Está cada vez mais difícil convencer o público a sair de casa para assistir a um filme no cinema, e isso não é exatamente uma novidade. Entre ingressos cada vez mais caros e a ascensão do streaming, as produções deixaram de ser apenas um programa despretensioso de sexta-feira para se transformarem em grandes eventos, que precisam justificar a experiência da tela grande. E, se existe um cineasta que segue travando essa batalha para manter o cinema vivo, relevante e irresistível, esse nome é Christopher Nolan, sempre disposto a elevar a ambição de cada novo projeto.
Com A Odisseia, essa ambição alcança um novo e chocante patamar. Filmado inteiramente com câmeras IMAX 70 mm e concebido para ser uma experiência imersiva em sua máxima potência, o longa sensibiliza sim pelo rigor técnico e pela grandiosidade de sua execução. Ainda assim, nem mesmo a epopeia de Homero escapa da principal fragilidade da filmografia de Nolan: a dificuldade de dar aos seus personagens a mesma força emocional que dedica às imagens. É mais um filme seu que fascina pelo espetáculo colossal, mas que não encontra o coração necessário para sustentar essa grandiosidade toda.
Os acertos e erros do filme
Como muita coisa nesse filme abala e mascara os problemas, vamos começar então pelas falhas. E talvez a mais curiosa esteja no que o filme tem de sobra: tempo. Com quase 3 horas de duração, a narrativa parece constantemente apressada, saltando de uma cena para outra sem permitir que muitos momentos respirem. Sequências de diálogo, que poderiam aprofundar relações e ampliar o peso dramático da jornada, acabam resolvidas de maneira rápida demais.
O roteiro, embora adapte um dos poemas mais influentes da história, permanece surpreendentemente superficial, se apoiando em frases de efeito e poucas reflexões realmente marcantes, ainda que traga leituras interessantes para o público atual, como o transtorno pós-traumático de Odisseu (vivido por Matt Damon) e uma visão mais humana, menos mítica, dos Deuses.

Nem mesmo o elenco tão épico quanto o próprio filme consegue escapar dessa limitação. Muitos atores aparecem menos do que deveriam, enquanto a narrativa concentra quase toda a atenção em apenas dois ou três personagens. Esse problema também reforça uma característica recorrente da filmografia de Nolan: a dificuldade em construir personagens memoráveis. Ok, é verdade que A Odisseia demonstra mais sensibilidade emocional do que alguns de seus frios trabalhos mais recentes, como Dunkirk e Tenet, mas ainda não o suficiente para criar uma conexão mais profunda com o público. Alí, naquela aventura magnética, nada me pegou além do choque pela amplitude técnica óbvia.

Superada essa dificuldade de nos envolver, que Nolan não é capaz de contornar mais uma vez, A Odisseia é realmente um evento cinematográfico que aponta para o futuro do que o cinema pode e deve se tornar. Nolan transforma uma das histórias mais influentes da humanidade em um espetáculo estonteante, brincando com uma narrativa que há séculos inspira a arte e a clássica “jornada do herói”. É curioso ver ele embarcando nessa aventura pop de fantasia como quem realiza sua própria versão de O Senhor dos Anéis, sem abrir mão das marcas que definem sua estética: a estrutura não-linear, o jogo com o tempo e uma direção que transita por diferentes gêneros.

Há momentos de puro terror genuíno, impulsionados por uma trilha sonora pulsante que parece acompanhar os nossos batimentos cardíacos. Nolan reafirma, mais uma vez, seu talento singular para usar imagem e som na construção de tensão, suspense e ação, e a sequência na caverna, com o grotesco Ciclope Polifemo, é a prova disso: uma cena sufocante, assustadora, com design de som sobrenatural e dirigida com precisão ímpar de alguém que sabe muito bem o que faz. É até meio reduntante dizer isso vindo de Nolan, mas tudo é muito “cinema”, desde a fotografia marcante e fria até os figurinos de época, um deleite aos olhos.
No centro dessa jornada estão Matt Damon e Anne Hathaway, que entregam as performances mais marcantes do filme. Damon encontra em Odisseu um dos personagens mais complexos de sua carreira, enquanto Hathaway faz de Penélope o grande contraponto emocional da narrativa, com uma interpretação delicada e poderosa. Tom Holland e Robert Pattinson também cumprem muito bem seus papéis, mas é a dupla protagonista que sustenta o peso da história. Vale destacar ainda Lupita Nyong’o que, mesmo com pouco tempo em cena, deixa uma impressão forte como Helena de Troia, em uma atuação que faz lamentar que sua personagem não tenha recebido mais espaço.

Claro, ainda que tome algumas liberdades em relação ao poema de Homero (algo inevitável em uma adaptação dessa dimensão, não é mesmo?), Nolan preserva a essência da obra e da própria mitologia grega. O diretor mantém o contraste entre o belo e o brutal, transformando deuses e heróis em figuras mais próximas da realidade, guiadas por vaidade, vingança e muita crueldade. Ao mesmo tempo, a jornada de Odisseu também ganha uma leitura mais humana, mostrando que as maiores batalhas nem sempre são travadas contra monstros, mas contra as marcas que a guerra deixa em quem sobrevive.
Essa visão torna A Odisseia um filme que não romantiza seus conflitos e isso é engenhoso. A violência está presente, mas é acompanhada pelo medo constante da morte e pelo peso psicológico que cada combate carrega, seja diante de criaturas mitológicas ou da crueldade dos próprios homens. É justamente nesse terreno que Nolan demonstra mais uma vez seu domínio como diretor. As cenas de batalha impressionam pela intensidade, enquanto a tensão é construída com tanta precisão que cada duelo de espadas parece carregar consequências reais, fazendo da guerra algo tão fascinante quanto aterrorizante de ser assistido.

Veredito
Mesmo sem alcançar a força emocional que sua história merecia, A Odisseia é um daqueles filmes que justificam a existência da sala de cinema. Christopher Nolan volta a provar que poucos cineastas vivos pensam a experiência cinematográfica com tamanha ambição, entregando uma obra que choca pela escala IMAX, pela linguagem visual e pela capacidade de expandir os limites do que a tecnologia pode oferecer à narrativa. Apesar de suas fragilidades de roteiro, reafirma o cinema como algo que vai muito além de apenas entreter.
Assim como Ben-Hur marcou uma geração ao redefinir o épico hollywoodiano e Metrópolis ajudou a reinventar as possibilidades visuais do cinema, A Odisseia se firma como um novo marco técnico de seu tempo. Mais do que celebrar os mais de 130 anos dessa arte, esse filme aponta para o futuro da experiência cinematográfica, mostrando que ainda há muito espaço para inovar na forma como histórias são contadas. Talvez não seja a obra mais emocionante de Nolan, mas certamente é uma das mais importantes de sua carreira. É uma experiência que merece ser vivida por toda a humanidade.