Crítica | Veja Por Mim – Uma nova visão aos filmes de invasão domiciliar

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O cinema se mantém vivo através da arte de se reinventar. E às vezes nem é preciso muito para sair do óbvio. Um roteiro instigante e uma pitada de sabedoria da direção já fazem grandes milagres em obras minúsculas, como é o caso de Veja Por Mim (See For Me) – que chega ao Brasil através da Paris Filmes – um convencional thriller sobre invasão domiciliar mas com um sabor a mais, ou neste caso, uma visão inteligente.

Essa adição crescente (e extremamente bem-vinda) de filmes de terror com protagonistas com algum tipo de deficiência – como Hush, Um Lugar Silencioso, Fuja etc – dá uma sobrevida especial ao subgênero, ao mesmo tempo que mostra que essas “dificuldades” não os limita. E o roteiro afiado de Veja Por Mim navega nessa maré para criar um filme simples, direto, mas que se atreve a desafiar os espectadores. Isso, por si só, já é louvável.

A trama e o elenco

A premissa de Veja Por Mim é bastante descomplicada e o thriller de sobrevivência atinge pontos onde nenhum outro foi até então. De fato, um marco para o gênero, uma vez que possui dois aspectos centrais que o mantém inovador: uma protagonista cega e o uso da tecnologia de forma benéfica – diferente da pessimista onda Black Mirror atual. A trama imagina a existência de um aplicativo para celular que terceiriza um elemento básico do ser humano: a visão.

Nesse mundo, Sophie (Skyler Davenport rouba nossa respiração) é um pouco antipática com todos e não gosta de ser ajudada ou mesmo depender de alguém (isso pode e deve ser uma barreira para o público criar empatia). Sua atitude desnecessariamente dura com pessoas bem-intencionadas cria um contraponto quando ela se vê em uma casa isolada – que está sendo invadida por bandidos – e ela precisa recorrer ao aplicativo para que alguém possa ser seus olhos nesse cenário perigoso. Uma dinâmica mais ousada do que apenas colocar doçura na protagonista “indefesa”.

Quando a atendente Kelly (Jessica Parker Kennedy) começa a auxiliar Sophie pelos corredores intermináveis da casa, visando sua sobrevivência, é quando a jovem entende que ser ajudada não é algo negativo ou capacitista. A química entre as duas atrizes é boa e transborda, mesmo que seja uma relação via telefone. O desenvolvimento da conexão e a urgência do crime em andamento, somado a atmosfera fria e solitária do local, acaba por adicionar bastante suspense ao filme. Enquanto Kelly guia Sophie em sua situação de perigo, o longa também acaba por ser um anúncio brilhante para ferramentas como o aplicativo que auxilia deficientes visuais.

A direção

Porém, tudo é muito escuro e algumas escolhas visuais definitivamente não funcionam, ainda que servem, claro, para criar o ambiente claustrofóbico e limitado de não se enxergar, parecido com o que O Homem nas Trevas e o espanhol Os Olhos de Júlia fazem. O diretor Randall Okita (The Lockpicker) e os diretores de fotografia Jordan Oram e Jackson Parrell se saem bem no primeiro ato, estabelecendo a tensão por meio de sua paleta visual azulada e fria (que evocam solidão, angústia e isolamento). Mas quando o sol se põe, eles deixam a bola cair. 

A direção de Okita é instigante e engenhosa, pois ele consegue capturar muito do drama, da ação do gênero e da situação intensa. No entanto, com o filme tão mal iluminado, é necessária muita energia para tentar entender o que está acontecendo nas cenas mais caóticas.

Enquanto Veja Por Mim deixa a desejar no visual, a história é convincente, mesmo que a protagonista não seja totalmente agradável. Ela é, em muitos aspectos, uma vítima inocente de um crime e está justificadamente assustada. Sem entrar em spoilers, as intenções de Sophie nem sempre são puras. Aí está a arma secreta do filme, uma protagonista capaz de ser pior que os vilões se ela quiser ser, ou seja, a personificação implacável da final girl clássica.

Conclusão

Um suspense rápido, nervoso e à moda antiga. Veja Por Mim surpreende pela engenhosidade do roteiro – que subverte a expectativa do público – ainda que deixa a desejar por questões técnicas. Definitivamente, sua protagonista PcD agrega a inovação e a representatividade que o gênero precisa para se reinventar.

Mesmo com falhas na execução e exageros, é uma surpresa boa, divertida e bem intencionada, que – ironicamente – joga um novo olhar aos filmes de invasão domiciliar. Enxergar nunca pareceu tão urgente.

NOTA: 8/10

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