Crítica | Se eu Fosse Vivo… Vivia – Um romance terreno em uma viagem cósmica

Uma das coisas que a Filmes de Plástico faz muito bem é misturar o urbano com o fantástico, encontrando no cotidiano brasileiro uma porta de entrada para histórias que parecem pertencer a outro universo. É justamente essa coragem que aparece em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, novo filme de André Novais Oliveira, que integra a programação da 20ª CineBH.

Ao acompanhar cerca de 50 anos da vida compartilhada de um casal, o longa parte de uma relação aparentemente comum para, aos poucos, introduzir forças paranormais que transformam completamente essa trajetória. É uma mistura curiosa de romance, drama familiar e ficção científica que encontra sua maior força justamente quando consegue olhar para o extraordinário a partir do que há de mais banal.

Os acertos e erros do filme

No início, o filme pode parecer lento (até demais!). André Novais Oliveira aposta em uma direção contemplativa, dando aos personagens tempo para existir, conversar, brigar, se reconciliar e simplesmente compartilhar o espaço. É um ritmo que exige paciência do espectador, mas que funciona especialmente bem durante a primeira metade. Existe algo muito bonito na maneira como o filme constrói esse relacionamento através das pequenas picuinhas, dos silêncios, dos hábitos e dos afetos cotidianos.

Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira estão excelentes juntos, criando uma dupla que parece ter uma história muito maior do que aquela que o roteiro consegue nos contar. A química entre os dois é natural, e é justamente essa intimidade que faz com que a gente se envolva rapidamente com aquele casal.

O problema é que, conforme o filme avança, o realismo fantástico começa a ocupar um espaço cada vez maior e nem sempre com a mesma precisão. As metáforas sobre vida, luto, solidão, envelhecimento e a passagem do tempo são interessantes e carregam uma dimensão existencial bastante rica, mas o filme parece querer transformar cada uma delas em algo grandioso.

A temática alienígena, por exemplo, é uma escolha ousada e muito bem-vinda dentro do cinema brasileiro, principalmente porque o diretor consegue olhar para o desconhecido sem abandonar completamente o cotidiano. Há um quê de Jordan Peele nessa maneira de transformar espaços familiares em ambientes estranhos, mas, ao tentar expandir demais suas próprias ideias, Se Eu Fosse Vivo… Vivia acaba se afastando justamente da simplicidade que fazia sua história funcionar tão bem.

E há muito mérito nessa mistura. Oliveira constrói uma Belo Horizonte que não serve apenas como cenário, mas como parte fundamental da experiência do filme. A cidade é reconhecível, cotidiana e cheia de histórias, mas também ganha uma atmosfera quase sobrenatural conforme aquilo que está além da nossa compreensão começa a se manifestar.

O diretor sabe brincar com o tempo e com o humor das situações, encontrando momentos genuinamente curiosos e até engraçados em meio ao estranhamento. O problema é que existe uma diferença entre contemplação e repetição, e o filme eventualmente atravessa essa linha. É muita espera para uma entrega que, no fim das contas, não parece proporcional ao caminho percorrido. E quando o longa finalmente começa a revelar suas cartas, já existe uma sensação de que ele não sabe exatamente quando deveria terminar.

Um dos grandes destaques está no desenho de som, absolutamete fantástico. O trabalho sonoro ajuda a transformar situações aparentemente banais em momentos de tensão e estranhamento, utilizando sons metálicos, ruídos e frequências desconfortáveis para criar uma atmosfera que remete a clássicos da ficção científica e do terror, como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Não! Não Olhe!. Em alguns momentos, o som é responsável por criar uma sensação claustrofóbica que a própria imagem não conseguiria alcançar sozinha. É quando o filme assume de maneira mais clara esse lado de terror sci-fi que ele parece encontrar uma identidade especialmente interessante.

O que acaba sendo desperdiçado, porém, é justamente o romance íntimo e carinhoso que estava sendo construído. A segunda metade troca boa parte dessa delicadeza por uma espécie de loucura narrativa que nem sempre encontra o mesmo equilíbrio. E existe uma ideia muito potente por trás disso: olhar para o desconhecido, para aquilo que existe fora da nossa órbita, para a possibilidade de que não estejamos sozinhos no universo e, ao mesmo tempo, usar tudo isso como metáfora para questões extremamente humanas.

Afinal, talvez o desconhecido seja apenas outra maneira de falar sobre o medo de envelhecer, perder alguém, permanecer sozinho ou tentar compreender aquilo que não podemos controlar. É uma abordagem filosófica corajosa para uma história tão terrena, sobre uma vida comum e um amor construído ao longo de décadas. Talvez, se o filme tivesse confiado um pouco mais nessa intimidade e um pouco menos na necessidade de transformar suas ideias em algo grandioso, alcançasse uma força ainda maior, especialmente diante do grande público.

Veredito

Se Eu Fosse Vivo… Vivia é um filme de boas ideias, excelentes atuações e uma atmosfera muito particular. André Novais Oliveira demonstra coragem ao misturar romance, ficção científica, terror e realismo fantástico dentro de uma história profundamente brasileira, mas acaba deixando que sua ambição pese sobre uma narrativa que era mais interessante quando simplesmente observava seus personagens.

A segunda metade é excessivamente contemplativa, por vezes redundante e menos centrada do que poderia, mas ainda há muito a admirar aqui. É um filme imperfeito, mas carregado daquela mistura de estranheza, humanidade e nostalgia que a Filmes de Plástico sabe construir como poucas produtoras no cinema brasileiro.

NOTA: 7

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