Enquanto a Marvel Studios criava um império invejável de filmes interligados e um universo rico em histórias extraordinárias, a produtora – através do público-alvo desse começo incerto – investiu apenas nos personagens masculinos para formar a base da super equipe que dominaria as bilheterias mundiais nos próximos anos. Com o salto de fé sendo um sucesso absoluto e Thor, Homem de Ferro e Capitão América tendo ascensão mundial, uma parte significativa estava sendo ignorada e diversos erros foram cometidos nos alicerces dessas obras que viriam a ecoar no futuro próximo. E talvez o maior deles seja mesmo no problemático e medíocre desenvolvimento da combatente Natasha Romanoff, a Viúva Negra.

Uma personagem interessantíssima, repleta de camadas densas e com força o suficiente para ser o carro-chefe do estúdio no quesito representatividade feminina, mas que, desde sua introdução no terrível Homem de Ferro 2 (2010), a personagem serve como artifício de roteiro para alavancar a jornada dos demais heróis. Seja para ajudar Clint Barton, Tony Stark ou Steve Rogers em suas missões ou para acalmar o coitado do Hulk quando necessário, a poderosa Viúva Negra sempre serviu – para os roteiristas – como uma espécie de distração, uma seta vermelha hiper-sexualizada que apontava para o flerte, o humor ou o romance mal desenvolvido. Ela nunca teve seu devido destaque como protagonista de sua própria aventura.

Bem, pelo menos até agora, com a chegada do tardio filme solo que, apesar de aguardado por todos por longos 10 anos, acaba por comprovar que sua última oportunidade de brilhar é, na realidade – e literalmente – uma justificativa para fazer uma piada amarga sob seu túmulo recém cavado. A despedida datada, ainda que repleta de cenas de ação mirabolantes, chega como uma faca afiada para abrir a ferida deixada por sua injustificável morte e prova que a Marvel, além de ter errado novamente com a Vingadora original, ainda teve a audácia de falhar em seu próprio filme como líder.

A trama, o elenco e a direção

Como já sabemos há algum tempo antes da estreia, a trama de Viúva Negra (Black Widow) se passa entre dois grandes filmes do estúdio, num espaço vazio de mais ou menos dois anos na ordem cronológica do MCU – entre Capitão América: Guerra Civil e Vingadores: Guerra Infinita. Ou seja, o longa mais parece uma estranha sequência de um filme de origem que nunca existiu e, como tal, dá continuidade à fuga da espiã após estar foragida do governo americano por conta do lado que escolheu lutar em Guerra Civil.

Mas, antes disso, um longo e interessante flashback de introdução, ao som de “Smells Like Teen Spirit”, mostra detalhes de sua infância (onde é interpretada pela filha da atriz Milla Jovovich, Ever Anderson) com uma família russa de fachada no interior dos EUA.

Pela primeira vez vemos algo mais profundo da personagem e conhecemos seus traumas que viriam a transformá-la na mulher durona que é nos tempos atuais. E não apenas traumas familiares, mas sim como ela foi arrancada de sua adolescência para se tornar – contra sua vontade – uma espiã implacável toda trabalhada na tortura psicológica, na violência física e na falta de livre-arbítrio.

No entanto, nos dias de hoje (no caso, em por volta de 2017), Natasha (Scarlett Johansson segue invicta no carisma e humor que tanto nos conquista) quer apenas descansar e se manter escondida pelo máximo de tempo possível, porém, um evento maior acaba necessitando de suas habilidades especiais, uma vez que descobre que sua irmã fictícia, Yelena Belova (Florence Pugh), pode estar em sério perigo, asism como diversas outras meninas que foram transformadas em Viúvas.

Ao seguir na sua jornada solo enquanto os demais Vingadores cuidam se suas próprias vidas, a heroína confronta erros do passado, reencontra sua família de fachada e encaminha todas as narrativas para seu eventual e trágico sacrifício no planeta Vormir, em Vingadores: Ultimato.

Desse enredo carregado de sentimentalismo e melancolia, o roteiro até consegue desenvolver momentos de humor equilibrados com drama e uma relação divertida e carismática entre Natasha e Yelena (vivida por uma Pugh que rouba a cena e quem sabe até mesmo o filme!), mas não consegue justificar sua essencialidade dentro desse universo como um todo. Há a sensação de ser três filmes dentro de apenas um: sua origem, seu desenvolvimento e seu legado pós-morte.

Enquanto apresenta o drama da família disfuncional, a outra parte do roteiro foca em desenvolver uma trama de espionagem aos moldes dos filmes antigos de James Bond (até o vilão Dreykov e seu plano antiquado de dominação parecem terem sido retirados dessas obras clássicas) e a franquia Bourne, mas a homenagem deixa o longa ainda mais arcaico e sem substância ao repetir os mesmos erros.

O fato de o filme ser datado não é apenas por conta de seu timing de lançamento ser fora da curva central da história – uma vez que Natasha, no momento atual do MCU, está morta e ganhar algo solo depois desse acontecimento parece algo meio desesperado por dinheiro, talvez – ou mesmo por se passar inteiramente em diversos pontos do passado (algo que faz dele um enorme flashback), mas, principalmente, por não conseguir o fundamental: acrescentar algo de valor ao fim trágico da heroína como forma de redenção pelo erro cometido. Nisso, o roteiro falha catastroficamente. E sim, certamente nós estejamos cobrando demais desse filme e talvez não tanto de outros protagonizados por homens no MCU, que são bombas terríveis, sim, isso existe, porém, parte dessa cobrança extra está na própria expectativa que a Marvel colocou em cima do público que tanto ama a personagem, como se esse filme solo, além de explicar sua origem com carinho, também fosse corrigir erros do passado e trazer um novo olhar à Natasha, algo que definitivamente não acontece e faz sua última chance de brilhar ser um desperdício de enorme potencial narrativo.

Além disso, como a heroína é humana (claro, treinada a vida toda para matar e sobreviver), esse talvez seja o filme do estúdio que mais nos desperte a tal da suspensão da descrença, algo que acaba não sendo tão evidente nos demais com deuses do espaço, super-soldados e armaduras indestrutíveis. Natasha é apenas uma pessoa com habilidades (o que faz dela tão cativante e profunda) e, como tal, é colocada em cenas de ação grandiosas demais, mirabolantes e repleta de perigos para um corpo humano convencional.

Por escolher não seguir por um caminho mais pé no chão, com cenas de lutas, combates e aprofundamento nos dramas pessoais, como vemos no ótimo Capitão América: Soldado Invernal, o longa aumenta sua escala de ação para preencher, mais uma vez, o desenvolvimento precário da heroína e isso nos afasta de ter um filme de espionagem deliciosamente traçado e criativo, para ter um preguiçoso variado de Missão: Impossível e/ou John Wick, com suas acrobacias e explosões espetaculares na tela do cinema, dirigidas por Cate Shortland (Berlin Syndrome), uma cineasta que sabe filmar majestosamente e que prova a diferença que faz quando as cenas de ação são bem orquestradas. Dá até pra sentir o peso dos golpes. De longe, a direção e o ritmo do longa são seus pontos mais altos, sendo os efeitos especiais e o CGI vergonhoso de algumas cenas, o fundo do poço.

E entenda, está tudo bem fazer algo de maior escala para a heroína, porém, esse é seu ÚNICO filme solo, seu filme de “origem”, seu motivo para retornar mais uma vez ainda que não esteja mais viva, então sim, falta emoção genuína e sobra reviravoltas rasas, como a do próprio “vilão”, Treinador, e sua identidade mantida em sigilo para que, no fim, fosse algo bastante desanimador.

O roteiro de Viúva Negra apresenta seu passado e suas relações pessoais, mas nunca mergulha de cabeça nisso, nem mesmo no programa das Viúvas em si, na Sala Vermelha, no que aconteceu em Budapeste (junto com o Gavião Arqueiro) e como isso mudou Natasha para sempre, tudo é feito de forma superficial e não agrega novidade alguma ao que já sabíamos por alto, como se o filme fosse apenas uma nota de rodapé. Fora, é claro, a introdução de novos personagens, como o Guardião Vermelho do hilário David Harbour (Stranger Things) – o alívio cômico que diverte em partes por conta do sotaque russo extremamente distrativo à la novela indiana da Globo – e da irônica e ácida Melina (vivida pela fantástica Rachel Weisz), mas isso (somado à cena pós-créditos que conecta às séries do Disney+ com o cinema) apenas reforça como o filme AINDA serve apenas para apresentar novos nomes ao MCU, quando, na realidade, era para ter o foco total na Viúva e sua jornada para perdoar a si mesma e lavar todo o sangue que escorre de suas mãos.

Em outro fato, claramente a heroína nunca foi planejada para ser um exemplo para as crianças, ou mesmo uma inspiração – como Pantera Negra ou Mulher-Maravilha – e está tudo bem com isso, não há necessidade de ser algo apenas por ser uma “personagem feminina forte”, mas ela é a única mulher Vingadora original, uma guerreira de coração puro e honesto, um exemplo de superação com um passado muito mais profundo que de qualquer homem privilegiado da equipe. Esse filme falha em ser inspirador para o público mais jovem, mesmo com a boa sororidade existente na trama. Parece que nem mesmo a Marvel acredita no potencial da heroína. Um triste engano que persiste por 10 anos e que agora, infelizmente, é tarde demais para ser corrigido.

Conclusão

Com isso, ao se afastar de uma trama de espionagem pé no chão e surpreendentemente mergulhar em cenas de ação mirabolantes – como cortina de fumaça para erros – parece que ser datado talvez seja o menor dos problemas de Viúva Negra, uma vez que falha em justificar sua existência pós-morte da protagonista, ao mesmo tempo que conta uma história solo que novamente abusa da heroína mais interessante, densa e carismática do MCU como um simples acessório de roteiro para alavancar a jornada dos demais personagens.

Natasha merecia bem mais, a Marvel sabe e PODE fazer melhor, uma pena que para a Viúva Negra seja o fim da linha para que haja uma redenção realmente satisfatória e faça jus ao nível de amor e carinho que os fãs possuem pela espiã. Ainda assim, a despedida agridoce tem bom humor, química do elenco e passa o bastão para Florence Pugh, a verdadeira estrela desse filme.

Nota: 7/10

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