É muito fácil relacionar O Fim da Rua (The End of Oak Street) com outras obras cinematográficas, em especial com o clássico Jurassic Park. Mas a única coisa que, de fato, liga essas obras é a existência de dinossauros famintos e pessoas em apuros. Dessa vez, criativamente falando, o filme tenta explorar ideias novas — algo que a franquia Jurassic World, por exemplo, nunca conseguiu extrair dessa narrativa: em vez de colocar humanos tolos em um parque perigoso, dessa vez é o “parque” que vem involuntariamente até eles, quando um bairro inteiro do subúrbio americano é teletransportado, por algum tipo de portal de minhoca, para o passado, mais precisamente para a Era Mesozoica da Terra.
Isso é muito divertido e existe uma história spielbergiana boa aí para ser explorada no melhor estilo The Twilight Zone e Stranger Things. Mas o filme de David Robert Mitchell (Corrente do Mal), que sabe conduzir muito bem o horror da situação e brinca magistralmente com o mistério e a carnificina, acaba falhando ao apostar em um roteiro expositivo demais, que entrega explicações em excesso e impede o público de se perder — no melhor sentido — na viagem maluca proposta pela obra. Mas uma coisa é certeira: é um filme-pipoca do começo ao fim, como se propõe a ser. E, por si só, isso já bastou o meu ingresso.
Os acertos e erros do filme
Apesar de alguns diálogos insuportáveis de tão repetitivos e cafonas, e de algumas decisões bem questionáveis que a trama escolhe tomar, a aventura busca referências não apenas nos clássicos infantis dos anos 80, como E.T e Os Goonies, mas também no cinema blockbuster divertido e despretensioso dos anos 90. Antes de o bairro ser arremessado a 200 milhões de anos no passado, a família tem um bom desenvolvimento, e seus dilemas e dramas funcionam para criarmos algum tipo de conexão emocional com eles quando o perigo toma conta.

É um roteiro amarradinho, simples e bem objetivo. Claro que isso exclui a possibilidade de fazer algo muito mais genial, mas essa naturalidade, somada à falta de uma explicação científica plausível, deixa tudo mais acessível e abre caminho para o que mais importa: ver os dinossauros em ação, vivendo normalmente naquele bairro cheio de alimento que acabou de cair no vasto mundo deles. A paisagem suburbana, as músicas e as roupas dos anos 80 deixam o clima ainda mais nostálgico, como se esse filme fosse uma boa lembrança de algo que vimos na Sessão da Tarde durante a infância. Há muito carinho em todos os detalhes, tudo isso graças ao olhar genuíno de J.J. Abrams para esse tipo de mistério inexplicável envolvente, assim como fez em obras excelentes como Cloverfield e Super 8.

Nada muito além disso: trata-se de uma aventura familiar com dinossauros. E, nesse ponto, o filme é realmente animado e divertido. Mas, quanto mais você questionar seus mistérios ou ansiar por explicações lógicas, menos vai se envolver e, portanto, mais “mentirosa” será a experiência para você. Os animais pré-históricos são, felizmente, diferentes do que já vimos em outros filmes. Aqui, eles ainda possuem penugem, e o roteiro escolhe outras criaturas menos utilizadas pelo cinema — não espere ver uma T-Rex por aqui! É outro fator que pesa a favor da originalidade do filme.
Ainda assim, o CGI não é dos melhores em muitos momentos, mas também não destoa tanto assim. O senso de humor é outro ponto positivo: os bichos são, apesar de tudo, animais. Ou seja, eles fazem sexo, defecam. E o filme se diverte em mostrar isso sem pudor. É uma comédia com monstros que nos envolve, mesmo quando perde um pouco de energia por precisar criar profundidade para os personagens, em especial na relação amorosa, já fria, entre Denise, vivida por Anne Hathaway, e Greg, interpretado por Ewan McGregor. Dois excelentes atores que vivem seus personagens com a intensidade necessária, em especial Hathaway (que ano para ela!), sempre imersiva em cena, o que nos faz pensar em como ela daria uma ótima final girl em um terror independente.

O que, de fato, faz tudo funcionar muito bem, e faz as engrenagens rodarem aqui, é colocar a dinâmica familiar à frente da ideia de fazer apenas um filme de dinossauros caçando humanos. E nada é mais Spielberg do que isso. As sequências selvagens de ação são ótimas, e os animais são apresentados aos poucos, criando um mistério em torno de cada um.
Um suspense eletrizante, bem hitchcockiano (a gente sabe o que vai acontecer, mas os personagens não!) que só poderia ter vindo da mente brilhante e estranha de um cineasta de filmes de terror. Mas, quando o filme foca na emoção e no drama, também ganha muito peso, mesmo com um texto que, em alguns momentos, pode soar brega ao público, interessado em ver o sangue jorrar.

Veredito
Por fim, O Fim da Rua é um filme original — não é sequência de nada, nem reboot — e só isso já merece ser celebrado em uma Hollywood cada vez mais acostumada a revisitar os mesmos terrenos. O longa aposta no mistério e no espírito de uma aventura familiar bem Sessão da Tarde, com dinossauros famintos, vizinhos desesperados e um bairro inteiro fora do seu tempo. É uma divertida homenagem ao cinema blockbuster de Steven Spielberg, sem a pretensão de reinventar a roda — ou, neste caso, o T-Rex. A ideia é simples e direta: transportar o público para dentro da história, assim como o bairro é transportado para milhões de anos no passado.
Há boas ideias espalhadas pelo caminho que impedem o filme de ser apenas mais uma cópia de outras histórias com dinossauros. Não é perfeito na execução, tropeça em alguns diálogos e explicações óbvias, mas funciona justamente porque entende o que precisa ser: divertido, acessível e cheio de criaturas pré-históricas pulando na tela. Não chega a ser um novo Jurassic Park, e nem precisa. É um filme que encontra seu próprio habitat e, para nossa alegria, sabe sobreviver nele. E que ano incrível para Anne Hathaway!