Crítica | Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes é como mergulhar em um caldeirão de nostalgia geek

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Para surpresa de todos, a magia e excelência de Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes (Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves) está em como o filme da Paramount Pictures consegue ser cativante até mesmo para quem não sabe nem o que significa jogar RPG. Essa aventura de fantasia, repleta de diversão e totalmente acessível ao público leigo, se inclina para replicar a sensação de espetáculo e tolice das campanhas do jogo de tabuleiro mais famoso do mundo e funciona por conta de sua honestidade em ser exatamente o que promete.

Ao assumir corajosamente o humor ácido e abraçar seu viés cômico, o filme se sustenta pela inventividade do enredo e do universo mágico que nos faz mergulhar, mas é claro que há boas piadas internas e easter eggs para os fãs mais hardcore. A capacidade de agradar a todos é uma dádiva rara, mas há um ótimo trabalho de roteiro para não correr o risco de perder o público novo, já que o filme não gasta tanto tempo assim apresentando seu mundo imaginativo. Com isso, sobra espaço para conhecermos melhor os espirituosos personagens e suas missões peculiares. Um deleite para quem ama o cinema de fantasia em sua essência mais pura.

A trama e o elenco

Os jogadores de D&D criam personagens que embarcam em aventuras imaginárias em que eles enfrentam monstros, reúnem tesouros, interagem entre si e ganham pontos de experiência para se tornarem incrivelmente poderosos à medida que o jogo avança. E no cinema isso não é diferente. O elenco está claramente se divertindo interpretando tipos de personagens familiares que você selecionaria no início de qualquer campanha do game, neste caso, uma missão semelhante a um assalto para resgatar uma filha sequestrada das garras de um ditador desleal.

Para tal, Chris Pine (Mulher-Maravilha) lidera o time e brilha como o piadista Edgen, um homem cujo talento está na capacidade de criar planos mirabolantes que precisam de bastante improviso para funcionar. Michelle Rodriguez (Lost) dá vida à mais uma durona convencional que faz tão bem e Regé-Jean Page (Bridgerton) rouba cenas como o virtuoso paladino que conquista pelo seu charme sem igual. Todos – incluindo Justice Smith (Por Lugares Incríveis) e Sophia Lillis (It – A Coisa), respectivamente, interpretando um feiticeiro atrapalhado e uma druida habilidosa de cara fechada – estão perfeitamente bem encaixados em seus estereótipos.

Para tamanha presepada ter êxito, os roteiristas deixam de lado qualquer seriedade mais profunda e enfatizam o entretenimento alegre, que eleva o nível de imersão do público, diferente da cafonice datada de outras produções de fantasia que encontram dificuldade em criar conexão com o cinema contemporâneo.

Ainda que tenha um universo claramente extenso, o enredo central é simples e fácil de absorver: os anti-heróis comuns devem formar um time para derrotar os Magos Vermelhos e seus planos tradicionais de dominação global, utilizando, para isso, artefatos mágicos e a confiança entre si para fortalecer amizades e relações pessoais. Pode não ser o foco, mas há bastante coração na história.

Honra Entre Rebeldes é também um banquete visual de paisagens de fantasia, desde exuberantes vilas nas copas das árvores – onde residem os habitantes da floresta – até pitorescas cidades que se assemelham à arquitetura do Condado em O Senhor dos Anéis. Há um fantástico trabalho prático de figurino que valoriza as criaturas mais estranhas desse mundo, como por exemplo em uma sequência num cemitério a lá humor ácido de Sam Raimi. As maquiagens são absolutamente espetaculares.

Também há efeitos digitais aceitáveis, que produzem dragões adoravelmente gordinhos e todos os tipos de raças de criaturas formadas a partir da fusão de um animal com outro. Porém, de fato, apesar do título, faltam dragões na história, que pode ser justificado por ser “apenas o começo” de algo maior que deve vir pela frente caso se torne uma franquia. Ainda assim, a ausência desses elementos deixa um vão na trama e deve decepcionar quem espera ver um House of the Dragon nas telas.

No entanto, os dois maiores problemas do longa são sua duração extensa (um problema recorrente no cinema atual) e como todos os melhores momentos são sustentados por apenas dois dos personagens principais. A comédia pastelão é boa (Marvel Studios fazendo escola!) e se mantém no topo grande parte do tempo, mas, por mais de 2 horas de projeção, é difícil manter o ritmo equilibrado.

Por sorte, a direção engenhosa da dupla Jonathan M. Goldstein e John Francis Daley (de A Noite do Jogo) percorre caminhos inesperados e preenche as lacunas deixadas pela abundância do humor. Os exageros continuam aqui e ali, mas são ofuscados pela química genuína do elenco. Fora isso, Hugh Grant (Um Lugar Chamado Notting Hill) faz um vilão hiperbólico com diálogos rasos que não sustenta a energia para tal maleficência.

Veredito

Longe de desejar ser sublime como outras produções recentes do gênero, Dungeons & Dragons: Honra entre os Rebeldes funciona exatamente por abraçar o humor e a aventura sem deixar a arrogância subir a cabeça. Uma ode ao interior de RPGista de todo fã raiz do jogo, mas que também enfeitiça o novo público sedento por um épico de inventividade que o faça esquecer de todas as obrigações mundanas. Sequências de ação ininterruptas, piadas hilárias e surpreendentemente muito coração para preencher a vaga de melhor blockbuster do ano até o momento.

Mesmo com alguns problemas de ritmo e desenvolvimento de personagens, o filme consegue capturar a essência da jornada e do trabalho em equipe tão presentes nos jogos de RPG. Além disso, a produção conta com uma excelente ambientação, cenários elaborados e efeitos práticos impressionantes, que conseguem transportar o espectador para esse rico universo mágico que tanto fazia falta nas telas. Ora, ora, aparentemente Hollywood ainda sabe fazer um bom filme de fantasia.

NOTA: 9/10

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