Crítica | Pequenas Tragédias – Daniel Nolasco vai mais fundo do que nunca

Se tem uma coisa certa no cinema intenso de Daniel Nolasco é que vai existir sexo explícito, apelo estético e uma provocação calculada para despertar desejo masculino. Mas é surpreendentemente bom quando um filme de Nolasco consegue atravessar essa camada e mergulhar em um abismo de emoções sobre as vivências do mundo gay. Pequenas Tragédias faz exatamente isso. E é uma montanha-russa.

Mais do que em Vento Seco e Apenas Coisas Boas, o diretor encontra aqui uma dimensão muito mais profunda para falar sobre masculinidade, desejo, solidão, pertencimento e as marcas deixadas por uma cidade conservadora. É seu trabalho mais maduro e, talvez por isso mesmo, também o mais pessoal, afinal, é uma cinebiografia sobre suas próprias vivências em Catalão, no interior de Goiás, que transforma memória individual em uma história capaz de conversar com uma experiência LGBT muito mais ampla.

Acertos e erros do filme

Dividido em cinco capítulos e alguns interlúdios hilários, o filme abraça o humor e conversa de maneira sincera com esse pequeno enorme universo gay do interior, mas rapidamente revela que existe algo muito mais denso por trás das situações aparentemente carnais. Nolasco brinca com a metalinguagem, fala diretamente com o público, quebra a quarta parede e demonstra uma autoconsciência deliciosa sobre o próprio cinema.

Tudo isso sem transformar a obra em uma egotrip. Pelo contrário, ele fala de si para falar de um lugar, de uma geração e de pessoas que atravessaram sua vida. Sua experiência serve como ponto de partida para histórias que também pertencem a travesti Monalisa (vivida pela incível Aivan), a Samuel, seu melhor amigo, e a tantos outros personagens que encontram naquele ambiente diferentes formas de sobreviver, esconder-se ou simplesmente tentar existir.

O elenco é fundamental para que essa mistura de comédia, memória e melancolia funcione. O ótimo e belo Guilherme Théo interpreta Nolasco com um viés cômico que impede que o filme mergulhe completamente na tristeza, enquanto Lucas Drummond, parceiro recorrente do diretor, encontra em Samuel uma espécie de coração emocional da história.

Existe uma naturalidade nas relações que torna os personagens muito mais próximos, e isso é importante porque Pequenas Tragédias não parece interessado em criar grandes heróis ou vilões. A cidade é a verdadeira protagonista, e também o grande antagonista. É um lugar que acolhe através da memória afetiva, mas sufoca através de suas regras, preconceitos e expectativas. O filme entende muito bem essa contradição: amar profundamente o lugar de onde você veio e, ao mesmo tempo, saber que não cabe mais ali.

E, claro, estamos falando do cinema queer de Daniel Nolasco. Mesmo com menos sexo do que o habitual, o diretor não abandona por um segundo sua capacidade de transformar desejo em linguagem cinematográfica. Corpos, suor, óleo, enquadramentos provocativos, pênis eretos e cores intensas continuam presentes, mas agora existe algo ainda mais interessante por trás dessas imagens: o desejo não está separado da tristeza.

Nolasco consegue fazer com que tesão e melancolia coexistam no mesmo plano, transformando o corpo em território de prazer, memória e também solidão. É uma sensualidade visceral, mas nunca gratuita dentro da proposta do filme, porque faz parte da maneira como o diretor enxerga e constrói suas personagens. Seu cinema continua vulgar, sexy e transgressor, só que aqui existe uma camada emocional que torna tudo isso ainda mais potente.

O que torna Pequenas Tragédias tão dolorosamente reconhecível é justamente a consciência de que, para muitos homens gays, a liberdade precisa começar pela fuga. O protagonista decide deixar Catalão e partir para o Rio de Janeiro para estudar cinema antes que seja tarde demais. E, por experiência própria, esse “tarde demais” chega muito cedo.

A cidade que inspira Nolasco também é aquela da qual ele precisa escapar para conseguir se tornar quem deseja sere. Existe uma relação quase contraditória de amor e ódio nesse retorno às próprias raízes: ele reconhece a beleza, as pessoas, as histórias e a memória afetiva daquele lugar, mas também expõe as estruturas que o tornaram sufocante. É essa contradição que parece alimentar seu cinema um olhar profundamente afetivo para um espaço que também produziu dor.

Veredito

Pequenas Tragédias funciona como um conto de terror sobre a solidão gay, mas feito com muito amor. É um filme triste, cômico, bucólico e sufocante, daqueles que parecem nos abraçar enquanto também apertam alguma coisa dentro do peito. Não é uma jornada fácil, porque fala sobre entender suas raízes sem necessariamente querer continuar preso a elas; sobre descobrir quem você é em um lugar que insiste em dizer quem você deveria ser. E Nolasco transforma essa experiência em uma obra visualmente exuberante, sexualmente provocativa, engraçada e profundamente melancólica. É cinema pessoal que consegue escapar do particular e encontrar algo universal. Foi, para mim, a experiência mais marcante da 20ª CineBH.

NOTA: 10

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