Crítica | Ataque dos Cães – Retrato da toxicidade masculina em faroeste sensível

Publicidade

Não é para menos que a cineasta Jane Campion se tornou a primeira mulher a ganhar a Palma de Ouro no competitivo Festival de Cannes pelo drama O Piano (1993). Seu olhar aguçado penetra no íntimo das personagens e constrói uma sensibilidade arrebatadora, raríssima de se ver no cinema dos nossos tempos. Agora, sua obra mais recente é igualmente espetacular e marcante. Ataque dos Cães (The Power of the Dog) – drama Original da Netflix – segue na frente como um dos favoritos a marcar presença significativa no Oscar 2022 e não é atoa, uma vez que o longa pega o material original do romance de 1967 – do autor Thomas Savage – e desenvolve um estudo envolvente sobre a opressão social, dualidade da intolerância, orientação sexual e toxicidade masculina. E tudo isso dentro de um clássico filme de faroeste!

A trama e o elenco

A adaptação do livro western Ataque dos Cães conta a história de Phil Burbank (vivido por Benedict Cumberbatch), um boiadeiro que possui uma grande fazenda com seu irmão, George (Jesse Plemons). George é bondoso, caloroso e tem uma capacidade de empatia pelas pessoas que Phil não tem. Não que Phil queira essa habilidade especial em seu cinturão de ferramentas de cowboy. Ele é um retrato claro da toxicidade masculina construída por gerações de homens que acreditam serem os “provedores”. Então, quando vê seu irmão gostar da dona de uma pousada local, Rose (a magnífica Kirsten Dunst), vê isso como uma ameaça ao seu estilo de vida digamos… rústico.

Tudo começa a mudar quando descobrimos que há mais complexidade nas camadas internas de Phil do que imaginamos inicialmente e uma sensibilidade habita seu ponto mais íntimo, especialmente ao conviver com o jovem Peter (Kodi Smit-McPhee), que é constantemente ridicularizado por todos por ser afeminado e “fora do padrão” do homem másculo da cidade. Este é o grande conflito da trama: ser o que você deseja ser vs. viver em prol da imagem que a sociedade os impõe. Naquela época, era errado ser cruel e dominador como Phil era? Não necessariamente.

Convenhamos, não existia ambiente de trabalho hostil. Todos respeitam a competência e conhecimento de Phil no que diz respeito à sua profissão (ele é tão intuitivo que sabe quando não usar luvas para risco de envenenamento por antraz). Mas Phil leva sua intimidação a outro nível. Ele começa a atormentar Rose psicologicamente ao encontrar seu ponto fraco – alcoolismo e timidez (George a força a tocar piano como se ela fosse uma atração de circo) – e, através disso, colocar sob seus ombros já calejados como mãe solo de um menino queer, todas as suas frustrações masculinas. Ou seja, acompanhamos a jornada de um protagonista que possui camadas profundas e escolhas contestáveis, por vezes homofóbicas, e que sacrifica seus impulsos, desejos e a sua própria orientação sexual em prol de manter a imagem de “macho alfa”.

A direção

De maneira extremamente sutil e comovente, a adaptação de Campion em Ataque dos Cães habilmente captura não apenas os temas do romance que começa a se construir, como também um olhar penetrante sobre intolerância e opressão em um filme LGBTQIA+ de época que, assim como seu material original, está à frente de seu tempo. Mesmo após quase cinquenta anos desde sua publicação, o enredo ainda permanece fresco e chocante ao mesmo tempo. Fora, claro, os cenários deslumbrantes, filmados através de planos gerais de tirar o fôlego e um ritmo – por vezes lento – que mergulha no quente, abafado e sujo mundo antigo.

Assim como Benedict Cumberbatch (Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa) dá tudo de si e vive um de seus melhores trabalhos da carreira – que pode lhe render um favoritismo ao Oscar ano que vem – Kirsten Dunst (Melancolia) sem sombra de dúvida rouba os holofotes e mostra toda a sua maestria na atuação. A dupla possui uma magnética química contrária e essa polaridade funciona impecavelmente na tela.

Conclusão

Sensível e penetrante, Ataque dos Cães sacode a poeira da mesmice e eleva o nível de modernidade de um faroeste ao apresentar um estudo comovente sobre como a opressão social tem a consequência indesejada de transformar os marginalizados em opressores. Ao tocar em temas como toxicidade masculina, intolerância e orientação sexual, o filme da Netflix mostra que o preconceito nasce da opressão e a crueldade pode ser uma camada de proteção intuitiva do homem criado para ser o alfa. Através de atuações fortes, muita reflexão e uma narrativa visual impecável, o drama sai na frente na corrida por uma estatueta do Oscar e, pelo visto, esse cão ladra E MORDE. Assim como O Segredo de Brokeback Mountain, deve ecoar.

Nota: 9/10


Já conhece nosso canal do YouTube? Lá tem vídeo quase todo dia. Se inscreve! Dá uma olhada no nosso vídeo mais recente:

Aproveite para nos acompanhar nas redes sociais: Facebook, Twitter, Instagram, Youtube e também no Google News.

Quer receber notícias direto no seu celular? Entre para o nosso grupo no WhatsApp ou no canal do Telegram.

Última Notícia
Publicidade

Mais lidas

Mais recentes