dowd e também vencedora do Emmy, que parece ser uma grande f***, mas que as vezes também parece esconder algo de muito misterioso no final das contas.

Feminista sim, com muito orgulho, a série tem papel central na mulher, é mais atual do que nunca e, como série, representa sim uma verdadeira e mais pura obra de arte. Vamos aguardar pela segunda temporada que promete ser relevadora e tão sensacional quanto a primeira.

É sempre bom lembrar. Essa aqui é a minha opinião. Nada demais. 😉

https://www.youtube.com/watch?v=NaPft-MFj38

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