Crítica | A Guerra do Amanhã – Ação monumental em épico do Prime Video




Definitivamente o que faz um bom sci-fi ser bom é o fato de não apenas preencher o checklist de elementos essenciais para mover a aventura para frente, mas também em saber subverter expectativas e, acima de tudo, se divertir com as ideias exploradas, especialmente se a trama envolve a tão complexa viagem temporal. Mexer com o tempo é uma benção – quando bem realizado por um roteiro engenhoso – mas pode também ser a grande maldição, uma vez que a história se perde dentro de seus próprios conceitos – ou na ausência deles. Nesse quesito, A Guerra do Amanhã (The Tomorrow War), nova superprodução do Amazon Prime Video, faz o possível para extrair uma ficção científica raiz de um roteiro massivamente abarrotado de conveniências. Porém, felizmente, o conjunto da obra surpreende pela proporção épica da ação futurista, que merece ser vista na maior qualidade de som e imagem possível de ser feita no conforto de casa.

A trama e o elenco

Através de uma introdução até longa para os padrões do gênero, o roteiro, curiosamente, acerta – ainda que sim, quebre o ritmo em partes – em se aprofundar nos personagens e nos dilemas do protagonista Dan Forester (vivido por Chris Pratt) com sua filha antes de partir para explorar tiroteios desenfreados contra alienígenas bizarros, afinal, é de extrema importância, nesse tipo de obra, que nos importemos com cada indivíduo que conduz a história, uma vez que essa carga extra de emoção é que vai servir de combustível para que o desfecho dramático funcione.

Dito isso, a trama – situada em 2022 – segue para o esperado conflito quando, no meio de um jogo da Seleção Brasileira de Futebol (sim, é real!), uma invasão de soldados vindos do futuro interrompe a partida e avisa o aterrador: “precisamos de civis para lutar uma guerra contra alienígenas que irá provocar o apocalipse da Terra em 2051”. Os viajantes do tempo relatam que uma espécie extraterrestre mortal deve vencer a humanidade caso algo não seja feito 30 anos antes. É claro que Dan é convocado para essa batalha no futuro, porém, ir à jornada pode significar nunca mais ver sua família, uma vez que as criaturas são realmente aniquiladoras e selvagens.

Dessa premissa, entre alguns conflitos familiares, tanto de Dan com sua filha e esposa, quanto dele com seu pai ausente e canastrão (vivido pelo hilário J.K. Simmons), a trama mergulha de cabeça em todos os melhores elementos do gênero e faz uma saborosa batida de liquidificador de ação, suspense, drama e humor. Aliás, Pratt (Guardiões da Galáxia), com todo o seu charme e carisma, faz uma dupla inexplicavelmente perfeita com Simmons, mesmo dividindo poucas cenas juntos. O astro sabe lidar com cenas de ação como poucos, especialmente com toneladas de efeitos digitais. Mas é Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale) que brilha através de uma personagem densa e cheia de conflitos. Sem dúvida, a atriz rouba a cena e mostra que Pratt é bom na ação física, mas pouco envolvido nas cenas dramáticas.

Com tantas semelhanças, torna-se inegável não comparar A Guerra do Amanhã com o clássico Tropas Estelares, aliás, certamente há fortes influências de obras como O Exterminador do Futuro, Prometheus, Cloverfield e talvez a mais clara de todas: No Limite do Amanhã. Ainda assim, o roteiro sabe dosar esses elementos já conhecidos e subvertê-los para caminhos novos – ou talvez mais criativos.

As criaturas são assustadoras e desenfreadas, algo que proporciona boas cenas de suspense e desespero. Os efeitos especiais, por sua vez, também são cabíveis e funcionam bem dentro da necessidade. Fora um chroma key mal feito em determinadas cenas mais explosivas, os cenários compõem a atmosfera de apocalipse do futuro e a trilha – absurdamente alta e constante – não nos deixa esquecer que são as cenas de ação que vão tornar esse longa memorável para o público. E realmente tornam. As sequências são bem dirigidas e instigantes, algumas de roer as unhas, fruto de um diretor experiente nos queridinhos filmes de super-heróis.

A direção e o roteiro

Para um diretor com altos e baixos, sendo o ponto alto ter feito o divertido LEGO Batman: O Filme, Chris McKay consegue manter boa energia nas espetaculares cenas de ação e, mesmo com alguns planos bagunçados, é possível compreender o que está acontecendo em cena. Isso é bastante louvável, uma vez que grande parte desses filmes são apenas bagunçados mesmo.

Apesar da duração de mais de 2 horas ser um exagero, especialmente por se estender demais no começo e ter um desfecho anticlimático de duas grandiosas cenas de ação conclusivas seguidas – sendo a segunda totalmente apressada para se encaixar na conveniente premissa de que “estava aqui o tempo todo só você não viu”, e das artimanhas de um roteiro preguiçoso que, em determinado ponto, joga as cartas pro alto e abre mão de qualquer explicação mais elaborada sobre o conceito de viagem no tempo, para aderir ao famoso “é isso aí e pronto!”, o humor dos personagens e situações extraordinárias compensa as falhas e ofuscas danos maiores.

Conclusão

Com isso, Cloverfield encontra Tropas Estelares e o charme de Chris Pratt, somado às monumentais cenas de ação – que misturam futurismo, guerra e sci-fi extraterrestre -, transformam A Guerra do Amanhã em uma enérgica aventura com viagem no tempo, mesmo que tudo isso não passe de apenas uma cortina de fumaça para ofuscar o roteiro fascinado pela inconsistência. Passa longe de ser um blockbuster ruim e, como tal, deve agradar fãs do gênero e quem busca um passatempo escapista que, no fim das contas, até nos dá esperanças para um futuro pós-pandemia. Definitivamente o nível de qualidade cinematográfica dos filmes para streaming cresce daqui para frente.

Nota: 8/10




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