Crítica | A Médium prova que terror asiático é o mais traumático

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Qualquer filme de terror funciona melhor quando é deixado para a imaginação. A obra que mostra demais – que joga demais na cara do espectador – peca exatamente no ponto mais importante para que algo fique grudado em nossa memória: a subjetividade. Quanto mais o público tem espaço para interagir por si só, melhor é o resultado e mais assustador a trama se torna. E essa é a receita de sucesso do longa tailandês-coreano A Médium (The Medium), dirigido por Banjong Pisanthanakun (Espíritos – A Morte está ao Seu Lado) e que chega aos cinemas brasileiros pela Paris Filmes.

Não que o filme seja totalmente sutil – afinal, há todos os elementos clássicos de um filme de possessão -, mas a direção entusiasmada e o roteiro extenso gastam energia na construção de uma atmosfera de medo poderosa, que queima lentamente enquanto o público começa a montar as peças do enigma e imaginar como toda aquela história vai se desdobrar. Nesse contexto estranho e perturbador, a realidade se mistura com a ficção e, mesmo que essa seja a proposta (no melhor estilo A Bruxa de Blair e tantos outros), fica difícil distinguir uma da outra em alguns momentos. E nada é mais tenso do que isso.

A trama e o elenco

Realizado para ser um pseudodocumentário (mockumentary) sobre práticas xamânicas na área de Isan, no norte da Tailândia, A Médium emprega um estilo de filmagem convencional para o subgênero, com o uso de câmera tremida na mão, luz natural e entrevistas que soam essencialmente verídicas. A direção vertiginosa – típica do estilo – pode provocar tonteira em alguns públicos, mas extrai um realismo fundamental para que toda a premissa seja bem sucedida em assustar, especialmente por lidar com rituais, santos e elementos pouco conhecidos pelo mundo ocidental, ou seja, o roteiro gera um misto de cautela e curiosidade através do desconhecido.

Tudo é estranho, creepy e a narrativa lenta – cansativa em alguns pontos e arrastada no começo – não poupa esforços para evidenciar que algo bizarro está rondando o local. O filme até começa de forma brochantemente inofensiva, seja para um filme de terror convencional ou mesmo para a própria equipe de filmagens que está no lugar gravando o tal documentário.

Mas é aí que o roteiro cresce e mostra sabedoria no que faz. Essa falsa sensação de segurança guarda momentos assustadores e inesperados quando a trama avança para além da vida cotidiana de Nim (Sawanee Utoomma é boa), uma xamã da deusa Ba Yan, e o drama familiar que a cerca. As demais personagens, a ambientação rural e isolada, o misticismo cego do lugar, cada detalhe nos envolve numa teia de horror e nos deixa na ponta da cadeira para entender o mistério.

Mas o horror de qualidade de A Médium existe mesmo é nas pequenas coisas, seja num ritual simples, numa oração comum ou mesmo nos cantos escuros. O fato de ser um filme sobrenatural sobre espíritos invisíveis, que são tratados como deuses e santidades, torna tudo palpável e, por consequência, muito mais sinistro e real do que outras obras ocidentais com criaturas evidentes. Os sustos, por sua vez, são bons, ainda que a direção seja viciada em jump scare pra fazê-los funcionar. Uma dose de clichê em algo que poderia se sustentar muito bem sem essa técnica.

A direção

Mesmo com sua premissa acima da média, infelizmente há problemas irreparáveis na produção de A Médium, sendo o maior deles a longuíssima duração (são mais de duas horas de filme), algo que torna a trajetória imersiva, sim, porém exaustiva na mesma proporção. Além disso, por vezes se afasta do horror subjetivo e mostra além do necessário, exagera na violência gráfica, mesmo quando a câmera trêmula nas costas dos personagens é infinitamente mais aterrorizante. O desfecho, em especial, peca pelo excesso.

Fora isso, como habitual nesse gênero, o modo de visão noturna da câmera (para cenas mais, digamos, eletrizantes) e a captura da perspectiva de câmeras de segurança são utilizados como alternativas válidas para não enjoar a técnica, nada de novo, mesmo sendo óbvio o uso. A condução de Banjong Pisanthanakun torna-se um belo exercício de terror à medida que a história vai perdendo seu fator mundano e se tornando algo aterrador. O diretor mostra habilidade em gerar sustos, mas seu mérito está mesmo é na forma como desequilibra as emoções do público e brinca com a fé dos envolvidos.

Conclusão

Dessa forma, A Médium se prova uma grata surpresa para o gênero já tão desgastado. O falso documentário de terror, ainda que extremamente longo, possui todos os ingredientes aterradores para fazer o público dormir de luz acesa por um bom tempo. Há sangue, violência, sustos, práticas ritualísticas, câmeras de visão noturna, ou seja, o melhor que se pode extrair do bizarro – para não dizer traumatizante – cinema de horror asiático. Felizmente, A Médium impressiona e consegue ser melhor que um terror médio.

NOTA: 8/10

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