Crítica | No Ritmo do Coração – Cativante, encantador, um dos melhores filmes do ano

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É interessante pensar o cinema além do entretenimento. Filmes são ferramentas e, como tal, funcionam de diferentes formas, tanto para educar sobre algum assunto de extrema importância, quanto para nos fazer fechar os olhos e adentrar em mundos que nunca antes tivemos a capacidade (ou o privilégio) de conhecer. A experiência de derramar uma lágrima que seja com obras ficcionais apenas mostra como a arte possui esse poder de transformação. Por vezes, quando saímos de um filme, ele é que fica dentro de nós para sempre. E essa sensação, ainda que deliciosa, tem se tornado cada vez mais rara. Uma vez ou outra uma obra singela, simples e direta chega arrancando seu coração sem piedade e, no lugar do vazio que fica, preenche com a mensagem: abra seus olhos para o amor à sua volta. Esse é o caso do doce No Ritmo do Coração (CODA), filme Original da Apple TV, que venceu o Festival de Sundance e que chega agora aos cinemas brasileiros pela Diamond Films. Uma verdadeira sinfonia de altos e baixos, que vai do nó na garganta ao riso com a intensidade de uma canção catártica, feita para ressoar para sempre no cinema representativo.

A trama e o elenco

De fato, poderia citar dezenas de clichês críticos sobre “ser o filme que precisamos nesse momento”, “o filme que pode mudar nossos corações e mentes” ou ressaltar o intenso poder de cura que a trama emocional de No Ritmo do Coração possui, mas há algo de especial nessa obra que merece mais que apenas isso.

O longa, um remake com liberdade criativa de A Família Bélier (pouca gente sabe disso!), é feito sob um olhar extremamente sensível e aguçado – tanto da direção quanto do roteiro – faz algo “novo”, por um novo ângulo, ao colocar rostos brancos e não-imigrantes no holofote da reflexão sobre aceitação e intolerância, uma vez que o que os isola do mundo “convencional” é o fato de serem deficientes auditivos.

Dentro de uma intimidade brilhantemente alcançada, o enredo de No Ritmo do Coração expõe as falhas do sistema que não engloba deficientes ou que os coloca como “dignos de pena”. O mundo não está preparado para pessoas fora do padrão estabelecido e esse filme mergulha de cabeça nessa ferida exposta, enquanto nos faz chorar e até mesmo gargalhar das situações cômicas de uma família como qualquer outra, mas com um importante diferencial: um depende emocionalmente do outro.

Quantos filmes você já assistiu sobre o tema que não sejam documentários exaustivos ou que tenham mais de um personagem que utiliza a linguagem de sinais? Pois então, está aí o ponto.

Essa dramédia – com toques divertidos de romance teen (talvez a parte mais fraca da trama? Talvez.) – derruba as barreiras e traz o assunto para um âmbito comercial, dentro de um filme que facilmente pode ser consumido pelas massas e cuja imersão é fácil, rápida e envolvente.

No Ritmo do Coração é estrelado por Emilia Jones (Locke & Key) como Ruby Rossi, uma jovem estudante de 17 anos que se divide entre trabalhar com a família na pesca local e seu amor imensurável pela música. Com um adicional: ela nasceu ouvinte, enquanto seus pais e seu irmão mais velho são completamente surdos. Por conta disso, carrega o difícil fardo de ser a ponte entre os dois mundos, a intérprete da família em todas as situações, algo que fica no caminho entre realizar o sonho de ser uma cantora prestigiada. A música vive dentro dela assim como o amor e a proteção que tem por sua família – ridicularizada na cidade apenas pela deficiência – e esse é o poderoso conflito da trama.

Além de atuações extremamente verossímeis de todo o elenco, simplesmente perfeito, vale destacar a performance digna de um Oscar, diga-se de passagem, da jovem Jones, que não apenas atua belissimamente bem, como canta e utiliza a linguagem de sinais boa parte do filme. Há talento de sobra e a menina rouba a cena toda vez que abre a boca. Ela é um fenômeno.

Porém, claro que o restante dos personagens são fantásticos, todos muito bem trabalhados no drama e com um senso de humor delicioso. Troy Kotsur, que vive o pai de Ruby, é hilário e proporciona uma das cenas mais delicadas que particularmente já vi na última década, com ele sentindo a vibração do canto da filha apenas com as mãos.

Marlee Matlin (ganhadora do Oscar de Melhor Atriz por Filhos do Silêncio) vive uma mãe complexa, mas carregada de amor e sensibilidade, assim como Daniel Durant (You), o irmão mais velho protetor, que sabe que Ruby precisa voar.

Outro que nos emociona é o professor latino do coral, vivido por Eugenio Derbez – o grande condutor do sonho da protagonista, que evidencia o poder de influência e sabedoria que professores possuem em nossas vidas.

O senso de comunidade e união da família é o ponto forte desse elo que nos cativa e emociona, além de, claro, a forma como a música – algo totalmente sensorial – funciona como agente transformador. A menina não pode usar fones pois seus pais acham rude, ela canta, mas eles obviamente nunca puderam escutar para saber se tem potencial, ela entra para o coral da escola (no melhor estilo Glee), mas tem medo de passar vergonha na frente de todos. Ou seja, sua vocação vive aprisionada dentro de si, esperando o dia que irá sair como uma explosão e a libertar dessa falta de confiança em si mesma, como acontece na comovente cena final que deixa o espectador aos prantos.

A direção

Escrito e dirigido por Sian Heder (Tallulah), o roteiro é fundamentado, mas engraçado e carinhoso. Pode não ser o retrato mais preciso de um deficiente auditivo, mas a cineasta nunca deixa que isso atrapalhe sua boa história.

No mesmo nível de intimidade e ternura que diretoras como Greta Gerwig trabalham suas protagonistas femininas, ela desenvolve um “coming of age” sobre amadurecimento dentro das normas do gênero teen, mas passa longe de ser clichê ou mesmo estereotipado.

O enredo permanece fiel aos temas almejados, ao mesmo tempo em que é animado o suficiente para transmitir a mensagem central sem forçar a barra, ou pior, forçar o choro. O objetivo do filme é ser “agradável ao público”, não deprimente. Além disso, vale destacar também que todo os personagens surdos são vividos por atores realmente surdos e isso faz total diferença. Sabe a tal da inclusão e representatividade? É assim que se faz.

Conclusão

Através disso, No Ritmo do Coração é ardilosamente catártico. Um filme que dá um nó gigante na garganta e, ao mesmo tempo, levanta o ânimo com uma história comovente sobre aceitação, inclusão e amadurecimento. Sentimentos esses que são genuínos e que dão vida ao drama bem-humorado e carregado de ternura de uma jovem cantora com pais surdos.

Emilia Jones é uma verdadeira estrela. Uma das melhores performances do ano, para combinar com essa obra encantadora, gentil e cativante que facilmente se consagra como um dos melhores filmes de 2021. Faça um favor a si mesmo e vá assistir assim que puder.


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