Crítica | Pluft – O Fantasminha dá um susto de qualidade técnica, mas falha em sair da casinha

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Eventualmente, o cinema, o teatro e a literatura convivem em perfeita harmonia. Porém, cada mídia e plataforma possui suas próprias demandas essenciais e por conta disso que nem sempre um livro fantástico funciona na telas ou que um filme fica desconjuntado nos palcos. Como bom exemplo dessa falta de equilíbrio (e exigência de transformar tudo que existe em filme) temos Pluft: O Fantasminha, comédia infantil nacional que está chegando aos cinemas e que, como um longa-metragem, segue sendo um livro bacana, mesmo com o visível investimento da produção em tornar a sua estrutura simples, digamos, em algo mais cinematográfico.

Obviamente Pluft é uma história infantil e, como tal, não se esforça para ser mais do que isso. O senso de humor imaturo e a narrativa óbvia do roteiro não gastam suas poucas energias na tentativa de reinventar a roda, o que sobra mais tempo para pegar o bonde do entretenimento ingênuo de obras como Detetives do Prédio Azul. Nesse quesito, entrega uma qualidade técnica até superior ao que se prometia, mas preenche sua história vazia com clichês tradicionais, estereótipos superficiais (como o do pirata vilanesco) e muita comédia irrelevante, daquelas para deixar a TV ligada enquanto a criançada brinca sem prestar atenção.

A trama e o elenco

De fato, o brilho de Pluft está no seu trabalho de pós-produção, afinal, trata-se de um conto sobre fantasminhas camaradas e como trazer isso de forma visual para as telas sem ser piegas? Simples, gravar os atores debaixo d’água para dar o efeito de estarem flutuando no limbo. E funciona. Mais que isso, fica esteticamente bonito. Os efeitos especiais são surpreendentemente impecáveis do começo ao fim. Melhores até que muita produção recente da Marvel Studios, por exemplo. E essa áurea soturna combina com a premissa “terror para crianças”, no melhor estilo Tim Burton (inclusive, a trilha sonora ópera lembra bastante as primeiras obras do cineasta) e com óbvias inspirações de A Família Addams e Gasparzinho.

Se a estética visual total funciona e agrega uma qualidade especial ao mundo “sombrio” explorado, o mesmo já não podemos dizer de seu roteiro raso, que mais cansa por tentar fazer humor sem graça do que foca em aprofundar a relação dos personagens. Na trama – baseada na obra de Maria Clara Machado -, a menina Maribel (Lolla Belli se esforça e dá seu melhor) é sequestrada pelo pirata Perna-de-Pau, vivido pelo Juliano Cazarré (apesar do exagero em cada sílaba, um ótimo ator e um vilão igualmente satisfatório), que quer usá-la para achar o tesouro deixado pelo seu avô, o falecido Capitão Bonança Arco-íris.

Na casa abandonada onde o Bonança morou – que aliás dá uma atmosfera fria e isolada super bem-vinda – a menina espera pela ajuda dos marinheiros Sebastião (o ex-BBB Arthur Aguiar), João (Lucas Salles) e Juliano (Hugo Germano), que saem em uma atrapalhada busca pela garota. Enquanto enfrenta uma longa espera para a chegada dos marinheiros, Maribel acaba conhecendo o medroso fantasminha Pluft, interpretado pelo ator mirim Nicolas Cruz, além da Mãe Fantasma (Fabíula Nascimento) e sua família excêntrica. Lola e Cruz possuem uma química divertida em cena e sua relação traz à tona as mensagens centrais da obra, como respeitar as diferenças e a capacidade de encontrar amor e amizade mesmo onde menos se procura.

Porém, a vontade de morrer vem quando o núcleo de humor pastelão liderado por Arthur Aguiar entra em cena e testa a nossa paciência. É uma completa bagunça caótica que destoa todo o carisma singelo da história de amizade e nos faz querer sair da sala de tão exageradamente desconcertante que é ver adultos se comportarem como crianças em um filme infantil. O campeão do BBB 22, por sua vez, além de viver um personagem infantilizado ao quadrado (que paga de sabichão ao achar que está fazendo algo esperto), ainda entrega uma atuação insossa e superficial, o mais puro tédio. Lucas Salles (Missão Cupido) talvez seja o único que realmente tenha o carisma para o papel, já que não tenta ser nada além de um simples atrapalhado. Ao mirar nos Trapalhões, a produção acerta mesmo é na agonia.

A direção

Do males, a condução de Rosane Svartman (Tainá – A Origem) é o menor. A diretora, na realidade, se esforça para contornar as limitações do roteiro e do elenco e, com a ajuda da fotografia, até entrega alguns planos belíssimos e sequências musicais bem realizadas, que fazem a conversão em 3D valer o ingresso mais caro. Além de dar profundidade aos cenários, especialmente na casa assombrada, a tecnologia se abstrai de jogar coisas na cara do espectador e acaba sendo bem aproveitada pela cineasta para navegar por entre os cômodos vazios como um verdadeiro fantasma. Essa dinâmica – mais do que qualquer piada fora de sintonia e história repetitiva – é divertida, animada e envolvente. É quando o filme cresce dentro de si e é pelo qual ele será lembrado pelas crianças após a sessão.

Conclusão

Longe de ser qualquer outra coisa senão um filme infantil passa-tempo, Pluft: O Fantasminha entrega exatamente a falta de profundidade que promete, mas surpreende na qualidade técnica e diverte com uma direção inspirada e uma produção criativa empenhada em competir com filmes estrangeiros maiores.

Apesar da estrutura simples de roteiro, o 3D funciona (melhor que muito filme blockbuster) e as boas mensagens sobre o significado da amizade e empatia criam raízes sólidas. Com exceção do humor exagerado e de alguns atores desconexos – que mais atrapalha do que ajuda – o filme se esforça para encontrar seu tom entre literatura e teatro e acerta exatamente quando se afasta deles para fazer um passeio acriançado pela técnica cinematográfica. Talvez, o maior susto de Pluft, para alguns públicos, será perceber que o cinema brasileiro é plenamente capaz de fazer algo “fora da casinha”.

NOTA: 5/10


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