O cinema – apesar da relutância de muitos – é um movimento político e representativo que funciona como agente transformador de caráter. Tal como a comédia é o gênero que melhor molda assuntos sérios para um formato que possa não apenas penetrar em certas bolhas, como também plantar sementes que virão a crescer e derrubar preconceitos em algum momento no futuro. Dito isso, Quem Vai Ficar Com Mário?, nova comédia nacional do diretor Hsu Chien (Ninguém Entra, Ninguém Sai), chega derrubando essas cercas e nos permite refletir sobre viver a nossa verdade mais pura ao se aventurar pelo sinuoso caminho de um jovem que está em processo de descobrir sua sexualidade e, além disso, precisa se assumir para a tal caótica “família tradicional brasileira” que possui. A jornada é densa, mas o humor ácido contorna possíveis estereótipos e entrega um filme singelo, mas que tem algo a dizer.

A trama e o elenco

Aliás, é importante salientar que Quem vai ficar com Mário? é uma adaptação abrasileirada da comédia italiana O Primeiro que Disse (Mine Vaganti), do cineasta Ferzan Özpetek, lançada em 2010. O trabalho do roteiro é extremamente engenhoso na maneira fluída e natural em que aproxima essa história, contada através do ponto de vista de 10 anos atrás, ao nosso cotidiano atual. O remake não apenas atualiza questões já datadas como também expande sua representatividade para todas as pontas da bandeira LGBTQ+, algo que, certamente, funciona melhor hoje do que no passado.

Mesmo que a ambuiguidade do desfecho possa decepcionar algumas pessoas, o resultado é construído com delicadeza e com a ajuda dos bons personagens presentes na aventura de Mário (vivido pelo carismático Daniel Rocha), que viaja do Rio de Janeiro para visitar sua família gaúcha na região serrana do Rio Grande do Sul – e para revelar ao mundo que se identifica como um homem cis gay – mas que, durante o processo, descobre que seu coração ainda possui espaço para amar uma mulher, vivida pela hilária Letícia Lima, uma jovem empoderada e dona de seu próprio nariz, que abala as estruturas de Mário e tudo que ele achava que sabia sobre si mesmo.

Dessa premissa divertida, a trama desenrola um típico triângulo amoroso de comédias estadunidenses e explora todos os aspectos da dramédia familiar, como o pai machista e homofóbico que necessita se desconstruir, os amigos gays que precisam disfarçar o lado afeminado e o próprio protagonista, que decide provar para todos que ser gay ou bissexual é apenas uma parte de sua personalidade.

O humor ácido e cirúrgico do texto adentra esse drama para dar a quebra necessária e o equilíbrio entre a emoção e o riso. As piadas de duplo sentido são realmente boas (lembra aquele “tiozão do pavê” que toda família possui) e se tornam ainda melhores com a performance do elenco, especialmente Felipe Abib e a diva Nany People, fora, claro, o pai (Zé Victor Castiel) rabugento e tradicionalista, que arranca risada através do seu lado mais ridículo e intolerante. A química em cena é evidente e os personagens, ainda que desenvolvidos apressadamente, conseguem manter uma conexão emocional com o espectador.

A direção

Sem dúvida, uma das questões que mais incomoda e que pesa negativamente para o longa, é o fato de dois atores heterossexuais serem escalados para dar vida a personagens gays – que facilmente poderiam ter sido interpretados por um elenco mais inclusivo -, mas vale ressaltar que o cineasta Hsu Chien faz parte da comunidade e seu olhar sensível sobre os temas abordados mostra não apenas vivência, como também uma dose de respeito e sabedoria em explorar esse mundo que pode ser estereotipado em mãos erradas. Dito isso, sua condução é enérgica, possui um bom ritmo e balanceia as nuances emocionais sem perder o desenvolvimento da narrativa.

O elenco está visivelmente se divertindo em cena e confortável, fato esse que auxilia a veracidade do humor e mantém o astral sempre no topo. A parte técnica, por sua vez, acerta na direção de fotografia, realmente belíssima para uma obra de menor escala como esta, mas possui problemas na trilha, mesmo com a presença singular da cantora Pabllo Vittar. As canções poderiam ter mais presença, especialmente pela ambientação romântica da cidade e a atmosfera emocional do dilema pessoal do protagonista e sua relação controversa com seu pai. Ainda assim, a montagem mantém nível de qualidade da direção e as reviravoltas do roteiro, mesmo previsíveis, são satisfatórias por conta das reflexões que provocam. A coragem de lidar com temas como homofobia, masculinidade tóxica e machismo em uma obra que deve ultrapassar a bolha e atingir públicos enraizados nesses preconceitos, faz todo o esforço ser recompensado.  

Conclusão

Dessa forma, o humor afiado e o drama familiar de Quem Vai Ficar com Mário? transforma essa comédia nacional em uma surpresa adorável, bem-intencionada e puro alto-astral, que celebra o amor e o respeito nesses tempos sombrios em que vivemos. Em um ano terrível, no qual o Brasil perdeu o ícone Paulo Gustavo e seu humor representativo, que derruba muros por onde passa, essa mensagem doce é como um abraço de resistência, que deve aquecer até os corações de pedra. E que Mário? Pergunta a piada infame, mas agora temos uma resposta adequada: aquele que pode te ajudar a se aceitar e sair desse armário.

Nota: 8/10

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