O documentário “Anistia 79”, dirigido por Anita Leandro (RJ), foi o grande destaque da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, ao conquistar o Prêmio Carlos Reichenbach, principal reconhecimento da Mostra Olhos Livres, concedido pelo júri oficial. O filme também venceu o Prêmio de Melhor Longa-Metragem do Júri Popular, consolidando sua forte recepção junto ao público e à crítica.
Na justificativa, o júri ressaltou a apropriação criativa de um registro amador que, segundo os jurados, “multiplica no filme as possibilidades de cada fotograma”. A comissão destacou ainda a potência política da obra ao revelar imagens de “dois homens negros — um líder camponês e o cinegrafista — pouco acessadas pelo imaginário coletivo sobre aqueles que lutaram pelo fim da ditadura civil-militar”, afirmando o cinema como um instrumento fundamental de construção da memória.
No palco, Anita Leandro descreveu a exibição como a experiência de recepção mais intensa de sua carreira. “As pessoas em silêncio assistindo a esse filme, um filme difícil, sobre um assunto difícil. Parecia uma liturgia”, afirmou a diretora, que celebrou o reconhecimento e manifestou a expectativa de que a premiação contribua para a circulação do documentário em salas comerciais.
Curtas e novas vozes em destaque
Na Mostra Foco, dedicada aos curtas-metragens, o Prêmio de Melhor Curta pelo Júri Oficial foi concedido a “Entrevista com Fantasmas” (RS/SP), de LK. O júri destacou a capacidade do filme de articular cinema, memória e cidade, ressaltando que a obra aborda temas como preservação, gentrificação e precarização do trabalho “com pitadas de absurdo e uma poética gigante”, a partir de recursos simples e do “desejo de cinema”.
Já o Prêmio Canal Brasil de Curtas ficou com “Grão” (RS), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, reconhecido por desconstruir estereótipos e retratar “uma juventude emparedada numa melancolia invisível, atolada num deserto de oportunidades”, abrindo espaço para que “uma juventude made in favela possa ousar sentir”.
O Prêmio de Melhor Curta pelo Júri Popular foi para “Recife Tem um Coração” (RN), de Rodrigo Sena, reforçando a diversidade de olhares e territórios presentes na edição.
Formação, autorias e experimentação
Na Mostra Formação, o júri concedeu Menção Honrosa a “Diálogo Bulbul”, dirigido por Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos, por “abrir caminhos na história do cinema brasileiro” ao deslocar o arquivo para uma dimensão crítica e experimental. O Prêmio de Melhor Filme da Mostra Formação foi para “De Barriga para Cima” (ES), realizado pelo Instituto Marlin Azul em parceria com moradores da Comunidade Quilombola de Monte Alegre, reconhecido por “costurar relações e sonhos no ato fílmico” e abrir “espaços de invenção e fabulação impulsionados pelos afetos”.
O Prêmio Helena Ignez – Destaque Feminino, concedido pelo júri oficial, foi para Gabriela Mureb, pela direção do curta “Crash” (RJ). Segundo a justificativa, o filme propõe uma experiência estética e política que “nos faz repensar o uso do som e o modo de ver uma imagem”, operando uma síntese entre o estético e o político.
Na Mostra Aurora, o Prêmio do Júri Jovem, formado por estudantes, foi atribuído a “Para os Guardados” (MG), de Desali e Rafael Rocha, definido como um filme que imagina outros caminhos para a realidade e aposta no experimental como desvio frente à literalidade dominante das imagens.
Já o Prêmio Abraccine de Melhor Longa da Mostra Autorias foi concedido a “Atravessa Minha Carne” (GO/DF), de Marcela Borela, elogiado pelo rigor formal da montagem e do desenho sonoro, em diálogo com uma escrita fotográfica livre e sensorial.
Conexão Brasil CineMundi premia projetos em desenvolvimento
No Conexão Brasil CineMundi, segmento dedicado ao mercado e aos futuros do cinema brasileiro, foram premiados projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, incluindo trabalhos em Work in Progress (WIP).
Os Prêmios Cinecolor e O2 Pós foram concedidos a “Pedra de Raio” (RJ/CE), de Lucas Parente e Pedro Lessa, descrito como um filme que recusa se fixar em gêneros e códigos exteriores, inventando um universo de grande fôlego estético e poético. Já os Prêmios CTAV e The End foram para “Bate e Volta Copacabana” (MG), de Juliana Antunes e Camila Matos, cuja narrativa é atravessada por uma força vital organizada a partir do desejo das protagonistas.
O Prêmio Málaga WIP foi para “Pequenas Tragédias” (GO), de Daniel Nolasco, reconhecido por transformar o humor queer em ato de resistência ao abordar o exílio forçado das dissidências. Por fim, o Prêmio Sesc em Minas – Work in Progress foi atribuído a “Paisagem de Inverno” (MG), de Marco Antonio Pereira, por apresentar um olhar atento e deslocado sobre Minas Gerais e afirmar a imaginação e a esperança como forças vivas do cotidiano.