Crítica | 007: Sem Tempo Para Morrer – Despedida emotiva e sofisticada a um herói de outros tempos

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Não é nada fácil para uma franquia tão absurdamente extensa – com seus 25 filmes ao todo – conseguir se reinventar a cada nova emboscada que vemos James Bond se meter. E definitivamente esse fator inovação já foi abandonado faz algum tempo para que os roteiros pudessem se concentrar no mais essencial aqui: as cenas mirabolantes de ação? Você diria. Não! Uma forma de dar um desfecho apropriado ao protagonista e ainda deixar um gancho para o futuro, sem parecer que a decisão de sair partiu do próprio Daniel Craig, já exausto de viver o mesmo agente secreto sedutor e cafajeste por 5 filmes em 15 anos. Ao contrário do título, o novo capítulo 007 – Sem Tempo Para Morrer (No Time To Die), chega com ares de encerramento emocional e possui tempo de sobra para dar adeus ao protagonista, enquanto reforça seu legado nas telonas e atinge um novo público.

A trama e o elenco

O enredo de 007: Sem Tempo Para Morrer possui duas preocupações: conclui pontas soltas deixadas nos filmes anteriores – em especial a trama mirabolante e vilanesca introduzida em 007 – Contra Spectre – e colocar Bond novamente na ativa para sua última e mais perigosa missão até então (ele está levando uma vida tranquila e selvagem na Jamaica). Uma missão digna do Esquadrão Suicida.

O longa segue uma energia tão diferente do habitual, que até mesmo a cena de abertura – focada na infância da personagem Madeleine (Léa Seydoux) – é uma sequência de suspense (com direito à jump scare), no lugar das famosas introduções com cenas épicas de ação, já de praxe da franquia.

Ou seja, é o roteiro deixando evidente que, dessa vez, o assunto é família e o drama pessoal das personagens ocupará mais espaço, como de fato acontece. Bond está cansado – assim como Daniel Craig – e sente que é hora de parar e abrir uma vaga para uma nova agente 007, mas o mundo corre um perigo apocalíptico e ele decide que precisa fazer isso mais uma vez, agora que descobre ter descendentes. Sim, ele é um pai de família, quem poderia esperar?

O charme de Craig ainda é forte e seu vigor nas cenas de luta segue presente como nunca, mesmo que haja menos cenas de ação dessa vez do que se poderia esperar para um filme nessa escala. Porém, quem rouba mesmo a cena são as mulheres. Dedinho de Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) no roteiro.

Diferente dos filmes anteriores – em que toda “Bond Girl” que beijava o protagonista terminava na cova – agora as personagens femininas possuem destaque e, na grande maioria das vezes, são bem mais ardilosas e implacáveis que o próprio agente secreto.

Ana de Armas (Entre Facas e Segredos) brilha na melhor cena de ação do filme e Lashana Lynch (Capitã Marvel) assume o posto de 007 com a energia nunca vista numa franquia tão machona como esta. Até mesmo a personagem de Seydoux ganha novas camadas e deixa de ser apenas uma “garota indefesa”. Essa atualização necessária mostra que o futuro da saga está em boas mãos e, finalmente, aceitou se reinventar.

Entre uma sequência e outra de ação global, a trama de 007: Sem Tempo Para Morrer constrói os dilemas pessoais de James e sua relação amorosa com Madeleine, que culminará no desfecho no melhor estilo super-herói, enquanto enfrenta Safin (vivido por um Rami Malek enjoativamente exagerado), o clássico vilão megalomaníaco que deseja usar nanotecnologia como arma biológica para dar um fim ao mundo como conhecemos.

O problema é que Malek está ruim no papel e os planos do antagonista – ainda que bastante grandiosos e criativos – não fogem do clichê da trama de espionagem convencional. Uma vez que já sabemos onde tudo vai dar, as surpresas não são mais tão emocionantes assim e, para um filme de encerramento, isso conta muito. Por vezes, a previsibilidade e o excesso de subtramas malucas sendo desenvolvidas simultaneamente atrapalham a imersão.

Felizmente, as sequências de ação – bastante sofisticadas e bem mais pé no chão – resgatam a nostalgia dos filmes clássicos da franquia (com um carro repleto de aparatos especiais na melhor vibe dos anos 70) e são um deleite aos olhos de todo fã de explosões, perseguições e tiroteios desenfreados.

Diferente de obras como Velozes e Furiosos, por exemplo, aqui o protagonista se fere, sangra e – literalmente – dá tudo de si para continuar de pé. Seu lado humano é colocado à prova e isso estabelece uma conexão imediata com o público. Bond pode morrer nesta missão e sabemos que só assim seria um final corajoso e sem chances de retorno de Craig.

A direção

Ao corrigir os deslizes de ritmo e a repetição das cenas de ação dos filmes anteriores, o diretor Cary Joji Fukunaga (Beasts of No Nation) agrega bem mais coração e menos testosterona à 007: Sem Tempo Para Morrer. Sua condução é orquestrada, coerente e com sequências elaboradas de combate em que conseguimos compreender o que está acontecendo em cena.

A trilha sonora – com abertura composta por Billie Eilish – dá à obra mais destaque no romance e na inevitável despedida, assim como a belíssima direção de fotografia.

Fora a duração exacerbadamente longa – 30 minutos a menos teria deixado a trama enxuta e menos maçante – o restante funciona muito bem. O arco do protagonista, agora despido de machismo e superioridade, mostra a grande evolução que esse personagem vivenciou nos últimos 15 anos e como a indústria do cinema pode e consegue reformular seus heróis sem deixar sua essência de lado.

Ser James Bond, acima de tudo, é ter coragem, inteligência e saber superar seus demônios internos e isso, como bem sabemos, não se aplica à um gênero ou raça em específico, não é mesmo? Daniel encerra sua jornada, mas há muito mais por vir e que, sem dúvida, será bem mais empolgante, refrescante e contemporâneo do que vemos aqui.

Conclusão

Dessa forma, a despedida de Daniel Craig do papel de James Bond em 007 – Sem Tempo Para Morrer carrega ares emocionais, num desfecho sofisticado, ambicioso e que se preocupa muito mais em estabelecer uma conexão tocante com o público do que apenas mergulhar no emaranhado de testosterona desenfreada das atuais franquias de ação.

A presença de roteiristas mulheres envolvidas na produção e o forte apelo de empoderamento feminino – uma vez que as personagens de Ana de Armas e Lashana Lynch roubam a cena e fazem Bond parecer um amador – mostram que é o encerramento de um personagem e não da franquia em si, afinal, James Bond é um estado de espírito e seu legado deve continuar.

Definitivamente é um ótimo encaixe como o segundo melhor filme dessa fase, atrás apenas do invicto Operação Skyfall. Ainda assim, funciona magnificamente como um adeus pontual e digno para o tradicionalismo de um herói de outros tempos.

Nota: 8/10


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